Survivor guilt ou "culpa por ter sobrevivido"

Thursday, 5 November 2009

Li no Daily Mail a história de uma filha que se matou na mesma linha de trem na qual seu pai suicidou 3 dias antes. Ao ler a história e principalmente os comentários postados online, lembrei-me de uma condição muito pouco discutida, mas pertinente para o melhor entendimento da matéria acima: Survivor´s guilt. Eu nem mesmo sei qual é a tradução oficial do termo, mas deve ser Culpa de Sobrevivente ou algo do gênero. É mais uma daquelas expressões em psicopatologia que o DSM-IV fez desaparecer mas que continua pertinente na discussão de casos em psicologia-psiquiatria.

Survivor´s Guilt












oil painting by Sylvia Maier “Mourning Twins”






O dicionário Thesaurus define a expressão como um sentimento profundo de culpa experimentado por aquieles que sobreviveram alguma catástrofe que ceifou a vida de muitos outros. A culpa é derivada em parte de um sentimento de que o indivíduo não fez tudo o que poderia para salvar os que morreram e em parte de sentimentos de não merecer viver, se comparado aos que morreram. Survivor guilt foi primeiramente identificado nas vítimas que sobreviveram ao Holocausto.

Survivor guilt é uma condição mental que ocorre quando alguém percebe-se como em erro por ter sobrevivido um evento traumático. Pode ser identificado em sobreviventes de combate, desastres naturais, e entre os que sobrevivem um amigo ou familiar que cometeu suicídio. O termo é até mesmo empregado no mundo cooperativo para definir a culpa dos empregados que sobreviveram um corte na empresa. O DSM-IV coloca a condição como um sintoma significativo no critério diagnóstico do Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

Survivor guilt após suicídio de um familiar ou amigo

O luto pela perda de um amigo ou familiar por suicídio é um processo único a cada indivíduo. Junto com a dor da perda, familiares e amigos podem sentir culpa intensa e ansiedade; um sentimento de que de alguma forma são culpados pelo acontecido. Os sobreviventes ao suicídio de uma pessoa próxima geralmente pensam que não fizeram o suficiente para salva-lo\a.
A culpa é frequentemente maior no caso da pessoa que encontrou o corpo do familiar\amigo. Essa pessoa geralmente inicia uma espiral de "porquês" e "e se..." e sente uma profunda conexão com a vítima. Quando o choque imediato passa, o indivíduo sente-se desesperançado, com dúvidas permanentes  sobre o porquê de não ter sido capaz de prevenir esta tragédia. Muitos pacientes relatam terem reexaminado todo o seu sistema de crenças e ter dificuldades para confiar no mundo ao seu redor. Além disso, o suicídio em nossa cultura é geralmente visto fonte de vergonha e falência pessoal e as crenças religiosas da família podem ser dolorosas no que tange ao assunto e não prover apoio necessário.

Os familiares que passam pela perda de alguém por suicídio devem ser lembrados de que não estão sozinhos e alertados para o fato de que cada membro passa pelo processo de luto de forma diferente. Cada familiar tem seus próprios assuntos não resolvidos com o falecido e seus próprios mecanismos de coping.

No caso do quadro de Survivor´s guilt estabelecido, o paciente pode ser indicado para grupoterapia, onde poderá conversar com outros familiares que perderam entes queridos por suicídio e reconhecer que não está só nas suas dúvidas e medos. Também é importante desempenhar tarefas que mantenham a memória do ente querido presente, como plantar uma árvore em sua memória, um jardim ou fazer um livro de memórias. Se o sentimento de culpa tornar-se tão forte que impede o desenvolvimento de atividades de vida diária, deve-se encorajar a procura por acompanhamento profissional (psicólogo ou psiquiatra para uma avaliação inicial do quadro).

0 comments:

Post a Comment