Teorias da Comunicação - Double bind

Friday, 11 December 2009


(Mental Research Institute, Palo Alto)

Axiomas da pragmática da comunicação humana

• Não se pode não comunicar
• Toda comunicação tem um aspecto de conteúdo e um aspecto de comunicação tais que o segundo classifica e o primeiro é portanto uma metacomunicação
Metacomunicação: comunicação que indica como a informação verbal deve ser interpretada; estímulos ao redor da comunicação verbal que também possuem significado
• A natureza de uma relação está na contingência da pontuação das sequências comunicacionais entre os comunicantes
• Os indivíduos comunicam-se digital e analogicamente. A linguagem digital é uma sintaxe lógica sumamente complexa e poderosa, mas carente de adequada semânitca no campo das relações, ao passo que a linguagem analógica possui a semântica mas não tem uma sintaxe adequada para a definição não ambígua da natureza das relações
• Todas as permutas comunicacionais são simétricas ou complementares, segundo se baseiam na igualdade ou na diferença

Linguagem analógica – linguagem não verbal

“Double bind”
Paradoxos pragmáticos – G. Bateson et al., 1956
Forte reação complementar
Instrução que tem que ser obedecida e desobedecida para que seja obedecida
Impossibilidade de auto-comunicar
Ex: pai fala “Não seja tão obediente”. O filho pode obedecer desobedecendo ou ser obediente contrariando o pai. É um paradoxo pragmático. Todos estamos sujeitos a double blind (governo versus cidadãos, etc).

É possível que esquizofrênicos apresentam maior dificuldade em metacomunicar e fiquem mais presos aos double blind.

A diferença entre a relação terapêutica e patológica é que a primeira possibilita que o indivíduo metacomunique.

Um double bind é um dilema em comunicação no qual um indivíduo (ou grupo) receve duas ou mais mensagens conflitantes, com uma a negar a outra. Isso cria uma situação na qual a resposta necessária a uma resposta resulta em falha a responder a outra, deixando o indivíduo a errar, seja qual for sua resposta. A natureza do double bin é que a pessoa não pode confrontar o dilema inerente e fica impossibilitada de comentar tanto de comentar, resolver ou sair do conflito.

Um double bind geralmente inclui diferentes níveis de abstração em ordem de messagens e estas podem ser passadas em voz alta ou pelo tom de voz ou linguagem corporal. Tipicamente a demanda é imposta sobre a vítima por alguém de respeito na relação (um dos pais, um professor, o médico) mas esta demanda é impossível de ser cumprida, já que um contexto maior a proíbe. Um exemplo: quando uma pessoa de autoridade impõe duas condições contraditórias mas existe uma regra não falada de que autoridade nunca deve ser questionada.
Bateson e col definiram o double bind como:

  1. Uma situação que envolve duas ou mais pessoas, uma das quais (para propósitos de definição) é designada "vítima". Os demais são pessoas que podem ser consideradas superiores da vítima: figuras de autoridade, os quais a vítima respeita.
  2. Experiência repetida: o double bind é um tema recorrente na experiência da vítima, e como tal, não pode ser resolvido como uma única experiência traumática.
  3. Um "comando primário" (primary injunction) é imposto à vítima por outros sob uma das duas formas:
    1. Faça X ou vou puní-lo
    2. Não faça X, ou vou puní-lo
    3. (ou ambos - 1 e 2) A punição é assumida como sendo ou a retirada do amor, a expressão de ódio e raiva ou o abandono, resultando da expressão de falta de ajuda da figura de autoridade.
      1. Um "comando secundário" (secondary injunction) é imposto à vítimia, que entra em conflito com o primeiro em um nível mais alto e mais abstrato. Por exemplo: "Você não deve fazer X, mas somente faça se você realmente quiser". Não é necessário que este comando seja expresso verbalmente.
      2. Se necessário, um "comando terciário" (tertiary injunction) é imposto à vítima, para prevenir que ela escape do dilema.
Por fim, Bateson relata que a completa lista de requerimentos pode não ser necessária quando a vítima já vê seu mundo em padrões de double bind. As características de tal relacionamento são:
  1. Quando a vítima está envolvida em um intenso relacionamento, isto é, um relacionamento o qual ela sente que é de importância vital que ela discrimine de forma acurada que tipo de mensagem está a ser comunicada para que responda apropriadamente
  2. E a vítima se vê numa situação na qual a outra pessoa no relacionamento está a expressar duas ordens de mensagens, uma das quais nega a outra;
  3. E a vítima é incapaz de comentar as mensagens que estão sendo expressas para corrigir seu entendimento de qual mensagem responder; isto é, ela não pode fazer uma afirmação metacomunicativo.
Para que um double bind seja efetivo, a vítima não deve ser capaz de confrontá-lo ou resolver o conflito entre a demanda exigida pelo comando primário e o comando secundário. Desta forma, o double bind se diferencia de uma simples contradição para um conflito interno mais inexpressível, no qual a vítima realmente quer cumprir a demanda do comando primário, mas falha todas as vezes por uma inabilidade de avaliar a imcompatibilidade da situação com as demandas do comando secundário. Assim, a vítima pode expressar sentimentos de extrema ansiedade nesta situação.

Conflitos em comunicação são comuns e constantemente nós perguntamos "O que você quis dizer?" ou buscamos clarificação de outra forma. Isto é chamado de metacomunicação ou comunicação a cerca da comunicação.

Exemplos clássicos:

Uma mãe que diz a seu filho que o ama, enquanto vira seu corpo ou rosto para o outro lado, com nojo. As palavras são socialmente aceitáveis, mas a linguagem corporal está em conflito. Crianças pequenas têm dificuldades em articular contradições verbalmente e não podem ignorá-las ou abandonar o relacionamento com a mãe.
Outro exemplo é o comando "seja espontâneo". O próprio comando contradiz espontaneidade, mas ele só se torna um double bind quando um não pode o ignorar ou comentar a contradição.

Bateson também descreve double binds positivos: no Zen Budismo, no caminho para o crescimento espiritual e o uso terapêutico de double binds por psiquiatras, quando confrontam seus pacientes com contradições presentes em suas vidas, para ajudá-los a sair desta situação.

Esquizofrenia

No caso específico da esquizofrenia, muitos pensam que Bateson propôs que double binds podem causar esquizofrenia. Uma leitura apropriada de seus textos, elucida que:
  • seus achados indicam que emaranhados na comunicação geralmente diagnosticados como esquizofrenia não resultam necessariamente de uma disfunção cerebral orgânica. Eles encontraram que double binds destrutivos são padrões de comunicação frequentes entre familiares de pacientes e propuseram que padrões perpétuos de double binds poderiam levar a padrões confusos de pensamento e comunicação.
  • Uma disfunção na programação cerebral, isto é, o aprendizado de um padrão disfuncional de pensar e a criação uma situação na qual a vítima não pode comentar ou realizar um comentário de metacomunicação sobre seu dilema poderia (em teoria) escalar a ansiedade e potencialmente causar uma crise.
  • Uma solução para o double bind consiste em colocar o dilema em um contexto ainda maior, através do aprendizado. Entretanto, no caso da esquizofrenia, o double bind é presente continuadamente e dentro do contexto familiar. Quando a criança está madura o suficiente para identificá-lo, este já foi internalizado e a criança fica impossibilitada de confrontá-lo.A solução seria um escape, em um mundo ou sistema delirante.
Exemplos de frases double bind:

A mãe diz a seu filho: "você deve me amar" - amor deve ser espontâneo.

Frase Zen: "Seja genuíno" e "Quem é você?" - quanto mais o estudante tenta apresentar seu verdadeiro self, mais falso soa.

"Você deve ser livre" - liberdade implica espontaneidade.

A mãe diz ao filho -  "mostre aos seus primos como você brinca" - brincadeira deve ser espontâneo.

Mãe diz ao filho: "deixe sua irmã em paz!" quando o filho sabe que a irmã vai antagonizá-lo para que ele seja punido.

Referências:

ResearchBlogging.org

Visser, M. (2003). Gregory Bateson on deutero-learning and double bind: A brief conceptual history Journal of the History of the Behavioral Sciences, 39 (3), 269-278 DOI: 10.1002/jhbs.10112

Arden M (1984). Infinite sets and double binds. The International journal of psycho-analysis, 65 ( Pt 4), 443-52 PMID: 6544755

Bateson, Gregory. "Toward a Theory of Schizophrenia," in Part III, Steps to an Ecology of Mind: Collected Essays in Anthropology, Psychiatry, Evolution, and Epistemology. University of Chicago Press, 1999, originally published, San Francisco: Chandler Pub. Co., 1972.

Foto: http://sistemielettorali.files.wordpress.com/2009/06/bron38l.jpg

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