O suicídio do goleiro alemão Robert Enke e questões pertinentes em saúde mental

Thursday, 19 November 2009



Robert Enke aparentemente tinha uma vida perfeita: uma esposa bonita, mansões, carros, e a honra de jogar como goleiro pelo time do seu país, a Alemanha, na próxima Copa do Mundo. Entretanto, ninguém viu o câncer espiritual que o estava a devastar.

Logo após as seis da tarde de 10 de Novembro, ele parou sua Mercedes em uma rua secundária de um distrito de Hanover, deixou as chaves e sua carteira no banco do passageiro, saiu à chuva em direção à uma solitária plataforma ferroviária e jogou-se debaixo das rodas de aço do trem expresso Bremen-Hanover 4427. O local não foi escolhido aleatoriamente: a menos de 100 metros está o túmulo de sua filha Lara, falecida em Setembro de 2006 aos 2 anos de idade. Na nota de suicídio, Enke pede perdão por sua decisão consciente de enganar a todos, fingindo que estava a se sentir melhor e por esconder seus planos de se matar.

No começo deste ano, Enke e a esposa haviam adotado uma menininha (Leila) e sua viúvia referiu em uma conferência de imprensa que o goleiro apresentava medos irracionais de que Leila seria removida de sua guarda. Vestida em trajes negros e com dificuldade para segurar as lágrimas Teresa, sua viúva disse: "Quando sua depressão estava aguda, foi muito difícil para nós, porque ele perdeu toda sua energia, toda esperança". O casal tomou a decisão de esconder a depressão de Enke, por medo da repercussão que essa teria no processo de adoção.

O cuidado de que Robert Enke realmente precisava estava em falta no ambiente em que ele habitava. Apenas sua mulher sabia de seu sofrimento. Ele chegou a frequentar terapia, na tentativa de exorcisar seus demônios de culpa, dor e perda. Mas ninguém além de seu círculo mais íntimo estava ciente de seu problema. No mundo dos jogadores de futebol, onde se vive em grande, sofre-se grandes pressões e mostra-se para o mundo uma faceta "fique rico rápido e sorria para as fotos" não existia ninguém para ajudar o goleiro. Resta saber se sua morte resultará em mudanças no manejo de atletas.

Enke não foi o primeiro e certamente não será o último atleta a sofrer de depressão; ele agora faz parte de uma lista negra de jogadores de futebol que não resistiram às pressões e à doença mental. Em 1982 Dave Clement, zagueiro inglês se envenenou por acreditar que sua carreira estava terminada após fraturar a perna. Em 1998 outro inglês, o atacante Justin Fashanu enforcou-se aos 37 anos com medo de ser condenado por assédio sexual a um menor de idade. Em 2008, o meia alemão naturalizado polonês Adam Ledwon, então com 34 anos, se enforcou dias após ter sido deixado pela esposa. No mesmo ano, o meio-campista grego Yiannis Koskiniatis, de 25 anos, se jogou de um prédio após ter sido deixado de fora de um jogo do seu time. Em 2009 Sarkis Aroyan, de 18 anos, da Armênia jogou-se de uma ponte aparentemente por medo de cumprir o serviço militar obrigatório. Outros ainda podem ser citados, como Hughie Gallacher da Escócia, que morreu em 1957; Sebastian Deisler da Alemanha, e o tcheco Jan Simak, ambos mortos em 2003.

O suicídio de uma figura pública como um jogador de futebol traz à luz a dificuldade que muitas vezes os doentes e a família têm em saber quando procurar ajuda e quais os sinais de alarme. O estigma associado à doença mental pode fazer com que os envolvidos tenham medo de divulgar para amigos próximos e colegas de trabalho o quadro que os está a consumir e impede o reconhecimento de atitudes e pensamentos que podem predizer o comportamento auto-violento. Para familiares e amigos que estão a participar ativamente do tratamento e da recuperação do doente, reconhecer os sinais de alarme pode significar a diferença entre um tratamento sem sobressaltos ou o peso da culpa e do estigma de se sobreviver a uma tentativa de suicídio falhada (para o doente) ou a um suicídio (para o familiar). Estes sinais podem ser rapidamente enumerados a seguir: pessoas impulsivas, que podem passar rapidamente do pensamento à ação; primeira fase de recuperação da depressão, quando se dispõe de mais energia mas o humor continua morbidamente deprimido; piora da depressão; indivíduos que comentam sobre morte e suicídio; doentes que passam a deixar tudo “preparado”, como no caso de documentos; oferta de objetos pessoais de valor; escrever cartas ou notas a pessoas significativas, indicando intenção de morrer; sensação de sofrimento, abandono; ansiedade extrema; apatia e mudanças rápidas de humor. Esta lista não é excludente e ressalto que, como no caso de Robert Enke, o cuidado especializado por um profissional de saúde mental é indispensável no caso de indivíduos deprimidos ou não com intenções suicidas.

Para ler mais sobre suicídio sugiro que se clique no link acima, que levará ao blog Psiquiatruras, no qual o colega profissional em Saúde Mental escreveu um post muito compreensivo sobre o suicídio.

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