Da irresponsabilidade do jornalismo científico

Friday, 29 January 2010

*Este post é especialmente dedicado ao colega da blogosfera William H Stutz, que escreveu um texto em seu blog e no Correio de Uberlândia há dois dias atrás reclamando de como jornalistas distorcem as palavras dos experts para criar manchetes sensacionalistas.

Hoje, ao ler meus blogs updates, como faço todas as manhãs, me deparei com um post em especial que acredito ser importante compartilhar com meus colegas de língua portuguesa. Há dois dias, como descrevi acima, um colega cientista descreveu seu momento com um jornalista que colocou em sua boca palavras que o fizeram parecer tolo perante seus colegas.

Pois, hoje eis que leio o post The British Media's "Blonde Moment" do blog Neuroskeptic. Nele, o autor escreve como há 10 dias atrás o Sunday Times (um respeitado jornal inglês) noticiou que, de acordo com um estudo da Universidade da California conduzido por Aaron Sell, mulheres loiras são mais agressivas e determinadas do que morenas e ruivas.

O autor do estudo negou que tenha dito tais coisas e no final das contas, o estudo não tinha nada a ver com loiras ou com cabelos! Embora queixas tenham sido feitas ao jornal, a notícia até hoje permanece e foi replicada em diversos meios.
A pesquisa original nada tinha a ver com cabelos, mas o jornalista responsável solicitou dados sobre assunto ao pesquisador, que muito graciosamente reanalizou seus dados. Ele não encontrou qualquer associação entre a cor do cabelo e personalidade mas o jornalista, mesmo assim, escreveu o artigo e ainda por cima criou frases que atribuiu a declarações de Sell. O que o pesquisador tinha postulado em seu artigo era que em homens, a força física (medida como capacidade de levantar pesos) está correlacionada à capacidade de sentir raiva e a sentimentos de que coisas lhes são devidas. E que tanto em homens quanto mulheres, a atratividade física percebida também se correlacionava com estes sentimentos.

O autor do post continua a sua exclamação diante do assunto ao debater que se este fato acontece com jornalistas políticos ou econômicos eles são demitidos na hora. Cientistas, entretanto, são presa fácil e os artigos que aparecem nos jornais sob os fascículos "Ciência" são de muito ruim qualidade.

Acredito que pelo menos, no futuro, com a força de ferramentas como os blogs e o twitter, "barrigadas" jornalisticas fiquem cada vez mais raras ou pelo menos que a população aprenda a dar menos importância às notícias sensacionalistas que lemos por aí.

Ah, só para concluir, lembrei-me de uma manchete que não é bem do assunto, mas de certa forma cabe nesta discussão. Um dos assuntos mais debatidos da semana foi a proibição da Sibutramina (uma substância anorexígena) na Europa. Como não poderia deixar de ser, as sub-lebridades aproveitam qualquer notícia para colocar seu nome na mídia e me deparei com o seguinte verbete:

Em seu Twitter, Preta Gil alerta contra os efeitos da sibutramina, proibida na Europa
Ao saber que a venda de medicamentos a base de sibutramina foi proibida na Europa, nesta segunda-feira, 25, Preta Gil usou sua página de Twitter para alertar quanto aos perigos oferecidos pelo remédio para emagrecer mais usado no Brasil e nos Estados Unidos.

“Olha a sibutramina aí! Eu já tomei esse veneno e conheço muita gente que toma. Garanto que é horrível. Me senti muito mal quando tomei. CUIDADO!!!”, escreveu ela, no microblog. “A sibutramina te dá uma euforia temporária, depois, a maior angústia. Você até perde a fome, mas fica deprimida, agressiva. É uóooo!”, completou a cantora.
Com sinceridade e a autoestima de sempre, Preta ainda aproveitou para valorizar suas próprias curvas. “Eu mesma tomei um tempo, emagreci. Fiquei com 56kg e infeliz. Hoje, peso 82 e sou muitooo feliz!!!! E se quiser emagrecer é só eu parar de comer bobagem e tomar vergonha na cara e ir me exercitar!!”, finalizou.

Para começar a sibutramina não foi proibida por ser um "veneno" ou por sérios efeitos colaterais. Foi proibida temporariamente para adaptação das referências à acelaração dos batimentos cardíacos (que podem ser grave em pessoas que sofrem de hipertensão ou arritmia). A sibutramina não causa "agressividade" e na verdade só deveria ser receitada a quem tem indicação, não esta festa que ocorre no Brasil (lembro-me de ler no twitter diversas pessoas escrevendo que após as regalias do Natal e Ano Novo, só sibutramina em Janeiro e Fevereiro).

Bom senso não vende jornal!

Para ler os textos mencionados na íntegra, pode-se clicar nos links acima. Para o artigo científico, a referência está abaixo.
ResearchBlogging.org

Sell, A., Tooby, J., & Cosmides, L. (2009). From the Cover: Formidability and the logic of human anger Proceedings of the National Academy of Sciences, 106 (35), 15073-15078 DOI: 10.1073/pnas.0904312106

Posted by Vanessa Marsden at 06:57  

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