Clorpromazina

Saturday, 30 January 2010

A clorpromazina (ou cloropromazina, como é conhecida em Portugal) foi o primeiro antipsicótico sintetizado. As repercurssões da descoberta de seu efeito e as hipóteses de sua atuação (na via dopaminérgica) até hoje norteiam os caminhos da psiquiatria e neurologia no tratamento de psicoses e outros transtornos mentais.

O blog História da Medicina do Dr. Elvio Tuoto, que sigo nos meus blogs updates, traz hoje um breve post sobre a história do medicamento.

Recomendo a leitura e o post pode ser acessado aqui.

Posted by Vanessa Marsden at 11:05 0 comments  

Efeito placebo II

Uma manifestação contra os medicamentos homeopáticos ocorreu hoje na Inglaterra, numa tentativa de provar que estes medicamentos não funcionam.

Conforme havia citado em um post anterior, o Reino Unido lançou uma investigação sobre a efetividade destes medicamentos, já que o sistema de saúde aqui é fundado pelo governo. O NHS (sistema de saúde público do Reino Unido) que financia o sistema reportou investir quase 4 milhões de libras nestes medicamentos, mas agora quer dados científicos que corroborem este gasto. No post anterior, eu havia citado que o diretor da Boots, maior compania farmacêutica do país, havia admitido no inquérito que a gigante farmacêutica dispõe dos medicamentos porque existem pessoas que compram, não por fiabilidade científica. Manifestações semelhantes ocorreram no Canadá, EUA, Espanha e Austrália.

Foto e reportagem completa (em inglês): http://www.dailymail.co.uk/health/article-1247250/Sceptics-mass-overdose-homeopathic-medicines--protesters-tell-Boots-dump-scientifically-absurd-remedies.html

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Campanha contra o crack

Friday, 29 January 2010

Mais sobre a Campanha do Ministério da Saúde Brasileiro contra o crack:

O Ministério da Saúde fez um update no site com novos vídeos em uma campanha denominada "Nunca experimente o crack. Ele causa dependência e mata". Os usuários também podem fazer uploads de seus vídeos.

Para acessar o site clique aqui.

Da irresponsabilidade do jornalismo científico

*Este post é especialmente dedicado ao colega da blogosfera William H Stutz, que escreveu um texto em seu blog e no Correio de Uberlândia há dois dias atrás reclamando de como jornalistas distorcem as palavras dos experts para criar manchetes sensacionalistas.

Hoje, ao ler meus blogs updates, como faço todas as manhãs, me deparei com um post em especial que acredito ser importante compartilhar com meus colegas de língua portuguesa. Há dois dias, como descrevi acima, um colega cientista descreveu seu momento com um jornalista que colocou em sua boca palavras que o fizeram parecer tolo perante seus colegas.

Pois, hoje eis que leio o post The British Media's "Blonde Moment" do blog Neuroskeptic. Nele, o autor escreve como há 10 dias atrás o Sunday Times (um respeitado jornal inglês) noticiou que, de acordo com um estudo da Universidade da California conduzido por Aaron Sell, mulheres loiras são mais agressivas e determinadas do que morenas e ruivas.

O autor do estudo negou que tenha dito tais coisas e no final das contas, o estudo não tinha nada a ver com loiras ou com cabelos! Embora queixas tenham sido feitas ao jornal, a notícia até hoje permanece e foi replicada em diversos meios.
A pesquisa original nada tinha a ver com cabelos, mas o jornalista responsável solicitou dados sobre assunto ao pesquisador, que muito graciosamente reanalizou seus dados. Ele não encontrou qualquer associação entre a cor do cabelo e personalidade mas o jornalista, mesmo assim, escreveu o artigo e ainda por cima criou frases que atribuiu a declarações de Sell. O que o pesquisador tinha postulado em seu artigo era que em homens, a força física (medida como capacidade de levantar pesos) está correlacionada à capacidade de sentir raiva e a sentimentos de que coisas lhes são devidas. E que tanto em homens quanto mulheres, a atratividade física percebida também se correlacionava com estes sentimentos.

O autor do post continua a sua exclamação diante do assunto ao debater que se este fato acontece com jornalistas políticos ou econômicos eles são demitidos na hora. Cientistas, entretanto, são presa fácil e os artigos que aparecem nos jornais sob os fascículos "Ciência" são de muito ruim qualidade.

Acredito que pelo menos, no futuro, com a força de ferramentas como os blogs e o twitter, "barrigadas" jornalisticas fiquem cada vez mais raras ou pelo menos que a população aprenda a dar menos importância às notícias sensacionalistas que lemos por aí.

Ah, só para concluir, lembrei-me de uma manchete que não é bem do assunto, mas de certa forma cabe nesta discussão. Um dos assuntos mais debatidos da semana foi a proibição da Sibutramina (uma substância anorexígena) na Europa. Como não poderia deixar de ser, as sub-lebridades aproveitam qualquer notícia para colocar seu nome na mídia e me deparei com o seguinte verbete:

Em seu Twitter, Preta Gil alerta contra os efeitos da sibutramina, proibida na Europa
Ao saber que a venda de medicamentos a base de sibutramina foi proibida na Europa, nesta segunda-feira, 25, Preta Gil usou sua página de Twitter para alertar quanto aos perigos oferecidos pelo remédio para emagrecer mais usado no Brasil e nos Estados Unidos.

“Olha a sibutramina aí! Eu já tomei esse veneno e conheço muita gente que toma. Garanto que é horrível. Me senti muito mal quando tomei. CUIDADO!!!”, escreveu ela, no microblog. “A sibutramina te dá uma euforia temporária, depois, a maior angústia. Você até perde a fome, mas fica deprimida, agressiva. É uóooo!”, completou a cantora.
Com sinceridade e a autoestima de sempre, Preta ainda aproveitou para valorizar suas próprias curvas. “Eu mesma tomei um tempo, emagreci. Fiquei com 56kg e infeliz. Hoje, peso 82 e sou muitooo feliz!!!! E se quiser emagrecer é só eu parar de comer bobagem e tomar vergonha na cara e ir me exercitar!!”, finalizou.

Para começar a sibutramina não foi proibida por ser um "veneno" ou por sérios efeitos colaterais. Foi proibida temporariamente para adaptação das referências à acelaração dos batimentos cardíacos (que podem ser grave em pessoas que sofrem de hipertensão ou arritmia). A sibutramina não causa "agressividade" e na verdade só deveria ser receitada a quem tem indicação, não esta festa que ocorre no Brasil (lembro-me de ler no twitter diversas pessoas escrevendo que após as regalias do Natal e Ano Novo, só sibutramina em Janeiro e Fevereiro).

Bom senso não vende jornal!

Para ler os textos mencionados na íntegra, pode-se clicar nos links acima. Para o artigo científico, a referência está abaixo.
ResearchBlogging.org

Sell, A., Tooby, J., & Cosmides, L. (2009). From the Cover: Formidability and the logic of human anger Proceedings of the National Academy of Sciences, 106 (35), 15073-15078 DOI: 10.1073/pnas.0904312106

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Campanha para alertar sobre o álcool e adolescentes

Thursday, 28 January 2010

No Reino Unido foi lançada uma nova campanha destinada a alertar os pais sobre os riscos do uso de álcool por jovens adolescentes. A campanha "Why let drink decide?" (Porque deixar o álcool decidir?) visa esclarecer que a melhor educação sobre o assunto deve vir de casa e prevenir o binge drinking (consumo excessivo de álcool de uma só vez).

Notícias em psiquiatria

Ainda sobre as bonecas vivas

Tuesday, 26 January 2010

Depois de ter escrito o último post sobre as bonecas vivas (mulheres pasteurizadas na aparência e hipersexualizadas, que só veem como objetivo na vida aparecer na capa da playboy) lembrei-me de um fato e um filme que recomendo.
Quando ainda estava no curso de medicina tive uma longa discussão com um colega que adorava pornografia. Ele possuía uma vasta coleção de dvds e assinava praticamente todos os canais fechados da tv a cabo. Lembro-me de discutir os possíveis efeitos psicológicos que os atores (tanto homens quanto mulheres, mas estas principalmente) poderiam sofrer a longo prazo ao exercer aquela profissão. Este meu colega não aceitava este argumento de forma alguma e dizia acreditar que trabalhar como prostituta ou como atriz pornô era na maioria das vezes uma escolha pessoal, como ele lia ou via nas entrevistas com os atores no final dos dvds ou nas entrelinhas das revistas.
É claro que discutimos longamente sobre o assunto e imagino que, se ele ainda se lembra desta discussão, deve ter se sentido vingado quando Bruna Surfistinha lançou o livro "O Doce Veneno do Escorpião", no qual relata sua vida como prostituta.
Eu, entretanto, segui os caminhos da psiquiatria e diversas vezes consultei prostitutas e garotos de programa (ativos ou aposentados) que apresentavam desde quadros mais leves de angústia e culpa a sérios transtornos mentais.


Foi então que me lembrei do filme Nuts (Querem Me Enlouquecer, no Brasil ou Louca em Portugal), de 1987 com Barbra Streisand e Richard Dreyfuss. O filme é baseado em uma peça de teatro de mesmo nome e nele Streisand é uma prostituta de luxo que mata um cliente. Como ela está presa, sua mãe e seu padrasto, um casal de classe média alta que a criou com todos os luxos, tentam provar insanidade mental e conseguir com que ela seja internada, já que não lhes faz sentido o caminho que ela escolheu para sua vida e para evitar que sua vida escandalosa torne-se pública se o caso for a tribunal do júri. Entretanto a personagem de Streisand luta para provar que não é insana e que está na vida da prostituição por escolha própria.

Não vou contar mais nada para não estragar e fica a recomendação. Acho que deve ser um bocado difícil encontrar o filme para comprar em DVD, mas as antigas locadoras de vídeo dispõem de cópias. A peça Nuts, a play in three acts está disponível para compra em diversos sites.

Foto: http://en.wikipedia.org/wiki/Nuts_(film)

Bonecas vivas

Natasha Walter é uma feminista inglesa que no final dos anos 90 fez parte do grupo de pensadores do movimento Lipstick Feminism (Feminismo de Batom) que se empenhou em desafiar os estereótipos feministas. Vem daí diversos pensadores que de certa forma viram suas idéias de poder da mulher culminar no seriado americano Sex and the City. O argumento era de que, sim, uma mulher poderia se vestir e portar como uma top model e ser uma feminista, sim, ela poderia casar-se de branco e comprar pornografia e continuar a ser feminista.

No seu novo livro, lançado este mês, Living Dolls: The Return of Sexism, Walter admite que estava enganada. Ao invés de uma geração de mulheres fortes e confiantes em sua emancipação sexual, o que temos hoje é uma nova raça de bonecas afeminadas: bonecas hipersexualizadas, que cresceram em uma dieta de roupas cor-de-rosa das princesas da Disney, que se sentem poderosas por fazer parte de modas como cursos de strip-tease e até mesmo prostituição. Seu mundo é um de promiscuidade, assédio sexual e mal gosto erótico, recheado de cirurgias plásticas, no qual aspirar a ser capa da Playboy é o objetivo máximo da carreira.



Embora Walter escreva sobre a cultura inglesa, a ressonância do outro lado do Atlântico (seja nos EUA, de onde tirou inspiração; seja no Brasil, que sofre com a cultura do culto ao corpo) é impecável.

Abaixo a transcrição de uma pequena parte de seu livro. A tradução é minha. Para ler em inglês, clique aqui

A noite começa na discoteca Mayhem no Southend (em Londres). Por volta de doze garotas, todas de shortinhos e saltos altíssimos, com bronzeados artificiais e cabelos brilhantes e alisados abrem seu caminho em direção a um grupo de homens que estão em volta de uma grande cama vazia. O trabalho deles é escolher qual delas deve entrar para a competição "Bonecas na Cama". Das centenas de mulheres selecionadas para posar nas camas por discotecas em todo o Reino Unido para esta competição, a uma seria dado um contrato para ser modelo da revista Nuts (uma publicação masculina). "Eu quero ser escolhida para deixar minha mãe orgulhosa" diz Lauren, em shorts justos e um top amarelo.

Uma mulher mais carnuda em soutian e calcinha foi uma das primeiras a retirar o soutian e mostrar seus seios para as câmeras. Conforme o desfile torna-se mais sexual, com as roupas sendo retiradas da pele jovem das adolescentes, os homens no clube começam a cantar e a se aproximar cada vez mais do palco. Muitos usam seus celulares (telemóveis) para filmar e fotografar as garotas. (...) A lista final é rapidamente apresentada - apenas as mulheres que mostraram os seios ou os fio-dentais para o público são chamadas novamente.

Como eu testemunhei por mim mesma o evento na discoteca Mayhem, qualquer um pode assistir, em qualquer clube do país, a imagens que uma geração anterior veria como degradantes para mulheres, sendo agora demonstradas como brincadeiras e até mesmo vocações.

Por mais de 200 anos feministas têm criticado as imagens artificiais de beleza feminina, que são impostas como um ideal ao qual as mulheres devem aspirar. De "A Vindication of The Rights of Woman" de Mary Wollstonecraft em 1972 a "The Beauty Mith" de Naomi Wolf em 1991, mulheres brilhantes demandam a mudança destes ideais. Entretanto, ao invés de desaparecerem, estes ideiais estão mais poderosos do que nunca. Mais ainda, por toda nossa sociedade, a imagem de perfeição feminina, a qual as mulheres são encorajadas a aspirar, são mais e mais definidas pela linha sexual.


É claro que o desejo de ser sexualmente atrativo sempre foi e sempre será um desejo natural, tanto para os homens quanto para as mulheres. Mas nesta geração, uma verta visão da sexualidade feminina tornou-se celebrada e ela é determinada pelos termos da indústria do sexo. O que isso quer dizer é que ser sexy - magra com grandes mamas em exibição - vem do fato de que a indústria do sexo saiu das margens para o centro da nossa sociedade. Isso é graças ao surgimento das modelos de revistas masculinas, ao súbito crescimento dos clubes de strip-tease nos centros das cidades, uma nova moda de dança da barra (ou pole dance), à popularidade das biografias de prostitutas, que sugerem que vender sexo é uma grande maneira de uma mulher ganhar a vida; e sobretudo, à maior onipresença da pornografia nas vidas de muitos jovens, trazida principalmente pela internet.


(...) Posar para revistas masculinas é visto por muitos que participam da indústria como um marcador não de sexismo persistente mas da confiança da nova mulher. Esta equação de poder e liberação com objetificação sexual é vista por toda parte e está a ter efeitos reais nas ambições de jovens mulheres.

Ellie é uma mulher bem educada e articulada, educada em colégios particulares e uma boa universidade, que foi criada para acreditar que poderia ser o que quisesse profissionalmente - advogada, médica, figura política.
Entretanto, ela escolheu ser atriz. Mas quando os empregos estavam difíceis e ela se encontrou financeiramente desesperada, ela tomou um atalho aos 20 anos de idade, e aceitou trabalhar em um clube de strip-tease e lapdancing em Londres. Ela não achava, a princípio, que o trabalho seria difícil. Ela havia recebido mensagens da nossa cultura de que lapdancing era bastante simples e que dava poder às mulheres.

"As pessoas dizem isso, não é?", ela disse. "Existe um mito de que as mulheres expressam sua sexualidade livremente desta forma e que pode-se ganhar muito dinheiro com isso, que nós temos o poder sobre os homens que estão pagando".

Entretanto não foi isso que ela encontrou. Ela ficou chocada ao descobrir o quão o trabalho era humiliante e degradante. No contexto do clube, as mulheres são mais bonecas do que pessoas.

"Você se parece com uma caricatura. Você escolhe um nome bem feminino, como uma boneca. Você é encorajada a parecer-se com bonecas. Não é surpresa que os homens não vejam que você é uma pessoa."


(...)

Em 2006 uma pesquisa realizada em meninas adolescentes sugeriu que mais da metade delas consideraria ser modelo de revistas masculinas. O crescimento da cultura em que tantas mulheres sentem que sua capacidade é medida pelo tamanho de suas mamas parece ter surgido do nada. (...) Muitas jovens mulheres parecem acreditar que confiança sexual é o único tipo de confiança que se deve ter e que confiança sexual só pode ser obtida se uma mulher está disposta a se conformar com a imagem pornô-soft de uma garota jovem bronzeada, depilada e de seios grandes. Se a confiança sexual pode ser obtida de outras formas ou se outros tipos de confiança são importantes são temas que esta cultura obcecada pelo sexo não se importa em discutir.
(...)Pesquisas atuais demonstram que quase três quartos das adolescentes estão insatisfeitas com sua forma corporal e mais de um terço estão em dietas. Um estudo demonstrou que mesmo entre meninas de 11 anos de idade, uma em quatro está tentando perder peso; outro mostrou que a maioria das meninas de seis anos prefeririam ser mais magras do que são.

Os sites de relacionamento formam uma parte intrínseca de quase todas as jovens e eles se definem em uma auto-imagem cuidadosamente apresentada, que frequentemente se conforma com a estética desenhada pelas imagens semi-pornográficas que elas encontram na sua cultura.

"Todas elas tiram fotos umas às outras", a mãe de uma adolescente me disse, "E são muito frequentemente de conteúdos provocativos e sexuais. Estas garotas de 11 e 12 anos de repente parecem-se com garotas de 16 anos que estão a se vender para sexo."

Se esta sexualização precoce de mulheres jovens fosse sobre sua liberação e elas estivessem no controle, nós não veríamos grandes números de mulheres que dizem se arrepender de suas primeiras experiências sexuais. Mas como o número de jovens garotas sexualmente ativas aumentou, também aumentou o número de garotas que se arrependem.

Em um estudo realizado em 2000, 80 por cento das garotas que fizeram sexo entre 13 ou 14 anos se arrependeram. Já que uma em quatro garotas fazem sexo antes dos 16 anos, isso é um bocado de arrependimentos.

Emoções e sexo estão divorciados para as jovens mulheres, que se vêem em somente em termos de seu próprio apelo sexual. Eu conversei com um grupo de adolescentes que sumarizaram a visão do sexo partilhada por jovens mulheres. "Nós estávamos a conversar que uma destas semanas, deveríamos todas sair e tentar arrumar tantos amantes quanto possível, com a maior variedade possível - idade, sexo, emprego, vida familiar..." disse Ruby.

Ao contrário de se sentir isoladas pelo seu desejo pela promiscuidade, estas garotas levam a peito a forma em que a cultura ao seu redor reflete e reforça este comportamento. Elas gostam do mundo sexualmente explícito em que vivem. Neste universo, a mulher de suceso é aquela que prioriza a perfeição física e silencia qualquer desconforto que esteja a sentir sobre isso.

Esta mulher objetificada, tão frequentemente celebrada como a mulher ou namorada do homem heróico, ao invés de heroína de sua própria vida, é a boneca viva que substituiu a mulher liberada que deveria estar a viver no século 21. E isso é uma tragédia.


Living Dolls, Natasha Walter
Custo médio £12.99, 273 páginas, pode ser adquirido na Amazon.

Fotos:
http://tvpeloespectador.blogspot.com/2009/12/filme-sobre-bruna-surfistinha-tera.html
http://veja.abril.com.br/170101/imagens/especial12.jpg
http://www.papodeempreendedor.com.br/wp-content/uploads/monalisa_peituda2.jpeg
http://www.edinburghsucks.com/wp-content/uploads/2006/04/lapDancing.jpg
http://ecx.images-amazon.com/images/I/41LTM06OuCL._SL500_AA240_.jpg

Notícias em psiquiatria

Monday, 25 January 2010

Técnica inglesa revoluciona prevenção do Alzeheimer

O reagente pode ser pingado nos olhos como um colírio ou ser aplicado por meio de injeção. Ao atingir a retina, assinala com um pontinho as células mortas. Mais de 20 pontos é sinal de Alzheimer.

Para assistir ao vídeo, clique no link.

Editor francês afirma engordar as modelos no Photoshop
O editor francês afirma que altera as imagens digitalmente quando tem de fotografar uma modelo muito magra, tanto para a “L’Officiel”, quanto para a “Muteen”. “Se as costelas dela aparecem, tiramos no Photoshop”.


Europa suspende venda de remédio para emagrecer
A Emea (agência de medicamentos da Europa) recomendou ontem a suspensão da venda e da prescrição de remédios para emagrecer que contêm sibutramina --uma das substâncias mais usadas para emagrecimento no Brasil.

A cultura da sub-lebridade

Nos últimos anos temos assistido ao constante extermínio da celebridade (aquele indivíduo que apresenta talento fora do comum e cuja fama se espalha nacionalmente ou globlamente) e à ascenção de um novo tipo de indivíduo para preencher este vácuo: a sub-lebridade.

As sub-lebridades são caracterizadas por possuírem muito pouco talento, desfilarem quase nus assim que os flashes disparam e\ou por terem ficado "famosos" por namorar (ou tentar namorar) um jogador de futebol. Esta cultura da sub-lebridade parece ter proliferado no início deste século, com o lançamento da "televisão realidade" e programas de "entretenimento", como o Big Brother Brasil e o ápice da cultura de tirar a roupa para revistas masculinas (que parece ter se tornado objetivo principal de muitas meninas hoje em dia).


Como resultado, "zés-ninguéns" se tornam celebridades instantâneas, que permanecem enraizados nos sofás de programas popularescos da televisão vespertina ou cujas fotos se estendem num estilo "soft porn" pelas revistas de fofoca, que buscam explorar mais e mais a vida sexual desta incrível fauna exótica (e bota exótica nisto!). Os que desejam esta fama volátil são os que compram este tipo de material garantindo os lucros desta indústria da destruição do self. Sua fama instantânea não tem nada, absolutamente nada com a dedicação a uma arte, talento ou trabalho duro. A fama pela fama, personificada globalmente pela socialite americana Paris Hilton (que ficou "famosa" ao aparecer em um filme pornô caseiro), associada a fotos na capa destas revistas é um fim em si próprio.

Despidos de talento, beleza ou charme, as sub-lebridades criaram uma indústria de comportamentos extravagantes realizados com o único objetivo de mantê-los na mída. E é claro que a cada manchete ou foto em primeira página, as extravagâncias se superam, tornando-se cada vez mais bizarras.

Assim, no Brasil, temos uma tal de Ângela Bismarchi, cujo único feito na vida é realizar o máximo de cirurgias plásticas possíveis para aparecer na mídia durante o carnaval. Geyse da Uniban, que depois de desfilar semi-nua pelos corredores de uma universidade (e quase ser linchada injustamente por causa disso) agora vai desfilar em escola de samba e parece ter um empresário para lidar com sua "agenda". Seguem-se os diversos seres humanos de papel dos reality shows brasileiros, que demonstram a profundidade psicológica de um pires de café e passam o dia a discutir a sexualidade alheias e fofocas. Sem contar a nova geração de "atores" (claro que exceções estão em ordem), escolhidos pelas suas características físicas e não pela sua capacidade lírica. Em geral, eles não fazem nada, não dizem nada e, de fato, carecem virtualmente de qualquer característica de apelo público.

Angela Bismarchi, que "orientalizou" os olhos com cirurgia plástica  para combinar com sua fantasia de carnaval.

E o que acontece com os que verdadeiramente tem talento? Como resultado desta nossa obsessão com as sub-lebridades os verdadeiros talentos - atores e cantores que se dedicam a uma arte ou carreira através de longos anos de treinamento - não tem oportunidade em uma mídia mais interessada em embalagem que conteúdo e entupida de programas de "realidade". É mais barato e mais fácil criar uma celebridade instantânea e dispor dela assim que sua popularidade se reduz do que investir em um talento. E como há diversas pessoas nas ruas que fazem fila para aparecer no Big Brother Brasil, por exemplo, sempre haverá suprimento para esta perversão. É a busca da fama e do dinheiro fácil, o novo Eldorado que se apresenta.

Mas, o mais triste de toda esta cultura é a obsessão de tantas meninas novas que lutam para emular suas divas. Se Paris Hilton dança semi-nua sobre uma mesa na discoteca, milhares seguem seus caminhos. Se Britney Spears cai e vomita bêbada na sarjeta, há uma fila de meninas a imitá-la; e todas querem ter o tamanho recomendado de mamas para saír no carnaval (extra grande). "Se é normal para elas, é normal para nós também...."

Para melhor exemplificar o texto, deixo-vos com uma história que tem movimentado a mídia de celebridades na última semana:


Heidi Montag tem 23 anos e ficou "famosa" ao participar do reality show The Hills, da MTV. Na última semana seu nome apareceu em diversos meios devido a decisão de se submeter a 10 intervenções plásticas no mesmo dia e de modificar completamente seu rosto e corpo (na tenra idade de 23 anos).
Um especialista em vícios das celebridades assim descreveu os procedimentos de Heidi Montag:

"O que ocorreu aqui é o que eu chamo de travestismo da mulher. Em outras palavras, uma mulher quer acentuar sua femilidade, se tornar uma boneca Barbie - e isso sempre me preocupa. Isso geralmente sugere um trauma mais significativo. E ao invés de procurar ajuda, ela se submete a isso..."

O assunto da cultura da boneca Barbie e suas implicações na feminilidade hoje merece um post por si só, que escreverei brevemente.

Fotos: http://oglobo.globo.com/fotos/2008/02/04/04_MVG_rio_angela.jpg
http://www.payer.de/arbeitkapital/arbeit308237.gif
http://perezhilton.com/2010-01-14-heidis-new-boobs-are-huger-than-huge

Vamos falar de sexo?

Sunday, 24 January 2010

Sei que estou um bocado atrasada, mas finalmente assisti o filme Kinsey (Kinsey - vamos falar de sexo? para os brasileiros ou O Relatório Kinsey para os portugueses). O filme foi lançado em 2004 mas nunca tive oportunidade de vê-lo antes. Este post serve para recomendar o filme a todos os interessados em saúde mental, mais especificamente em sexualidade. Entretanto, ele só deve ser visto por maiores de 18 anos e com maturidade, pois apresenta um conteúdo extremamente adulto, com imagens gráficas da genitália e discussões, por vezes, perturbadoras mesmo nos dias de hoje.


Para quem não sabe, Alfred Kinsey foi um pesquisador americano, que investigou a sexualidade humana. Em uma época dominada pela psicanálise, que lançava hipóteses não testadas (mesmo que válidas em muitos casos) sobre a sexualidade, Kinsey utilizou estatística e sua formação como biólogo\zoólogo e investigou o assunto de um ponto de vista estritamente científico. Kinsey, desta forma, é considerado o pai da sexologia moderna. O filme trata o assunto com um equilíbrio maduro, sem fazer da personagem um herói abnegado e mostra suas qualidades obsessivas (fundamentais na personalidade de um bom investigador) e seu envolvimento e experimentação (muitas vezes chocante, mesmo nos dias de hoje) em assuntos de sexo.

Os Relatórios Kinsey, publicados ao final da década de 40, revolucionaram o entendimento da sexualidade tanto masculina quanto feminina (esta especialmente), mas também sofreram com algumas falhas metodológicas. Embora seu valor não possa ser negado, algumas críticas atuais foram bem demonstradas no filme, como o interesse extremo do pesquisador pelo desviante, que pode ter levado a algumas falhas estatísticas na generalização do relatório.

De qualquer forma, o filme é intenso e muito interessante, sendo recomendado para aqueles que iniciaram agora sua introdução ao assunto ou para aqueles que gostam de ver uma boa personagem.

Foto: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/e/e7/Kinsey_movie.jpg

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Receita para criar psicopatas

Saturday, 23 January 2010

A população do Reino Unido está chocada com um caso que esteve em julgamento neste mês e que foi sentenciado ontem.

O crime ocorreu no segundo semestre do ano passado e os detalhes são extremamente perturbadores:

Dois irmãos, de 10 e 11 anos, torturaram, espancaram e humiliaram dois outros meninos da mesma idade. Os atos de selvageria e depravação perpretados por estas crianças extrapolaram os limites da compreensão. O crime ocorreu em Edlington, sul de Yorkshire (Inglaterra). Durante 90 minutos dois meninos foram espancados com galhos e pedras, cortados com arame farmado, receberam socos, pontapés, tiveram suas partes íntimas pisoteadas, entre outros. Durante a sessão de tortura, um dos irmãos perguntou a suas vítimas : "Você já está morrendo?"

As duas vítimas estavam andando de bicicleta quando foram vistos pelos irmãos, que praticaram o ataque como se fossem "um time". Em uma rotina praticada anteriormente com uma outra criança (que também ficou traumatizada), eles enganaram os garotos, que conheciam da vizinhaça, ao dizer que queriam mostrar-lhes uma raposa morta em uma ravina próxima ao bairro.

Ao chegarem à ravina, os garotos foram avisados de que seriam mortos e também ouviram ameaças constantes às suas famílias. O menino mais velho foi estrangulado diversas vezes. Ambos foram obrigados a comer espinhos e barro e depois tiveram seus pescoços cortados com cacos de vidro de garrafas de cerveja. A promotoria demonstrou que o irmão mais velho focou-se em torturar o menino de 11 anos e o mais novo o de 9 anos.

O irmão mais novo "pulou" no rosto de sua vítima e os dois tiveram seus genitais pisoteados. Tijolos e pedras foram jogados em suas cabeças. Alguns, eram pesados demais para que crianças os atirassem sozinhas e foram soltos na cabeça das vítimas ao invés de arremessados (o mais pesado: 12 quilos). Um laço de metal foi utilizado para estrangular o menino mais velho e arame farpado para cortar a língua do mais novo, que teve seu braço machucado com um pedaço de pau e um cigarro apagado na ferida.

Durante os 90 minutos de tortura, os meninos de 9 e 11 anos foram forçados a:

  • tentar matar o outro
  • despirem-se e forçados a realizar atos sexuais
  • tiveram os cílios e orelhas queimados
  • estrangulados com um varal
  • tiveram pias e objetos pesados "arremessados" contra suas cabeças
  • forçados a comer espinhos e sujeira
  • foram colocados sob um lençol de plástico ao qual foi ateado fogo.
Um dos irmãos lembrou-se de que era hora de encontrarem-se com seu pai, ao qual o outro respondeu: "Deixe-me só matá-los para que não contem nada". Ao final, as vítimas só sobreviveram porque os irmãos estavam com dores nos braços após a sessão de tortura e resolveram ir embora.

Quando os irmãos saíram, a criança mais nova chamou o de 11 anos para fugirem ao qual ele respondeu "Vai você. Eu não consigo me mexer ou ver. Eu vou morrer aqui.". O menino de 9 anos então saiu da ravina e perambulou pelas ruas de seu bairro, coberto de sangue. Um vizinho riu-se de ver como ele estava coberto de "tinta vermelha", mas ao aproximar-se, viu a extensão dos ferimentos. O menino apenas disse: "Eles nos bateram com galhos e pedras" e seus olhos começaram a rolar quando entrou em choque. Os vizinhos organizaram-se e encontraram o menino mais velho na ravina. Sua temperatura corporal era 28.5C (sinal de grave hipotermia). Ambos sobreviveram após semanas em tratamento intensivo no hospital da localidade, mas com marcas indeléveis para o resto de suas vidas.


Receita para criar psicopatas em casa

Durante a investigação do caso, foi descoberto o estilo de vida da família dos dois irmãos. A família já estava no radar dos serviços sociais há 14 anos: Pai, mãe e sete filhos. Não havia regras, tabus ou restriçoes. Aos 9 anos, ambos fumavam maconha (cannabis) dentro de casa e bebiam cerveja e cidra.

As duas crianças cresceram assistindo filmes de terror sadísticos e dvds pornográficos, de onde provavelmente tiraram inspiração para a sessão de tortura.

Não havia ninguém para impedir que este fato acontecesse. O pai passava seu tempo a plantar maconha no quintal, sempre com uma lata de cerveja nas mãos. A mãe, consumidora compulsiva de maconha, quando confrontada por policiais sobre o que seus filhos fizeram, respondeu "eu não tenho nada a ver com eles".
O pai é um alcoólico violento. Ele passava o tempo intoxicado, a abusar fisicamente dos filhos e da esposa, chegando a cortá-la com uma faca na frente dos meninos.

A família era conhecida na vizinhança: a casa deles era a única com um carro abandonado e uma geladeira (frigorífico) aos pedaços no jardim da frente. A placa da frente da casa dizia, numa tradução minha: "Cuidado, criança brava" (Beware of the Kids). A familia parecia gostar de sua notoriedade e mesmo serviços sociais tinham "medo" das visitas.

Os pais viviam de benefícios sociais do governo (um tipo de "bolsa-família") que era gasto quase que completamente em maconha e álcool. Gradualmente eles passaram a perder o controle sobre os meninos. A mãe havia dito a uma vizinha que costumava colocar maconha no chá deles, "para fazê-los dormir para que eu tenha sossego". Como o dinheiro para alimentá-los e vestí-los era gasto em drogas, os meninos eram incentivados a procurar comida e roupas no lixão dos supermercados.
Quando não perambulavam pelas ruas, os meninos passavam o tempo assistindo filmes ultraviolentos e pornográficos (os preferidos eram SAW e "Brinquedo Assassino"), no que a corte definiu ontem como "um estilo familiar tóxico" e uma "rotina de agressão, violência e caos".

Arrepio-me de imaginar a cena familiar: pai, mãe e os dois filhos mais novos assistindo filmes violentos enquanto fumavam maconha, rindo-se enquanto sangue escorria em quase todas as cenas. E cedo, de fato, a ficção tornou-se realidade.

Quando questionados sobre o porquê de terem torturado as outras duas crianças, o irmão mais velho respondeu "Porque não tinha nada para fazer". O horror foi capturado pela câmera de um celular (telemóvel), no qual se pode ouvir o mais velho dizendo "que imagem ótima". Tudo se passou sem qualquer entendimento do que era certo ou errado, sem medo de qualquer culpa ou punição. Durante os procedimentos do tribunal, os meninos mostraram sentimento apenas quando sua mãe disse que era abusada fisicamente pelo marido.

Quando andavam pelas ruas de seu bairro, eles costumavam carregar vidros quebrados que utilizavam para ameaçar qualquer um que os "denunciasse". Costumavam empurrar deliberadamente outras crianças na frente dos carros em movimento para ver o impacto. Gostavam de colocar fogo no cabelo de meninas e de empurrar senhoras idosas de suas bicicletas. Eles também já haviam matado um grupo de patinhos em um parque.

Os pais se importavam muito pouco e nunca os puniram ou reprimiram. Um psiquiatra infantil que investigou o caso disse que os dois apresentam grande potencial para desenvolver o transtorno de personalidade antissocial.

Todos são vítimas de certa forma. Para os dois irmãos provavelmente já é muito tarde e o prognóstico, mesmo agora que foram retirados da família e institucionalizados, já é quase certo. As vítimas, que recuperaram-se brilhantemente da tortura e mostraram-se bastante resilientes no que tange ao sofrimento físico, tem sofrido de pesadelos, medo e evitam sair da rua. Provavelmente precisarão de auxílio psicológico e psiquiátrico (transtorno de estresse pós-traumático) pelo resto da vida. A amizade entre os dois está bastante estremecida. O pai do menino de 9 anos disse que ele sente muita culpa de ter abandonado o amigo na ravina para buscar ajuda. A família do mais velho, entretanto, acredita que ele seja um herói por ter buscado ajuda.

Critérios para o transtorno de personalidade antissocial:

Critérios Diagnósticos pelo DSM-IV-TR (Código: 301.7)


A. Um padrão pervasivo de desrespeito e violação aos direitos dos outros, que ocorre desde os 15 anos, como indicado por pelo menos três dos seguintes critérios:

-Fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção;

-Impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro;

-Irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas;

-Desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia;

-Irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras;

-Ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa.

B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade.

C. Existem evidências de Transtorno de Conduta com início antes dos 15 anos de idade.

D. A ocorrência do comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia ou Episódio Maníaco

Transtorno de estresse pós-traumático

A existência de um evento traumático claramente reconhecível como um atentado à integridade física, própria ou alheia, que haja sido experimentado direta ou indiretamente pela pessoa afetada e que lhe provoque temor, angústia ou horror.


A reexperimentação repetida do evento, ou seja:

Pensamentos recorrentes e intrusivos (flashback);
Pesadelos;
Comportamento como se o evento ocorresse novamente.
A insensibilidade afetiva, identificável por:
Diminuição expressiva no interesse em realizar atividades comuns ou significativas, especialmente se tem alguma relação com o evento traumático.
Sensação de alheamento em relação às outras pessoas.
Restrição afetiva. Incapacidade de amar.
Ativação psicomotora
Hiperatividade.
Distúrbios do sono.
Dificuldade para concentrar-se.
Irritabilidade.




Foto: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1244984/I-stopped-arms-aching-Horrific-confession-11-year-old-sadist-tortured-young-boys.html

Para ler mais: Double the jail term for torture brothers, say children's charities

A verdade por trás da São Paulo Fashion Week

Thursday, 21 January 2010

Esta semana houve mais uma edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), uma semana tupiniquim de estilistas brasileiros que pensam estar a influenciar o mundo da moda. Muitos poucos brasileiros (além dos colunistas sociais) perdem tempo com isso. Foi só por acaso que me deparei com o texto abaixo, retirado da Folha Online.

De tão magras, modelos chegam a andar com dificuldade


ALCINO LEITE NETO
VIVIAN WHITEMAN
da Folha de S.Paulo


Chegou a um nível irresponsável e escandaloso a magreza das modelos nas semanas brasileiras de moda. As garotas, muitas delas recém-chegadas à adolescência, exibem verdadeiros gravetos como pernas e, no lugar dos braços, carregam espécies de varetas desconjuntadas. De tão desencarnadas e enfraquecidas, algumas chegam a se locomover com dificuldade quando têm que erguer na passarela os sapatos pesados de certas coleções.

Usualmente consideradas arquétipos de beleza, essas modelos já estão se acercando de um estado físico limítrofe, em que a feiura mal se distingue da doença.

Essa situação tem o conluio de todo o meio da moda, que faz vista grossa da situação, mesmo sabendo das crueldades que são impostas às meninas e das torturas que elas infligem a si mesmas para permanecerem desta maneira: um amontoado de ossos, com cabelos lisos e olhos azuis.

Uma rede de hipocrisia se espalhou há anos na moda, girando viciosamente, sem parar: os agentes de modelos dizem que os estilistas preferem as moças mais magras, ao passo que os estilistas justificam que as agências só dispõem de meninas esqueléticas. Em uníssono, afirmam que eles estão apenas seguindo os parâmetros de beleza determinados pelo "mercado" internacional --indo todos se deitar, aliviados e sem culpa, com os dividendos debaixo do travesseiro.

Alguns, mais sinceros, dizem que não querem "gordas", com isso se referindo àquelas que vestem nº 36. Outros explicitam ainda mais claramente o que pensam dessas modelos: afirmam que elas não passam de "cabides de roupas".

Enquanto isso, as garotas emagrecem mais um pouco, mais ainda, submetidas também a uma pressão psicológica descomunal para manterem, em pleno desenvolvimento juvenil, as características de um cabide.


Um emaranhado de ignorâncias, covardias e mentiras vai sendo, assim, tecido pelo meio da moda, inclusive pelos estilistas mais esclarecidos, que não pesam as consequências do drama (alheio) no momento em que exibem, narcisicamente, suas criações nas passarelas.

Para uma semana de moda, que postula um lugar forte na sociedade brasileira, é um disparate e uma afronta que ela exiba a decrepitude física como modelo a milhões de adolescentes do país.


Para a moda como um todo, que vive do sonho de embelezar a existência, a forma como os agentes e os estilistas lidam com essas moças é não apenas cruel, mas uma blasfêmia. Eles, de fato, não estão afirmando a grandeza da vida, mas propagando a fraqueza e a moléstia.

O filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu que as modelos são "as vítimas sacrificiais de um deus sem rosto". É hora de interromper esse ritual sinistro. É hora de parar com essas mistificações da moda, que prega futuros ecológicos, convivências fraternais e fantasias de glamour, enquanto exibe nas passarelas verdadeiros flagelos humanos.

Foto: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u682197.shtml

A médica como paciente II

Wednesday, 20 January 2010


Continuando o post anterior, no qual delimitei os princípios dos sistemas de saúde públicos da Inglaterra e do Brasil, continuarei agora meu relato pessoal de como experimentei os dois, como médica e como paciente.

Desde que fiquei grávida, contactei uma equipe de midwives (parteiras) que fica na clínica do meu médico de família. Cada local tem seu próprio médico de família (uma pequena clínica com profissionais médicos, enfermeiros, etc) que direciona o tratamento do utente. A primeira consulta foi na minha casa, na qual a midwife (enfermeira parteira) veio conhecer-me e fazer uma avaliação básica da minha saúde. A consulta demorou uma hora, transcorrendo mais como uma conversa entre amigos e ocorreu na mesa da minha sala de jantar, onde nos sentamos os três: a enfermeira, meu marido e eu. Foi preenchida uma ficha de avaliação clínica e a profissional aferiu minha tensão arterial e pulso. Ao final da consulta foi me dado um calendário com a programação das consultas e ultrassons que deveria ter e quando estavam previstos para ocorrer. Como o sistema é público, evita-se o desperdício e não se faz ultrassom em todas as consultas (como no sistema privado no Brasil). O primeiro ultrassom ocorre às 12 semanas (ou ecografia, como se diz em Portugal), já que o índice de abortos espontâneos é muito menor a partir desta data e, se tudo corre bem, o próximo ocorre só com 20 semanas. Se outros procedimentos são necessários, tanto a midwife quanto o médico de família (GP) são porta de entrada e provedores de outros serviços mais especializados.

Este foi um apanhado geral para chegar ao ponto mais pertinente: Embora viva em Cambridge e meu hospital seja um hospital escola (e o único da cidade) NUNCA fui vista por nenhum aluno. Aqui começam as diferenças entre o que experimentei como aluna e o que vejo agora como paciente. Quando fui realizar meu ultrassom anátomo-patográfico (20 semanas), observei em um mural que o hospital solicitava voluntários para uma aula de ultrassonografia. Não aguentei a curiosidade e me candidatei por escrito, recebendo pelo correio, na semana seguinte, instruções sobre a aula. Uma brochura explicava que esta era uma aula para ensinar a residentes de ginecologia e\ou imaginologia como fazer medições básicas de fetos entre 18 a 25 semanas. Um médico especialista estaria presente o tempo todo para dar instruções e a sessão demoraria uma hora. Um livreto explicava o que é o ultrassom e como o exame é realizado. Um papel com instruções explicava para onde deveria me direcionar, quem me atenderia, que seria fornecido um lanche rápido para os voluntários, e que as despesas de viagem e estacionamento seriam pagas pela disciplina.

No dia em questão, chegamos ao hospital (meu marido e eu) e fomos simpaticamente recebidos por uma enfermeira que nos direcionou a um grande salão. Havia uma pequena sala de espera com diversas grávidas e uma mesinha com uma cesta de frutas frescas. O salão havia sido dividido em pequenas salas de exame por biombos (eu contei pelo menos 10) e durante todo o dia grávidas passariam por eles de hora em hora. Fui chamada e assumi a posição para o ultrassom. Os dois alunos presentes se apresentaram, assim como o professor. Quando todos estavam prontos, iniciou-se o exame e a cada 15 minutos era questionada se estava a me sentir bem e se poderíamos continuar. Ao final de meia hora, o segundo aluno iniciou os mesmos procedimentos do primeiro e ao final do exame (final da minha hora) o professor imprimiu gratuitamente para nós as melhores fotos do nosso bebê (geralmente cobra-se 2 libras por foto no NHS).

Não quero dizer que o NHS não apresenta problemas. Como toda política pública, existem arestas a serem aparadas e erros que são cometidos. Mas ideias boas devem ser aproveitadas, especialmente quando se compara a realidade que conheci no Brasil:

Nunca tive um bebê no SUS em Uberlândia, mas obviamente fui aluna de Ginecologia e Obstetrícia no Hospital de lá e não só, passei por todos os departamentos. O que se vê é obviamente bem diferente...

Em Uberlândia, para começar, o sistema está afogado: O Hospital escola é referência para uma região de pelo menos 3 milhões de pessoas e é o único que atende o SUS. As cidades pequenas ao redor podem dispor de suas verbas a seu bem entender (o SUS não é centralizado como o NHS, mas local, lembram?) e ao invés de investir em médicos de família e equipes de triagem, compram uma ambulância para transportar mais rápido para Uberlândia. Assim, serviços que poderiam facilmente serem prestados localmente incham e as filas de espera estendem-se quilometricamente. São necessários meses para uma consulta de avaliação para uma cirurgia de vesícula, por exemplo, que poderia ser facilmente realizada por um médico de família.

Mas, pior que tudo é o nível do cuidado prestado. Não estou a dizer que os médicos do Hospital de Clínicas de Uberlândia são ruins. Muito pelo contrário! São profissionais extremamente competentes em sua grande maioria e diversas vezes fui atendida por eles em seus consultórios privados. O que ocorre em Uberlândia é um garroteamento do serviço. A demanda insana encontra um cuidado prestado principalmente por alunos. Se um dia os alunos de medicina da UFU e os residentes (que afinal de contas também são alunos, com inscrição no CRM mas ainda sem especialização) resolvessem entrar em greve, colocariam o hospita contra a parede. O número de médicos é insuficiente e os alunos estão na primeira linha de atendimento.

Lembro-me de minha passagem pela pediatria, por exemplo. Haviam 5 alunos (pelo menos) de plantão junto com 2 ou 3 residentes e 2 chefes de plantão (os pediatras especialistas de fato). Isso para atender a demanda insana do pronto socorro. Lembro-me de em uma tarde atender pleo menos 35 pacientes! É claro que apenas 2 médicos especialistas jamais dariam conta de tamanho serviço. O que ocorre é que estudantes chamam o paciente e fazem a primeira avaliação. Depois discutem com o residente ou o especialista (aquele que encontram primeiro) que faz uma rapida consulta de 5 minutos para confirmar os achados do estudante.
Percebam, não quero culpar os colegas médicos. O sistema é absurdo! Mais contratações seriam necessárias, mas o hospital (como os demais no país) vive estrangulado por falta de verbas.

O paciente, coitado, nunca tem a opção de não ser visto por um aluno. Já seu primeiro contato com o sistema é feito por um aluno muitas vezes SEM supervisão a todo momento (só a revisão de seu relato). Os pacientes não estão ali para serem vistos por profissionais não formados, da mesma forma que os alunos e residentes não deveriam carregar o hospital nas costas. Todo o sistema encontra-se pervertido e obviamente falhas grotescas de atendimento esperam por ocorrer a todo momento.

Ao escrever este post, lembrei-me de uma situação que ocorreu nos meus tempos de aluna que transcrevo de uma das páginas de notícia do Diretório Acadêmico da UFU. Os nomes dos médicos foram removidos, para garantir sua privacidade. A notícia pode ser lida na íntegra aqui.

Sete pessoas são acusadas pelas mortes de uma paciente e de seu bebê no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais, e podem ir a júri popular. Os acusados são quatro médicos, um enfermeiro e dois auxiliares de enfermagem.


Segundo denúncia feita pelo Ministério Público Federal, a paciente EPF chegou ao Hospital das Clínicas no início da madrugada do dia 29 de novembro de 2004 já em trabalho de parto e foi atendida inicialmente na Unidade de Atendimento Integrado. Em seguida, a paciente foi transferida de urgência para o HC. O feto estava em posição pélvica.



Percurso

Da transferência até o parto a paciente deparou-se com problemas de comunicação entre profissionais da saúde que a atenderam. De acordo com a inicial, o primeiro médico que atendeu Edinalva telefonou para a médica de plantão do HC relatando o encaminhamento da paciente. À época, o médico também comunicou a transferência de outra paciente — AEC — que teve a bolsa amniótica rompida.

A médica plantonista HBM não atendeu E e delegou a função ao sextanista do curso de Medicina, GBA, e à auxiliar de enfermagem NS. O estudante não determinou a realização de exames complementares e teria respondido à paciente e ao seu acompanhante que o parto seria normal e que “o médico aqui sou eu”.

A médica residente HB, que se encontrava descansando, recebeu a ocorrência e, sem interromper seu descanso, receitou a aplicação do medicamento Buscopan Composto Endovenoso para as dores da paciente.

Em seguida, GB atendeu a paciente AE, mas, ao constatar que o bebê estava nascendo, deitou-a em uma maca do Pronto-Socorro da Enfermaria e, segundo a inicial, inexplicavelmente empurrou o feto para dentro da paciente, causando um aborto não-consentido, crime previsto no artigo 125 do Código Penal. O estudante também foi dormir, deixando E aos cuidados das enfermeiras plantonistas.

Naquela madrugada, também estavam de plantão no HC os médicos JPRJ e APLJ, mas eles não foram vistos no Pronto Socorro da Ginecologia durante todo o tempo dos fatos, embora fossem os responsáveis pelo setor.


Segundo apurou o MP (Ministério Público), por volta das 3h, as duas auxiliares de enfermagem, LMP e NS, a médica H e o estudante G encontravam-se, todos, dormindo quando as pacientes estavam na enfermaria.

Agravantes

Ainda de acordo com informações do MP, a auxiliar L estava embriagada. Durante o procedimento investigatório, ela afirmou que era seu costume beber antes de comparecer ao trabalho, tendo trabalhado alcoolizada por diversas vezes, fato que era do inteiro conhecimento do enfermeiro MNC coordenador do setor de enfermagem.

Na troca do plantão, às 7h, a enfermeira VM percebeu a gravidade do caso e o comunicou à médica residente LR que havia acabado de substituir H. A bolsa havia se rompido e a criança teve problemas como apnéia e cianose generalizada. Não resistiu às tentativas de reanimá-la não e morreu uma hora após o parto.

A mãe permaneceu na enfermaria. Com quadro infeccioso crescente e generalizado, no dia 1º de dezembro foi encaminhada para a UTI, vindo a falecer no dia 14 seguinte.

Acusação

Segundo relato do MP, o interno G, "percebendo a gravidade dos acontecimentos, procurou o prontuário do setor, o qual não continha qualquer registro a partir da meia noite, e em combinação com a inculpada H, inseriram declaração falsa no sentido de que a paciente teria sido examinada à 1h e às 3h da manhã, com o claro propósito de se furtarem de eventual responsabilidade civil e criminal". Por essa razão, além do crime de homicídio doloso, eles são acusados também do delito previsto no artigo 299 do Código Penal, a falsidade ideológica.

Os médicos JPRJ e APLJ e o enfermeiro MNC são acusados de homicídio culposo, prevaricação e abandono de função porque, apesar de escalados para plantão no dia dos fatos, não foram encontrados em qualquer dependência do hospital. As auxiliares de enfermagem LMP e NS irão responder por homicídio culposo.

Ao oferecer a denúncia, o procurador da República Cléber Eustáquio Neves requereu o encaminhamento de cópia ao Conselho Federal de Medicina, para que este órgão realize sindicância no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia. O objetivo é apurar o descumprimento de normas e procedimentos que regulamentam a atividade médica, o exercício regular de plantão e o atendimento adequado a ser dispensado a pacientes em situação de urgência e emergência.


Fonte: Site Última Instância, 09/04/2007.



Nota oficial da Direção do Hospital de Clínicas da UFU

Com relação à denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal envolvendo médicos e enfermeiros do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC/UFU), a Direção do hospital informa que:

O Hospital de Clínicas ainda não foi notificado judicialmente sobre o caso e, assim que for, tomará as providências cabíveis. No entanto, a Direção tomou conhecimento da denúncia por meio da Procuradoria Geral da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e está apurando os fatos.

Foto: http://blogs.freshminds.co.uk/research/wp-content/uploads/2009/01/nhs276.jpg

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A médica como paciente

Tuesday, 19 January 2010


Para os que não acompanham o blog, este post diz respeito a uma epifania que tive neste momento pessoal. Estou grávida de nosso primeiro filho e vivo na Inglaterra. Uberlândia, onde cresci e me formei profissionalmente, ficou para trás ha muito tempo. Como não poderia deixar de ser, fui paciente também em na minha cidade, de colegas que foram meus professores ou meus conhecidos. Além disso, o Brasil vive um misto de sistemas de saúde, com a classe média a pagar por convênios médicos (em um modelo americano) e os mais destituídos sendo tratado pelo SUS (Sistema Único de Saúde), a exemplo das democracias européias. Todas as vezes que me vi no papel de paciente, nunca senti a impotência completa que deve ser experimentada pelos não-médicos: a vida nas mãos dos outros, não enteder os termos, entre outros. Como dispunha de plano de saúde, pode-se escolher (comprar de certa forma) um ou outro tratamento ou profissional e meu conhecimento na área sempre serviu como proteção, seja contra tratamentos desnecessários, seja como defesa egóiga ("eu ainda tinha algum poder").

Agora, do outro lado do lago (como os ingleses jocosamente chamam o Oceano Atlântico), vejo-me novamente paciente em um novo contexto. Na Inglaterra é proibido aos amigos e familiares tratarem seus conhecidos, que de qualquer forma ficam limitados a serem consultados por seus GPs (médicos de família) locais. Cada região tem seu GP e é aquele seu provedor de saúde. Além disso, embora existam alguns planos de saúde privados, 95% do país dispõe e usufrui de um plano de saúde nacionalizado, o NHS, orgulho destes ilhéus. Para assustar ainda mais um incauto brasileiro, o incentivo aqui é completamente voltado ao parto normal hospitalar ou domiciliar (a escolha da mulher) e as cesarianas apenas são desempenhadas quando há verdadeira necessidade (ao contrário do Brasil, onde mais de 85% dos partos privados - segundo estatísticas da OMS - são cesarianas).

Quando comecei o curso de medicina, tive aulas de MPC (Medicina Preventiva e Comunitária), que no segundo ano do curso nos dava as bases do SUS. Acho que para entender melhor o resto do artigo, devo explicar o que é e como foi desenvolvido o sistema de saúde brasileiro, tanto para os colegas portugueses quanto para os brasileiros, que também ignoram os fatos desta política pública. Vou começar por uma brevíssima história do NHS inglês, pois estes dois sistemas estão completamente entrelaçados na história brasileira.

O National Health Service (NHS) foi desenvolvido principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando o Reino Unido estava falido devido ao esforço de guerra. Assim, Winston Churchil e os conservadores perderam as eleições para o Labour Party e um conjunto de medidas que visavam o bem estar social "do berço à cova" ("cradle to grave") foram implementadas. O governo optou por um sistema nacional e não local para impedir que desigualdades entre regiões afetassem a qualidade do serviço. Também foi proposto que a porta de entrada no sistema seria o GP (General practicioner ou médico de família) que então direcionasse o tratamento às partes necessárias. Os princípios fundamentais do NHS são:

That it meet the needs of everyone (que sirva a todos)

That it be free at the point of delivery (que seja gratuito)

That it be based on clinical need, not ability to pay (que seja baseado na necessidade clínica e não na capacidade financeira (de um indivíduo)).

O SUS
Com a implementção e sucesso do NHS, modelos semelhantes proliferaram por toda Europa e em outros continentes. Em 1974, durante o regime militar no Brasil, o INAMPS foi criado para prestar atendimento médico aos que contribuíam com a previdência social (os que tinham carteira assinada). Com a abertura do regime militar, sob o general Figueiredo, ocorreu o  I Simpósio sobre Política Nacional de Saúde em 1979 e a partir de então o INAMPS foi continuamente alterado para universalizar o atendimento. A Constituição de 1988 definiu a saúde como "direito de todos e dever do Estado". Em 1993 o INAMPS foi definitivamente extinto e o SUS que já vinha sendo implementado gradualmente, assumiu as funções de saúde no país.

Como no NHS, o SUS também dispõe de princípios fundamentais que são descritos a seguir:

Universalidade  "A saúde é um direito de todos"

Integralidade A atenção à saúde inclui tanto os meios curativos quanto os preventivos; tanto os individuais quanto os coletivos. 

Eqüidade Todos devem ter igualdade de oportunidade em usar o sistema de saúde.

Participação da comunidade

Descentralização político-administrativa O SUS existe em três níveis, também chamados de esferas: nacional, estadual e municipal, cada uma com comando único e atribuições próprias. Os municípios têm assumido papel cada vez mais importante na prestação e no gerenciamento dos serviços de saúde; as transferências passaram a ser "fundo-a-fundo", ou seja, baseadas em sua população e no tipo de serviço oferecido, e não no número de atendimentos.

Hierarquização e regionalização Os serviços de saúde são divididos em níveis de complexidade; o nível primário deve ser oferecido diretamente à população, enquanto os outros devem ser utilizados apenas quando necessário.

Na realidade o SUS atende à população pobre. Indivíduos em melhores cargos buscam e dispõe de planos de assistência privados, numa semelhança ao modelo norte-americano.

No papel o SUS é muito bem definido e claro. O modelo inglês funciona lindamente. Porque o mesmo não ocorre no Brasil?

Como aluna, médica e paciente, eu experimentei os dois modelos de forma muito próxima nos últimos anos e, para que este post não fique imenso e monótono, relatarei minhas vivências no próximo para delimitar os contrastes e semelhanças e (quem sabe?) inspirar alguém a buscar soluções melhores para nosso Brasil.

Foto: http://falamedico.files.wordpress.com/2008/09/sus1.jpg

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Campanha contra o crack do ministério da saúde

Monday, 18 January 2010

O Ministério da Saúde brasileiro lançou uma nova campanha contra o uso de crack (que anda em franca expansão) no país.

O vídeo abaixo é um dos que andam em circulação no país para alertar sobre os perigos.

Pesquisa online sobre perfil psicológico e doenças comportamentais

Sunday, 17 January 2010

Para saber como o temperamento influencia ou é influenciado pelos transtornos psiquiátricos um grupo de pesquisadores da PUC, de Porto Alegre, criou uma pesquisa na internet. A pesquisa é composta de diversos questionários psicológicos para definir seu perfil, vontade, raiva, medo e averiguar a presença de doenças mentais.

Quanto mais participantes melhor e o site dá-lhe o resultado no final de cada etapa.

Para acessar: www.temperamento.com.br/

Médicos brasileiros estão desenvolvendo uma pesquisa que pode ajudar no tratamento de doenças comportamentais, como depressão, ansiedade e estresse. O estudo procura voluntários em todo país. Você pode participar de casa porque as informações são colhidas pela internet. E você recebe, de graça, a avaliação de uma equipe médica. Os médicos já sabem: de 35% a 50% da população têm algum tipo de transtorno psiquiátrico. O problema é que a maioria não procura ajuda por falta de informação ou preconceito. “Cada vez mais estão surgindo evidências de que o comportamento da pessoa, seu jeito de ser, está relacionado com as doenças mentais que a pessoa pode vir a manifestar e também com a forma que essa doença se manifesta na pessoa”, esclarece Gustavo Ottini, psiquiatra

E há vários tipos de transtornos. Por exemplo, 10% da população já teve ou terá depressão ao longo da vida. Mulheres, pessoas com stress provocado por doenças ou que tiveram perdas em geral, como relacionamentos ou trabalho são as mais afetadas. Elas apresentam sintomas como falta de vontade, tristeza e perdem o prazer em atividades que antes gostavam de realizar.

Entre os homens a irritabilidade também chama a atenção e para saber como o temperamento influencia ou é influenciado pelos transtornos psiquiátricos um grupo de pesquisadores da PUC, de Porto Alegre, criou uma pesquisa na internet.

Qualquer pessoa com mais de 18 anos pode participar. Bastar ter um computador ligado à internet e um endereço eletrônico. O voluntário não precisa se identificar. E depois de responder o questionário, ele recebe na hora uma avaliação psicológica.

Uma espécie de mapa comportamental. A pessoa fica sabendo como estão os níveis de medo, sensibilidade, controle, vontade, se está ansioso, apático. Um diagnóstico rápido que pode servir para o início de um tratamento. A ideia é coletar os dados de 50 mil voluntários. Para os médicos, a estatística final pode ajudar nos consultórios.

“A escala de temperamento que a gente desenvolveu pode ser útil depois para consultórios de psicólogos e psiquiatras para antecipar o perfil do paciente e de que maneira aquela pessoa pode ter mais ou menos chances de desenvolver os transtornos psiquiátricos. Então abreviaria e ao mesmo tempo deixaria mais completa a avaliação, em pouco tempo”, diz Diogo Lara, psiquiatra.

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Notícias em psiquiatria

Saturday, 16 January 2010

Variante genética vinculada à longevidade protege contra senilidade, diz estudo
Variante genética produz uma proteína que incrementa o colesterol bom (HDL) no sangue
Veículo: Folha Online
Seção: Ciência e Saúde
Data: 14/01/2010

Medicamento para Parkinson pode causar síndrome de abstinência
Problemas são descritos em artigo publicado no jornal "Archives of Neurology"
Veículo: Folha Online
Seção: Ciência e Saúde
Data: 14/01/2010

Pesquisa identifica evidência entre câncer e estresse
Cientistas afirmam que as células atingidas pelo estresse podem emitir sinais indutores da geração de tumores que afetam às células sadias vizinhas
Veículo: Folha Online
Seção: Equilíbrio
Data: 15/01/2010

Eu quero. Não quero mais
Com picos extremos de humor, o transtorno bipolar faz com a pessoa vá do céu ao inferno emocional
Veículo: Guia da Semana
Seção: Teen
Data: 15/01/2010

Drogas para baixar pressão protegem contra demências
Adultos que usam drogas do tipo bloqueadores dos receptores da angiotensina parecem ser menos propensos a desenvolver problemas como deterioração do cérebro
Veículo: O Globo
Seção: Viver Melhor
Data: 13/01/2010

Preocupação com estética leva a busca de remédios
Pesquisa Nacional de Saúde Escolar mostrou que 33% das meninas do 9º ano do ensino fundamental buscam emagrecer e que 6,9% delas vomitaram ou tomaram remédios para não ganhar peso
Veículo: O Dia
Seção: Geral
Data: 10/01/2010

Um quarto de licenças é por problema mental
Na Polícia Civil, mais de um quarto dos afastamentos do trabalho se deram por essa razão
Veículo: O Popular
Seção: Cidades
Data: 11/01/2010

As demais notícias saíram no mesmo jornal e na mesma data:

Transtornos tiram policiais das ruas
Números mostram um crescente número de licenças para tratamento médico e mesmo de aposentadorias por problemas psiquiátricos apresentados por esses trabalhadores

Pesquisa aponta alto estresse entre agentes
Fatores emocionais estão entre as principais causas de adoecimento dos policiais. Alguns tiveram de se afastar do trabalho e outros foram encaminhados para tratamento psiquiátrico

Notícias em toxicodependência

Crack se aproxima de álcool no ranking da dependência
Principais centros de atendimento a dependentes químicos do Estado registram uma diferença cada vez menor entre número de usuários de álcool e de crack
Veículo: A Gazeta
Seção: Notícias
Data: 14/01/2010

Pesquisas da Universidade avaliam codependência de álcool e tabaco
Duas dependências são tão próximas por agir de modo sinérgico: o álcool é um depressor e o fumo, estimulante
Veículo: Agência USP de Notícias
Seção: Saúde
Data: 14/01/2010

Rótulos de bebidas podem trazer alertas sobre possíveis danos
Imagens ou figuras ilustrativas também devem ser incluídas nas embalagens para alertar sobre consequências do uso do produto
Veículo: Jornal do Senado
Seção: Notícias
Data: 11/01/2010

Que mundo é este?
Fernando Lejderman: Muitos moradores de rua são pessoas desgarradas da família devido à gravidade da doença mental que os aflige e/ou pelo uso simultâneo de álcool e drogas
Veículo: Zero Hora
Seção: Opinião
Data: 13/01/2010

Crack é a causa do abandono de 80% das crianças do Teia
Percentual é uma estimativa do promotor da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto, Cláudio Santos de Moraes
Veículo: Diarioweb
Seção: Cidades
Data: 10/01/2010

O crack é responsável por cerca de 80% das crianças abandonadas pelos pais e que hoje estão abrigadas no programa Trabalho de Emancipação pela Infância e Adolescência (Teia), de Rio Preto, o que corresponde a cerca de 130 menores. Parte deles já foi encaminhada para adoção.
O percentual é uma estimativa do promotor da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto, Cláudio Santos de Moraes, responsável por requerer à Justiça a retirada dos filhos da guarda dos pais. Nos últimos dois anos, por determinação do juiz da Vara da Infância e da Juventude, o Teia acolheu 168 crianças e adolescentes que viviam em situação de risco dentro de suas próprias casas.
“A dependência está na base da maioria das situações que envolvem negligência de crianças”, diz. Segundo ele, embora haja outros fatores que contribuem para o abandono, o crack é o principal responsável. “Ele está por trás de tudo. Os dependentes abandonam tudo, ficam só na droga”, diz o promotor.
“O problema está crescendo e se tornando cada dia mais grave”, afirma Maria do Carmo Gardin, coordenadora do Teia. Segundo uma assistente social do setor técnico da Vara da Infância e Juventude, às vezes é preciso apoio policial para retirar as crianças de suas casas devido ao envolvimento dos pais com o tráfico.
Outros fatores acompanham a dependência dos pais e a necessidade de acolher os menores. “A droga nunca está sozinha. Há também o álcool e um complexo sistema econômico, social e cultural que influencia no acolhimento da criança”, diz Janaína Simão, coordenadora da Divisão e Proteção Social Especial da Secretaria de Assistência Social, que engloba o Teia.
Hoje, 56 crianças vivem em uma das sete casas-lares de Rio Preto. Cerca de 20 têm possibilidades remotas de retornarem ao lar. O vício no crack afastou a jovem M., 20 anos, do filho C., de apenas 9 meses. Ele foi a primeira criança abrigada este ano em Rio Preto. M. é dependente da droga desde os 17 anos. Ela ficou internada na Fundação Casa entre 2007 e 2008, se afastou do vício, mas recaiu. “Não é fácil deixar a droga de uma hora para outra.
Tenho tentado, mas é difícil”, diz. A criança foi recolhida após M. fugir da Santa Casa com o filho, no dia 31 de dezembro de 2009. O bebê estava internado com pneumonia. Ela teria deixado o menino com a madrinha, que avisou o Conselho Tutelar. M. diz sofrer com a ausência da criança. “Acham que joguei meu filho no lixo. Mas não é isso”, diz a jovem entre lágrimas. “Sei que ele vai voltar quando eu parar.” A avó da jovem, de 62 anos, afirma ter condições de cuidar do menino. “Eu não consigo viver sem ele.”
O vício também afastou seis irmãos do convívio dos pais. Há cerca de um ano, eles são criados pelos avós. “Estava sentado na calçada, às três horas da tarde, quando o carro do Conselho Tutelar chegou com eles. Disseram que ou a gente cuidava ou iam para adoção”, diz o avô José Antonio Ferreira, 58 anos.
Ele afirma que o filho e a nora bebiam muito, além do envolvimento com a droga. “Os meninos comiam porque pediam. Não tinha nada na casa deles. Eles não pagavam água nem luz.” Os vizinhos fizeram a denúncia ao conselho, que localizou os avós.
Hoje, as crianças são saudáveis e felizes. “Temos dificuldades, pois só minha esposa trabalha e minha aposentadoria não sai. Eles são alegres, obedientes e estudiosos.”

Gêmeos
Em 19 de maio de 2009, os gêmeos Leandro e Leonardo foram retirados dos pais devido ao envolvimento com crack. O pai dos meninos, Vagner Sabino, 35 anos, ficou inconformado com a decisão. Na época, ele fazia tratamento para se livrar da dependência. Os tios dele também se disponibilizaram para conseguir a guarda dos bebês, mas as crianças foram encaminhados para adoção. A reportagem tentou localizar a família, mas ela mudou de endereço e não atendeu ligações telefônicas.
O setor técnico da Vara da Infância e da Juventude de Rio Preto e os assistentes sociais do programa Teia (Trabalho de Emancipação para a Infância e Adolescência) acompanham os pais usuários de droga e os encaminham para a reabilitação. “A família das crianças é visitada e acompanhada, independentemente dos motivos que geraram o acolhimento”, diz Maria do Carmo Gardin, coordenadora do Teia. “Olhamos o que a família tem de positivo e estimulamos a mudança para a reintegração dos filhos.”
A estratégia tem dado certo. Segundo ela, em 90% dos casos, as crianças e adolescentes são reintegradas à família. “O ideal é que elas cresçam no ambiente familiar.” Caso não haja condições de retorno, a Promotoria da Infância e Juventude pode pedir a destituição do poder familiar. Nesse caso, é gerado um processo em que o histórico é analisado. Nele, os pais têm direito à defesa. Se o juiz retirar a guarda, a criança é encaminhada para adoção.
Nos últimos 17 anos, foram realizados 950 processos de adoção no Fórum de Rio Preto, a maior parte deles para famílias da cidade e região. Os números de crianças que ganharam novas famílias no ano passado em Rio Preto não foi divulgado pelo Tribunal de Justiça. De acordo com Janaína Simão, coordenadora Divisão e Proteção Social Especial da Secretaria de Assistência Social, muitas crianças abrigadas pelo Teia são irmãs, o que dificulta o processo de adoção. “Não podemos separa-las. É muito raro alguma família adotar mais de uma criança.”
O vício em crack tem consequências devastadoras para o corpo humano. A droga causa emagrecimento súbito, taquicardia e problemas respiratórios, além de fazer com que o usuário perca noções básicas de higiene e rompa suas relações de afeto. De acordo com a psiquiatra Marilda Gonçalves de Souza, do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Álcool e Drogas da Secretaria de Saúde de Rio Preto, a dependência gerada por qualquer tipo de droga faz com que o usuário se isole da sociedade. O que faz do crack um produto devastador é a instantaneidade que ele age no organismo.
“Uma pessoa pode ficar dependente do crack em dois ou três meses de uso. A dependência do álcool, por exemplo, pode levar de cinco a dez anos”, diz a médica. Segundo Marilda, há quatro tipos de dependentes. O primeiro experimenta a droga por curiosidade. O segundo é um usuário ocasional, que faz uso nos finais de semana. O terceiro caso é classificado como habitual, o que ocorre quando os vínculos sociais e familiares ainda não se romperam, apesar da droga. O quarto e último estágio é a dependência.

Instantâneo
O crack é um subproduto da cocaína, substância natural extraída da folha da coca, planta encontrada na América do Sul. Ele é obtido a partir da mistura da cocaína refinada e substâncias alcalinas, como o bicarbonato de sódio. O resultado é uma base pouco solúvel, que volatiza quando aquecida. O usuário inala o crack pela boca; em menos de dez segundos a droga já está no cérebro.
A partir daí, o crack provoca a liberação de dopamina, neurotransmissor que está ligado às sensações de prazer e de bem-estar. O sentimento de euforia dura cerca de cinto minutos (a cocaína dura entre 20 e 40 minutos). Com isso, o uso da droga se torna contínuo. A compulsão pelo uso ininterrupto da droga é chamada “fissura”.
“Isso faz com que a dependência se estabeleça mais rapidamente. Quando se estabelece a dependência, o usuário rompe suas relações com o mundo exterior” , diz Marilda. “Ele deixa a escola, o trabalho, a família e perde as relações de afeto. Ele só pensa na droga. Nada mais tem importância. Tudo o que ele conseguir será para obter o entorpecente.”
É nesse estágio que o dependente passa a praticar furtos e roubos para manter o vício. “O senso crítico fica completamente comprometido.” Quando está sem a droga, o usuário apresenta sinais de cansaço e depressão intensa. Por isso, eles aumentam a dose. No entanto, tal situação cria uma sensação de medo e pânico, o que pode deixar o viciado extremamente agressivo.

Tratamento
No Caps A/D, o crack é responsável por cerca de 20% dos atendimentos mensais. O programa trabalha com o usuário sem exigir a abstinência. “Nosso trabalho é feito sobre a ótica da redução de danos. O paciente precisa ser responsável pela escolha que fizer e aprender a conviver com a droga.”
Os atendimentos são gratuitos e direcionados tanto aos usuários como aos familiares. “A participação da família é essencial. Não adianta o usuário decidir parar, se recuperar, e voltar a viver em um ambiente desorganizado”, diz a psiquiatra. Além disso, os parentes ou pessoas mais próximas ao viciado também adoecem. O processo é chamado co-dependência.
Na região, há aproximadamente 490 vagas para tratamento de dependência química em casas de recuperação gratuitas e particulares. Quem não desejar a internação, pode procurar ajuda, além do Caps, no Ambulatório Santo Antônio de Pádua na Providência de Deus (Jardim Fuscaldo) ou em grupos de apoio como o Amor Exigente, Narcóticos Anônimos ou Pastoral da Sobriedade.
A foto de uma garotinha é uma das principais motivações para o garçom Junior, 24 anos, se livrar da dependência do crack. A imagem que ele guarda com carinho e orgulho na carteira é de sua filha de 4 anos, com quem se encontrou pouco durante os anos de vício. “Nada tinha importância para mim. Era casado, tinha família. Perdi minha esposa, minha mãe me pôs para fora de casa. O crack me arrasou”, diz ele, que há cinco meses está reaprendendo a viver no Centro de Recuperação Vida Nova, localizado em uma chácara em Potirendaba. No dia 18 de fevereiro, Junior finaliza o seu tratamento. “Quero passear bastante com a minha filha.”
O jovem começou seu caminho nas drogas como tantos outros adolescentes: experimentando maconha. “Um amigo me ofereceu, e, por curiosidade, aceitei.” Ele tinha 15 anos. Pouco mais de dois anos depois, fumou sua primeira pedra de crack. Daí em diante, a vida de Junior começou a adquirir contornos trágicos. “Tinha bons empregos, mas nada interessava.” Ele deixou a esposa e a filha e foi viver com a mãe. “Passei a furtar tudo o que tinha em casa, até ela me expulsar.”
Na rua, alimentava o vício com pequenos furtos. Quando a situação se complicava, corria para a casa da mãe. Lá ele se reencontrava, às vezes, com a filha. “Uma vez ela estava chorando de saudade, porque eu era um pai ausente. Chorei muito e prometi para ela que mudaria. Disse que eu estava me esforçando, mas não estava conseguindo.” Menos de três horas depois, ele já estava fumando crack. “Não me importava com mais nada.”
O convite para a recuperação veio por meio de uma vizinha que conhecia o trabalho desenvolvido pela casa, foi fundada pelo pastor evangélico Paulo César Grassi, ex-alcoólatra. O local sobrevive de doações. “Aqui aprendi sobre Jesus Cristo. E é só ele que pode me ajudar a estar sempre recuperado”, diz. Júnior engordou 25 quilos e reaprendeu a importância de amar e ser amado pela família. “O sorriso da minha mãe e da minha filha ao me verem bem, sem droga, foi o melhor momento da minha vida. Eu nasci de novo”, diz o garçom. Visitar a família faz parte do tratamento. “É por elas e por Jesus que consegui me reerguer.”
A força da fé e o amor pela família foram elementos fundamentais para a recuperação de Elizabete, 53 anos, nove deles consumidos pelo crack. Ela conheceu a droga aos 37 anos, quando morava em São Paulo. Enquanto o vício crescia, ela se afastava da família e da filha, que tinha 15 anos na época. “Nos separamos porque eu me afastei. A minha sorte é que minha família a apoiou. Tenho uma irmã psicóloga que deu suporte a ela. Caso contrário, ela poderia ter seguido o mesmo caminho que o meu.”
O crack tirou de Elizabete, além da confiança da filha, o emprego de estilista e a dignidade. “Não tinha moral. Era uma vida de humilhação.” O caminho de volta à vida foi trilhado no Lar Santa Catarina na Providência de Deus, em Jaci, que foi transferido para Santa Fé do Sul com o nome de Lar Madre Paulina. Elizabete ficou internada nove meses.
“No meu primeiro mês de sobriedade, não tinha coragem de conversar com a minha filha. Tinha culpa. Mas os programas de ressocialização foram nos aproximando e nos unimos novamente.” Hoje a relação das duas se recuperou. “Minha filha se casou e temos um ótimo relacionamento”, diz ela, que frequenta grupos de apoio e trabalha na Associação Lar São Francisco ajudando pessoas que passaram por problemas como ela.
Ajudar dependentes também é o sonho de Mateus Aparecido de Souza, 25 anos. Ele está no quarto mês de recuperação na casa Vida Nova, após viver cinco anos viciado em crack. Ele abandonou a mãe, morou na rua e foi até mesmo ameaçado de morte. A reabilitação veio com o apoio da mãe, a professora Rosimeire Silveira, 49 anos. Ela não se abalou com as críticas e preconceito de amigos e da própria família e, mesmo de longe, sempre lutou pela recuperação do filho.
Ela não esconde o orgulho de ver a recuperação de Mateus. Para completar a felicidade, só mesmo a volta do filho que está preso em decorrência da droga. “Era um menino inteligente, que conseguia ótimos empregos. Deixou tudo pelo crack.” O rapaz deve ser libertado ainda esse ano. “Para uma mãe, nada mais importa que a felicidade dos filhos.” Ela apoia Mateus na ideia de trabalhar com recuperação. “O vício é uma doença que precisa ser encarada de frente. Enquanto não houver incentivos para tratamento, não haverá melhora”, diz ela.

Lidando com eventos traumáticos

Friday, 15 January 2010

O National Institute of Mental Health (NIMH), órgão americano que investiga e lida com prevenção e tratamento de doenças mentais, divulgou hoje um vídeo sobre principais repercussões de eventos traumáticos como guerras e desastres naturais na saúde mental tanto de militares quanto da população civil.

O vídeo (em inglês) é baseado nas experiências do órgão especialmente nos últimos 8 anos, nos quais os Estados Unidos sofreram uma série de eventos catastróficos. O vídeo foca-se em áreas de pesquisa do NIMH em áreas de reações traumáticas ao estresse.



Existem vários tipos de resposta a uma crise. A maioria dos sobreviventes apresenta sentimentos e reações intensas, mas eventualmente recuperam-se. Outros apresentam maiores dificuldades na recuperação, especialmente se já sofreram outras experiências traumáticas, se sofrem de estresse prolongado ou se não dispõe de adequado suporte social ou familiar.

Entre os transtornos mentais comumente associados à resposta ao estresse, seja à violência ou a eventos traumáticos, podem ser citados a depressão, os transtornos de ansiedade e o transtorno de estresse pós-traumático.

Neve em Vila Real



A onda de frio na Europa continua e gostaria de agradecer à RAN (Recuperação de Alcoólicos e Narcóticos) em Vila Real por ter me enviado estas fotos da clínica coberta de neve, com belas vistas da cidade de Vila Real.

Abraços a todos!

Posted by Vanessa Marsden at 07:54 0 comments  

Taxa de suicído dos Kaiowá é a maior entre os índios

Acabei de ler a seguinte notícia no Yahoo Brasil:

ONU: taxa de suicídio dos Kaiowá é a maior entre índios

Qui, 14 Jan, 06h47

Relatório sobre as condições de vida dos povos indígenas divulgado hoje pela Organização das Nações Unidas (ONU) aponta os Kaiowá, de Mato Grosso do Sul, entre as comunidades nativas que nos últimos anos mais registraram suicídios em massa de jovens índios no planeta. O trabalho State of the World's Indigenous Peoples (Situação dos Povos Indígenas do Mundo) relaciona a ocorrência de mortes à luta dos cerca de 30 mil integrantes da comunidade contra fazendeiros e diz que "centenas" de índios já se mataram em 20 anos. O trabalho cita dados do Ministério da Saúde de 2000 a 2005, segundo os quais a taxa de Kaiowás que se suicidaram foi 19 vezes mais alta do que a média nacional, afetando desproporcionalmente adolescentes e jovens adultos.

"Isso acontece porque o lugar onde eles (os Kaiowá) vivem se transformou em anexo de uma cidade em franco desenvolvimento", disse o ativista indígena Marcos Terena, membro da Cátedra Indígena Itinerante e articulador do Comitê Intertribal - Memória e Ciência Indígena. "Os Kaiowá vivem uma situação que se tornou banal, todo dia tem índio 'matado' ou que se suicidou."

O ativista participou no Rio do lançamento mundial simultâneo do texto de 238 páginas, preparado por peritos do Fórum Permanente sobre Assuntos Indígenas da ONU e que revela ainda outros casos de altas taxas de suicídio indígena. Nos EUA, na faixa de 5 a 14 anos entre nativos americanos e do Alasca, ela é 2,6 vezes maior que a nacional, passando a 3,3 entre quem tem de 15 a 24 anos. No Canadá, as taxas de indígenas Inuit que se matam são 11 vezes maiores que a média total

Para entender melhor as causas do suicídio indígena, leia este post aqui.