Uma autora bipolar sobre sua doenca

Friday, 2 October 2009


Publicado em 13/01/2008

Aceite-me como sou, quem quer que eu seja


Escritora bipolar relata os problemas que teve em sua vida pessoal até procurar ajuda para o problema. "Ao sair comigo, era possível ir para a cama com madame Bovary e acordar com Hester Prynne."

Terri Cheney

Na condição de mulher bipolar, eu vivi grande parte da minha vida em estado constante de me tornar outra pessoa. O termo preciso para minha desordem é "oscilação de humor em ritmo ultradiano rápido", o que significa que sem medicação eu fico à mercê de minhas oscilações espetaculares de humor: "animada" por dias (encantadora, falante, efusiva, engraçada e produtiva, mas sem dormir e no final difícil de permanecer por perto), depois "deprimida" e basicamente imóvel, às vezes por semanas.

Estas trevas começaram no colégio, quando simplesmente não consegui levantar da cama certa manhã. Não seria um problema, se não tivesse permanecido lá por 21 dias. À medida que tal padrão persistia, meus pais, amigos e professores passaram a se preocupar, mas apenas pensavam que eu era excêntrica. Afinal, eu continuava sendo uma estudante estelar, nunca me comportei mal e me formei como oradora da turma.

O mesmo aconteceu em Vassar, onde me sai bem academicamente apesar da minha doença mental. Então cursei facilmente a faculdade de direito e rapidamente encontrei uma carreira de sucesso como advogada de entretenimento em Los Angeles, onde representei celebridades e grandes estúdios de cinema. De vez em quando eu procurava ajuda por meio de um desfile interminável de médicos, terapeutas, medicamentos e tratamentos angustiantes como choques elétricos, sem sucesso.

Fora os médicos, ninguém sabia. No trabalho, onde meu talento e produtividade eram só o que importava, eu podia esconder meu segredo com relativa facilidade. Eu mantive amigos e família sem saber com desculpas elaboradas, apenas aparecendo quando tinha certeza que causaria boa impressão.

Mas minha vida pessoal era outra história. No amor não há como esconder: você precisa permitir que alguém saiba quem você é, mas eu não tinha nenhuma pista de quem eu era de um momento para outro. Ao sair comigo, era possível ir para a cama com madame Bovary e acordar com Hester Prynne. O pior de tudo, o meu lado maníaco, encantador, constantemente me colocava em situações com que meu lado deprimido não conseguia lidar.

Por exemplo: certa manhã eu conheci um homem no corredor de frutas do supermercado. Eu não dormia há três dias, mas não era possível saber apenas olhando para mim. Meus olhos tinham um brilho verde, meu cabelo ruivo reluzia e eu literalmente resplandecia (eu vestia uma camiseta de lantejoulas douradas no supermercado -gosto maníaco é sempre mau). Eu estava faminta, mas não por alimentos. Eu estava faminta por ele, em sua calça jeans surrada, seu boné dos Yankess ligeiramente inclinado.

Eu parei meu carrinho ao lado do dele e comecei a apalpar sensualmente um pêssego. "Eu gosto deles bonitos e firmes, e você?"

Ele concordou. "E sem machucados."

Era tudo o que eu precisava, uma abertura, e perdi o equilíbrio. Eu lhe disse meu nome, perguntei o que ele gostava e não gostava em frutas, esportes, candidatos presidenciais e mulheres. Eu falava tão rapidamente que mal tinha tempo de ouvir as respostas.

Eu não comprei nenhum pêssego, mas consegui um encontro para jantar no sábado, duas noites depois, o que me permitia bastante tempo para descansar, depilar as pernas e escolher a roupa perfeita.

Mas assim que cheguei em casa, as trevas já tinham tomado conta. Eu não tinha vontade de revirar meu guarda-roupa ou mesmo guardar minhas compras. Eu apenas as deixei no balcão para apodrecer ou não - de que importava? Eu nem mesmo troquei minha camiseta de lantejoulas. Eu caí na cama do jeito que estava e permaneci lá. Meu corpo parecia que tinha sido mergulhado em concreto de secagem lenta. Eu só conseguia inspirar e expirar, repetidas vezes. Eu teria chorado devido a simples monotonia disso, mas lágrimas eram esforço demais.

Na tarde de sábado o telefone tocou. Eu ainda estava na cama e tive que me esforçar para rolar de lado, atender e murmurar alô.

"É o Jeff, dos pêssegos. Estou ligando para confirmar seu endereço."

Jeff? Pêssegos? Eu me lembrava vagamente de ter conversado com alguém que se encaixa em tal descrição, mas parecia há uma eternidade. E aquela que conversou era uma outra pessoa, ou pelo menos não a pessoa que eu era no momento - eu nunca vestiria lantejoulas pela manhã. Mas minha consciência sabia melhor. "Levante, vista-se!" ela sussurrou no meu ouvido. "Não importa que tenha sido a outra que marcou o encontro, você precisa ir até o fim disto."

Quando Jeff chegou às 19h, eu estava vestida e pronta, só que mais para um enterro do que para um encontro. Eu estava toda de preto e sem maquiagem, de forma que minha pele naturalmente clara parecia fantasmagórica e pálida. Mas eu abri a porta e até mesmo dei o rosto para ser beijada. Eu não senti prazer em sentir os lábios dele na minha pele. Prazer era para os vivos.

Eu não tinha nada a dizer, nem naquele momento e nem no jantar. Então Jeff falou, bastante no início, depois menos e menos até que, finalmente, durante a sobremesa, ele perguntou: "Você por acaso não teria uma irmã gêmea, teria?"

Mas mesmo assim fiquei arrasada por ele não ter telefonado.

Duas semanas depois, eu acordei em um mundo saído da Disney: céu claro e ensolarado. Passarinhos cantavam do lado de fora da minha janela, uma canção sem dúvida criada especialmente para mim. Eu não podia esperar mais nenhum minuto. Chutei longe as cobertas e dancei de camisola - minha camisola de flanela cinza de presidiária. Eu a vislumbrei no espelho, me arrepiei e a arranquei também.

Eu revirei meu guarda-roupa em busca de algo decente para vestir, mas tudo em que colocava as mãos era errado, errado, errado. Para começar, era tudo preto. Eu odiava preto, ainda mais do que odiava cinza. Ruivas devem ser fiéis às suas cores, seja qual for o custo. Eu procurei mais fundo e lá, socada no fundo, se encontrava uma calça jeans apertada e algo sedoso e brilhante que era exatamente o que eu precisava: uma requintada camiseta de lantejoulas douradas.

Eu a vesti e me maquiei por um minuto. Nossa, eu estava bonita. Então vesti o jeans. Eu ganhei alguns quilos durante as duas últimas semanas de existência indolente. Mas com uma forcinha ela fechou. Mas algo estava saindo para fora do bolso: um cartão de visita, com algumas palavras rabiscadas no verso: "Me telefone, Jeff". Jeff?

Jeff! Eu chutei a camisola para fora do meu caminho e agarrei o telefone ao lado da cama. Será que 6h30 era cedo demais para telefonar? Não, não para o bom e velho Jeff! O telefone tocou e tocou. Eu estava prestes a desistir quando um voz grossa e sonolenta atendeu: "Alô?"

"Sou eu! Por que não me telefonou?"

Levou algum tempo para estabelecer quem "eu" era, mas no final ele lembrou. "Você está soando diferente", ele disse. "Ou não, talvez esteja soando mais como você mesma. Não sei ao certo. É cedo demais."

Logo eu o fiz rir tanto que ele ficou com soluço e teve que desligar. Mas antes de desligar, ele me convidou para sair na sexta, três noites depois.

Não, eu insisti, tinha que ser nesta noite, ou mesmo nesta tarde. Eu não queria perder outra chance de conhecê-lo. Eu sabia que o tempo da Cinderela no baile era limitado.

Nós marcamos um jantar naquela noite às 20h. Eu passei a tarde removendo da minha casa todas as evidências de depressão. Eu lavei, escovei, espanei e varri, usando todo equipamento e material disponível, mesmo aqueles que me assustavam. Então sai correndo e comprei uma dúzia de lírios Casablanca para esconder o cheiro de amônia e água sanitária.

Quando a casa parecia perfeita, eu me voltei para mim mesma com a mesma fúria. Me depilei, lavei, penteei, passei creme e me maquiei, fazendo tudo o que podia para recriar a atração de Rita Hayworth em "Gilda". Eu quanto delineava os olhos, eu lembrei de seu comentário comovente sobre o filme: "Todo homem que conheci se apaixonou por Gilda e acordou comigo". Aquilo me atormentou, a ponto de minha mão começar a tremer e não conseguir terminar de aplicar minha máscara.

De repente eu não parecia radiante. Havia linhas ao redor da minha boca e um vazio em meus olhos que me envelheceu 10 anos. Minha pele, apesar da base cuidadosamente aplicada e blush, estava tão pálida que me encolhi.

Eu me sentei no vaso sanitário e comecei a chorar. Eu já tinha encontrado a inimiga tantas vezes que a conhecia de longe. Não agora, eu rezei. Por favor, não agora. Pelotas da máscara escorriam pelas minhas bochechas e eu as removi, sem considerar as estrias que deixaram. Eram 19h57. Eu tinha três minutos para obrigar a química do meu cérebro a se submeter. É claro, eu sabia que havia outra opção. Eu podia dizer ao Jeff o que estava acontecendo. Mas aquele era um homem que não gostava de seus pêssegos machucados. O que pensaria de um mente danificada?

Talvez ele seria compreensivo. Talvez eu encontraria a coragem. Talvez alguém encontraria uma cura.

Talvez, mas não nesta noite. Quando a campainha tocou e tocou, eu me agachei no banheiro, tremendo. Eu estava apavorada - não apenas de Jeff me encontrar lá, mas de nunca mais encontrar um amor.

Quando finalmente tudo silenciou, eu lavei o restante da minha máscara e joguei meu vestido de noite no cesto. Então abotoei minha camisola de flanela cinza e me preparei para a longa noite que viria. Eu nunca mais tive notícias do Jeff.

Isto foi há cinco anos - cinco longos anos de altos e baixos, de busca pelo médico certo e pela dosagem certa. Eu finalmente aceitei que não havia cura para o desequilíbrio químico no meu cérebro, assim como não há cura para o amor. Mas há uma pequena pílula amarela da qual sou fã, assim como de uma azul clara, e algumas cápsulas cor-de-rosa e um punhado de outras cores que recuperaram minha vida. Sob a influência delas, eu sou uma outra pessoa, nem madame Bovary e nem Hester Prynne, mas alguém entre elas. Eu tenho oscilações de humor, mas não me arremessam em uma outra personalidade.

Ironicamente, a estabilidade é tão empolgante que decidi me aventurar a sair de novo. Eu sucumbi à pressão de amigos e assinei por três meses um serviço de encontros por computador. "Quem é você?" o questionário pergunta logo de início.

Eu quero ser honesta, mas não sei como responder. Quem sou eu? Ou quem eu era?

A vida parece tão mais sob controle atualmente: enganadoramente quieta, como um tigre com garras aveludadas. De vez em quando o sol brilha tão fortemente que acho, por um momento, que sou dona do céu. Eu penso quão maravilhoso seria ser Gilda, ao menos em minha própria mente. Mas então eu lembro do preço do céu. Então tiro minha maquiagem, despenteio meu cabelo e vou ao supermercado de agasalho de ginástica. A camiseta de lantejoulas dourada está abandonada no meu guarda-roupa. Eu estou pensando em dá-la.

Talvez ainda não.

Tradução: George El Khouri Andolfato
Visite o site do The New York Times

Posted by Vanessa Marsden at 07:36  

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