A Vulnerabilidade Do Toxicodependente Ao HIV

Monday, 30 November 2009




Em homenagem ao dia mundial da luta contra a AIDS, vou publicar um post retirado da minha tese de mestrado. Defendi a dissertação "Crenças, comportamentos, atitudes e status serológico ao VIH\SIDA em dependentes químicos" na Universidade do Porto. Os resultados evidenciaram que, apesar de conhecer e compreender os riscos inerentes ao comportamento sexual e ao consumo injetável, mesmo assim sua prática continua nestas populações.

Aqui um post específico sobre a vulnerabilidade dos dependentes químicos ao HIV, de minha autoria.

"A vulnerabilidade individual da população toxicodependente ao VIH é face importante de qualquer análise sobre a alta prevalência do vírus nestes indivíduos, consumidores endovenosos ou não. Esta vulnerabilidade depende do comportamento individual e compartilhado que, por sua vez, depende de atitudes, práticas e conhecimentos individuais e do grupo. Ignorância quanto aos riscos do consumo endovenoso, por exemplo, especialmente no que tange à transmissão do vírus VIH ou pouca preocupação quanto a estes riscos criam uma vulnerabilidade psicológica que pode levar à participação em práticas de consumo perigosas, que aumentam o risco de transmissão do vírus. O grau de dependência, e portanto, de severidade da síndrome de abstinência afecta a habilidade do indivíduo em praticar seu consumo de forma segura (WHO, 2005). O grau de dependência também é causa da marginalização destes indivíduos, levando-os a cometer actos de risco para obter a substância como prostituição e relações sexuais desprotegidas. Assim sendo, conhecer para actuar em determinantes individuais de vulnerabilidade ao VIH entre os usuários de drogas, crenças e atitudes em relação ao VIH/SIDA torna-se um importante aspecto na prevenção da epidemia.



Os toxicodependentes, apresentam aspectos de organização social que podem aumentar a vulnerabilidade à infecção pelo VIH. Os consumidores de substâncias estão em geral socialmente marginalizados, o que leva a formação de subculturas da toxicodependência, alienadas da comunidade principal. Estes indivíduos têm pouco acesso ou não confiam nas estruturas formais de saúde, não recebendo conhecimentos transmitidos por estas instituições, o que aumenta sua vulnerabilidade ao vírus. O estigma social e legal experimentado pela vasta maioria de consumidores de substâncias ilícitas faz com que grande parte de suas vidas ocorra escondida da comunidade, criando dificuldades na criação de programas específicos e dificultando o acesso para o envolvimento nas actividades protectoras da mesma (WHO, 2005).


Teorias sociológicas postulam que a sociedade é fragmentada em pequenas subculturas e que são os membros pertencentes ao meio do indivíduo, o grupo de pares no qual a pessoa se identifica como parte, que têm a mais significativa influência no comportamento individual (King, 1999). Normas sociais, critérios religiosos e as relações de poder entre os sexos e entre os pares infundem significado no comportamento, moderando a permissão a mudanças, positivas ou negativas. Uma forma ideal de comunicação, adequada ao trabalho de prevenção, seria a que personaliza e combina a mensagem da prevenção para uma audiência específica, toxicodependentes, com a finalidade de provocar a mudança comportamental (Pandey, 2005).


Nos últimos anos, entretanto, pesquisas sobre a organização da rede social de utilizadores de drogas injectáveis evidenciaram resultados provocativos. Estes estudos contradizem directamente a visão do usuário de drogas como isolado socialmente de todas as influências a não ser as de outros usuários. Estereótipos negativos dos consumidores de substâncias nutrem a noção de que, motivados única e exclusivamente pela necessidade pungente de obter uma dose, estes indivíduos inevitavelmente rompem todos os laços sociais. Estudos recentes revelaram que muitos consumidores endovenosos do sexo masculino mantêm longos relacionamentos amorosos com mulheres que não injectam drogas, enlaçando este homem, mesmo que frouxamente, a uma rede social maior, que não é composta exclusivamente por usuários de drogas (Wermuth, Ham, & Robbins, 1992; Auerbach, Wypijewska & Brodie, 1994)."

Referências

Auerbach, J. D., Wypijewska, C. & Brodie, H. K. H. (Eds). (1994). AIDS and Behavior –An Integrated Approach. Washington, D. C., E. U. A.: National Academy Press.
 
Becker, M., & Joseph, J. (1988). AIDS and behavioral change to reduce risk: a review. American Journal of Public Health, 78 (4), 394-410 DOI: 10.2105/AJPH.78.4.394
 
King R. (1999). Sexual Behaviour Change for HIV: Where have Theories Taken Us? Genebra, Suíça: UNAIDS.
 
Pandey, I. (2005). Effective Communication in HIV/AIDS Prevention in India. Dissertação de mestrado em Business Administration não publicada. International Development Department, School of Public Policy, MBA Public Service (International Stream). Birmingham, Reino Unido.
 
Wermuth, L., Ham, J., & Robbins, R. (1992). Women don’t wear condoms: AIDS risk among sexual partners of IV drugs users. In J. Huber & B. Schneider (Eds.), The Social Context of AIDS (pp. 72-94). Newbury Park, C. A., E. U. A.: Sage.
 
WHO (2005). Policy and Programming Guide for HIV/AIDS Prevention and Care Among Injecting Drug Users. Genebra, Suíça: WHO.

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