Aspectos psiquiátricos da infecção pelo HIV - parte 1

Tuesday, 1 December 2009

Grandes epidemias na história

Peste de Atenas (Átila, 430 AC)

Segundo Rezende (2002), a peste de Atenas ocorreu  foi narrada por Tucídides, em seu livro "A guerra do Peloponeso". O site traz a descrição da peste:

"No começo do verão, os peloponesos e seus aliados invadiram o território da Ática. (...) Poucos dias depois, sobreveio aos atenienses uma terrível epidemia, a qual atacou primeiro a cidade de Lemos e outros lugares. Jamais se vira em parte alguma açoite semelhante e vítimas tão numerosas; os médicos nada podiam fazer, pois de princípio desconheciam a natureza da enfermidade e além disso foram os primeiros a ter contato com os doentes e morreram em primeiro lugar. A ciência humana mostrou-se incapaz; em vão se elevavam orações nos templos e se dirigiam preces aos oráculos. Finalmente, tudo foi renunciado ante a força da epidemia. (...)
"Em geral, o indivíduo no gozo de perfeita saúde via-se subitamente presa dos seguintes sintomas: sentia em primeiro lugar violenta dor de cabeça; os olhos ficavam vermelhos e inflamados; a língua e a faringe assumiam aspecto sanguinolento; a respiração tornava-se irregular e o hálito fétido. Seguiam-se espirros e rouquidão. Pouco depois a dor se localizava no peito, acompanhada de tosse violenta; quando atingia o estômago, provocava náuseas e vômitos com regurgitação de bile. Quase todos os doentes eram acometidos por crises de soluços e convulsões de intensidade variável de um caso a outro. A pele não se mostrava muito quente ao tato nem também lívida, mas avermelhada e cheia de erupções com o formato de pequenas empolas (pústulas) e feridas. O calor intenso era tão pronunciado que o contato da roupa se tornava intolerável. Os doentes ficavam despidos e somente desejavam atirar-se na água fria, o que muitos faziam...". "A maior parte morria ao cabo de 7 a 9 dias consumida pelo fogo interior. Nos que ultrapassavam aquele termo, o mal descia aos intestinos, provocando ulcerações acompanhadas de diarréia rebelde que os levava à morte por debilidade". (...)
"Nenhum temperamento, robusto ou débil, resistiu à enfermidade. Todos adoeciam, qualquer que fosse o regime adotado. O mais grave era o desespero que se apossava da pessoa ao sentir-se atacado: imediatamente perdia a esperança e, em lugar de resistir, entregava-se inteiramente. Contaminavam-se mutuamente e morriam como rebanhos".



Império Romano (Varíola) ou Peste de Siracusa
Rezende (2002): "Ocorreu no ano 396 a.C, quando o exército cartaginês sitiou Siracusa, na Itália. A doença surgiu entre os soldados, espalhando-se rapidamente entre eles e dizimou o exército. Manifestava-se inicialmente com sintomas respiratórios, febre, tumefação do pescoço, dores nas costas. A seguir sobrevinham disenteria e erupção pustulosa em toda a superfície do corpo. Os soldados morriam ao fim do quarto ao sexto dia, com delírio e sofrimentos atrozes. O Império Romano foi o grande beneficiário dessa epidemia, vencendo facilmente os invasores. "

Séneca (I DC) – “Intemperança dos novos tempos como factor causal de novos males”

Plutarco (II DC)  - Peste Antonina
Rezende (2002) conceitua a peste antonina no seu site:
"Assim chamada por ter surgido no século II d.C, quando dirigia o Império Romano o Imperador Marco Aurélio, da linhagem dos antoninos. Causou grande devastação à cidade de Roma e estendeu-se a toda a Itália e à Gália (França). Foi contemporânea de Galeno, que assim descreveu os sintomas apresentados pelos doentes: "Ardor inflamatório nos olhos; vermelhidão sui generis da cavidade bucal e da língua; aversão pelos alimentos; sede inextinguível; temperatura exterior normal, contrastando com a sensação de abrasamento interior; pele avermelhada e úmida; tosse violenta e rouquidão; sinais de flegmásia laringobrônquica; fetidez do hálito; erupção geral de pústulas, seguida de ulcerações; inflamação da mucosa intestinal; vômitos de matérias biliosas; diarréia da mesma natureza, esgotando as forças; gangrenas parciais e separação espontânea dos órgãos mortificados; perturbações variadas das faculdades intelectuais; delírio tranqüilo ou furioso e término funesto do sétimo ao nono dia".

Uma das vítimas da peste Antonina foi o próprio Imperador, Marco Aurélio.


Os três surtos da Peste 
 Peste negra com origem na China  como a maior pandemia de sempre

Séc. XV – Descoberta de novos territórios
Populações autóctones dizimadas pelos vírus do homem branco


Sífilis – Transmissão sexual, mãe-filho, implicações morais, impacto sobre os costumes, encerramento de locais públicos e de “mau porte”, rejeição social dos infectados, a mesma gravidade (até certo ponto), principal local difusor (Hispaniola), filogenética (babuínos e gorilas de África)


Cólera (sec 19)
Deslocações rápidas, movimento de tropas, peregrinações (Meca, Ganges)

Aspectos que antecederam a pandemia de AIDS

A importância de uma certa densidade populacional

O equilíbrio hospedeiro/agente patogénico (Não é proveitoso para o agente a destruição do hospedeiro)

Seria possível nas condições sociais, comportamentais e biológicas de outrora, o progresso em grande escala de um retrovírus tão dependente do comportamento sexual sem:
  • Mistura de populações
  • Liberalização dos costumes
  • Tolerância nos comportamentos
  • Transfusões sanguíneas
  • Pandemia da toxicodependência.

 História do HIV e da AIDS


1675 Primeira passagem do chimpanzé para o homem
1926-1946 - Transmissão do macaco para o homem
1959 Primeira morte comprovada por SIDA no Congo
1978 Homossexuais  (Suécia e EUA) e heterossexuais. (Tanzânia e Haiti) com sinais de AIDS
1981 Comunicação aos CDC de 26 casos de Sarcoma de Kaposi e de 5 casos de Pneumonia por P. Carinii e identificação em homossexuais, “gay cancer” e “gay related immune deficiency” GRID (Poppers, cremes, saunas)
1982 Identificação em Haitianos (hipótese rácica) e toxicodependentes. Descrição da AIDS
1983 Isolamento e identificação do HIV1 (LAV; HTLV III) - Instituto Pasteur. A suspeita sobre o sangue (factores e bancos). A doença dos 4 Hs: Haitianos, homossexuais, hemofílicos, usuários de Heroína
1984 Identificação em transfundidos, filhos de mães infectadas, africanos, heterossexuais. Disponibilidade dos primeiros testes. Robert Gallo descobre o HIV1
1985 FDA aprova o primeiro teste ATC HIV. Obrigatoriedade do rastreio serológico em centros de transfusão (EUA e Japão)
1986 Testes em centros de transfusão na Suiça. Isolamento do HIV2
1987 AZT (zidovudina) – Monoterapia (medicamento)
1988 Trimetrexato (usado no tratamento da pneumonia por P. carinii) PrimeiroWORLD AIDS DAY
1989 Haiti suspende distribuição de sangue contaminado. Pentamidina
1990 DDI (Didanosine, videx). Infectados – 10 milhões
1991 ddC (Zalcitabine hivid)
1992 Benefício do tratamento combinado - Biterapia
1993 Revisão dos critérios de AIDS (novas doenças oportunistas)
1994 D4T stavudine (zerit)
1995 Saquinavir (invirase) e 3TC (epivir, lamivudina). Resolução do caso Gallo vs Pasteur
1996 Nevirapine (viramune), Indinavir (crixivan), Ritonavir (norvir)
1997 CDC – Primeiro caso provável de transmissão pelo beijo.
1998 Abacavir

1999 Amprenavir
2000 Kaletra (lopinavir)
2001 China reconhece epidemia

Características da doença:

Doença infecciosa crônica

Evolução de vários anos ou décadas
Variável em cada hospedeiro
Doença assintomática com duração de 10 a 12 anos
Deterioração progressiva do sistema imunológico
Declínio progressivo dos linfócitos T CD4+: ± 50-100/ano
Disponibilidade do tratamento eficaz mas não curativo
Ausência de vacina
Retrovírus da família Retroviridae- Três sub-famílias: Oncovirinae, Spumavirinae, Lentivirinae (Tipo 1 e Tipo 2)


Referências:

ResearchBlogging.org
Rezende (2002). Caminhos da Medicina. As grandes epidemias da história.
The History of AIDS
LSU Law Center's Medical and Public Health Law Site
Gallo RC (2002). Human retroviruses after 20 years: a perspective from the past and prospects for their future control. Immunological reviews, 185, 236-65 PMID: 12190935


Posted by Vanessa Marsden at 05:51  

3 comments:

Onde encontrar dados para a história dos 'números da doença'. Em Portugal um responsável da área da saúde declarou que 20 a 30% dos casos de seropositividade não são ainda conhecidos. O diagnóstico é muito tardio e exitem actualmente muitos doentes com sida (aids)em idades avançadas.

ex ana said...
1 December 2009 at 07:07  

Os melhores locais para dados em Portugal (que utilizei na minha tese) são:
Aids Portugal http://www.aidsportugal.com/download.php

Coordenação Nacional para a Infecção VIH/sida - os documentos "A situação em Portugal a ..." determinada data foram-me extremamente úteis. Estes relatórios trazem dados sobre toda a população, sua comparação com dados europeus e gráficos de tendências em grupos específicos. O site é
http://www.sida.pt/aaaDefault.aspx?f=1&back=1&codigono=56265720611461986200AAAA

Espero que tenha ajudado!
Abraços

Vanessa Marsden said...
1 December 2009 at 07:38  

Claro que ajudou. Muito obrigada.

ex ana said...
2 December 2009 at 11:06  

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