Notícias em psiquiatria

Tuesday, 23 February 2010

A vida por um fio

Desde os 12 anos, Fernanda do Valle sofria de distúrbios alimentares. Aos 30, foi diagnosticada com anorexia, doença que estava tirando sua saúde. Depois de duas internações, ela resolveu escrever um livro no qual relata a saga pessoal e familiar rumo à sobrevivência

Veículo: Correio Braziliense
Seção: Saúde
Data: 19/02/2010

Bonita, jovem, bem-sucedida, carismática, extrovertida e prestes a se casar, Fernanda do Valle tinha tudo para ser considerada uma mulher feliz. Assim, pelo menos, parecia às pessoas que cercavam a turismóloga carioca. Ninguém, porém, sabia que ela guardava um segredo. Desde os 12 anos, era vítima de transtornos alimentares e, somente aos 30, recebeu o diagnóstico definitivo: Fernanda tinha anorexia(1).

A luta contra a doença teve início em março de 2008, incluiu duas internações, vigilância de enfermeiras 24 horas por dia, ganho e perda de peso, vontade de vencer, vontade de desistir, muitas sessões de terapia... e vai durar pelo resto da vida. “É como o alcoólatra, você tem de continuar o tratamento sempre”, contou Fernanda ao Correio. Na primeira vez em que ficou internada, ela resolveu escrever um diário. O texto cresceu, ganhou mais capítulos. Ela resolveu tirar o cadeado do caderninho e transformar sua história particular em um livro (leia trechos nesta página). “É uma forma de ajudar as outras pessoas a entenderem o problema. Tanto as que sofrem de anorexia quanto as pessoas próximas. Muita gente não compreende, e mesmo sabendo que é uma doença, acha que é frescura”, diz.

Fernanda deixou o trabalho no ramo de turismo para se dedicar às palestras e encaminhamentos médicos que faz — em Campinas (SP), onde mora, muita gente a procura, atrás de ajuda. “É um absurdo o Brasil ter tão pouca gente especializada. Existem médicos, mas o tratamento de transtorno alimentar exige um acompanhamento multidisciplinar. Aqui em Campinas, por exemplo, não tem”, reclama a escritora que, ontem, pouco depois da entrevista, viajou para a capital paulista, com o objetivo de encaminhar outra vítima de anorexia ao Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (Ambulim), para o qual Fernanda doou os direitos autorais do livro.

Em Eu, ele e a enfermeira... na luta contra a anorexia, da Clio Editora, ela relata a dificuldade de se sentir gorda, mesmo se sabendo magra, a incompreensão social, a importância do apoio da família. O título é uma referência à segunda internação de Fernanda, depois do casamento. Com o marido, Vicente, ela passou a ser acompanhada por duas enfermeiras que vigiavam sua conduta. Para quem pensa que a anorexia é pura frescura, o texto mostra que a doença é tão grave quanto a dependência química. Em vez de drogas, porém, a vítima se vicia na perda de peso e, dificilmente, conseguirá viver sem uma intervenção médica.

Desculpa

Desde a pré-adolescência, Fernanda sofria de distúrbios alimentares. Passou da compulsão a chocolates ao uso de laxantes, além de exagerar nos exercícios físicos. Mas foi aos 30 anos que um diagnóstico errado de hipoglicemia desencadeou a maior crise de anorexia que jamais tinha enfrentado. Depois de se consultar com um nutrólogo, ela teve de cortar todos os carboidratos, as gorduras e os doces da dieta. Na época, tinha um peso normal: 54kg para 1,64m. Seguindo a recomendação do profissional, perdeu 9kg em apenas quatro meses. Era somente o início da crise, que iria fazê-la chegar a um índice de massa corporal 15 , sendo que a recomendação da Organização Mundial de Saúde é mantê-lo entre 18,5 e 25.

Para Fernanda, a dieta prescrita pelo nutrólogo serviu como desculpa para que, inconscientemente, ela pudesse perder peso à vontade, sem sentir que, na verdade, estava doente. A cada semana, era 1kg a menos na balança. As pessoas começaram a comentar. Em uma viagem ao Chile, o noivo fez várias fotos dela, na esperança de que, ao ver os retratos, Fernanda ficasse consciente da própria magreza. “Na época, eu olhava e achava lindo. Hoje, acho horrível e penso como posso ter chegado àquele ponto. Eu parecia um ratinho de laboratório”, diz.

Preocupada ao ver a filha definhando, a mãe de Fernanda a levou numa clínica geral. Queria saber uma segunda opinião sobre a dieta da hipoglicemia. Descartando o regime do nutrólogo, a médica foi enfática: a paciente estava anoréxica, com quadros bulímicos por causa dos laxantes. Os resultados dos exames de Fernanda foram um alerta. Ela estava carente de nutrientes e, a cada cinco dias, precisava tomar soro. A internação era inevitável. Mãe de um menino que na época tinha 7 anos, Fernanda sabia que poderia morrer. Hospitalizada no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, resolveu relatar, dia a dia, seus esforços pela recuperação.

Em 28 de abril de 2008, faltando 45 dias para seu casamento, Fernanda foi internada, às 14h. Soube pelo psiquiatra que o tratamento não teria prazo para terminar. Na clínica, ela se deparou com situações ainda piores. Viu garotas alimentadas por sonda porque se recusavam a comer. O pior é que algumas delas tinham orgulho de exibir o tubo de alimentação. Era uma prova de quem “é mais anoréxica”. Mesmo na época, Fernanda achou a situação estranha. No diário, anotou: “É triste, mas isso acontece”. Uma das internas que conheceu tinha como sonho chegar a 29kg. O caderno foi testemunha dos conflitos passados pela turismóloga — desde o nojo pela comida ao medo de não conseguir se recuperar.

Retrocesso

Em pouco menos de um mês, ela recebeu alta. A história, porém, mal havia começado. Depois de voltar da lua de mel passada na Europa, Fernanda se consultou. Ela tinha perdido muito peso e estava quase igual ao dia em que se internou. Ganhou do psiquiatra mais uma chance de se cuidar sozinha — e desperdiçou. Em vez de engordar 500g por semana, como o combinado, emagrecia. Mais uma viagem surgiu e Fernanda, novamente, voltou mais magra.

O psiquiatra deu um ultimato: ou engordava, ou voltava para a clínica. Como alternativa, disse que Fernanda poderia passar pela internação domiciliar. Isso significa que a recém-casada teria de ser acompanhada 24 horas por uma equipe de enfermagem. Mesmo sabendo da necessidade de se cuidar, ela só se convenceu depois de desmaiar na rua, ao sofrer um choque.

Fernanda e o marido mudaram-se para São Paulo e alugaram um flat ao lado da clínica. Em todos os programas eram acompanhados pela enfermeira. “Coitado do meu marido. Casou-se comigo e ganhou de brinde a enfermeira”, escreveu. Além do tratamento psiquiátrico, ela fazia terapia três vezes por semana. Foram vários momentos de desespero, mas também de muito autoconhecimento. A internação foi interrompida para uma viagem do casal a Nova York, mesmo sob protestos do psiquiatra. Na volta, Fernanda, finalmente, ficou feliz ao se pesar: tinha engordado 600g.

A luta da turismóloga não acabou. Ela sabe que terá de continuar o tratamento, mas, depois de quase morrer, ver o sofrimento da família, do marido e conviver com mulheres cujo sonho de consumo era pesar menos de 30kg, Fernanda tem certeza de que venceu a batalha. “Minha visão mudou. Não abro mão de uma vida saudável e livre. Se hoje preciso ser escrava de alguma coisa, quero ser escrava da verdadeira felicidade.”

1 - Padrões de beleza

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a anorexia é uma das doenças que mais cresce entre as mulheres. Estima-se que 1% da população sofra do problema, e os padrões de beleza cada vez mais enxutos são apontados como responsáveis pelo aumento do distúrbio entre jovens. Entre os males causados pela doença, estão depressão, insuficiência renal aguda, atrofia muscular e morte



"Eu, ele e a enfermeira... na luta contra a anorexia" está a venda em várias livrarias com preço médio de R$29,00.





Foto: http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Marieclaire/foto/0,,33365909,00.jpg




10 mitos sobre saúde mental no trabalho


Quando um empregador pensa em contratar alguém que tenha transtornos mentais, ou mesmo se mantém um empregado diagnosticado com algum problema, uma série de questões passam pela sua cabeça (a maioria sem fundamento ou casos similares para se basear)

Veículo: Expresso MT
Seção: Variedades
Data: 18/02/2010

Abaixo algumas das questões mais comuns colhidas entre empresários e chefias na Inglaterra podem ajudar os patrões a se convencerem que contratar ou manter empregados com transtornos mentais não são sinônimos de problemas no ambiente de trabalho:

1. Transtornos mentais são problemas raros e que acontecem com poucas pessoas. Ninguém no meu trabalho, por exemplo, sofre com algum tipo de problema com sua saúde mental.
R.: Não tão raros: 1 em cada 5 pessoas é afetada pela depressão, ansiedade ou outro transtorno mental com algum nível clínico.

2. Pessoas com transtornos mentais severos não são capazes de trabalhar.
R.: Não necessariamente. Só porque alguém foi diagnosticado com algum tipo de transtorno, como esquizofrenia, isso não significa que ela é incapaz de trabalhar. A maioria das pessoas diagnosticadas com transtornos mentais continuam, ou voltam, a trabalhar.

3. Trabalhar piora o quadro de alguém com transtornos mentais
R.: Na verdade pode ocorrer o inverso: pessoas que deixam de trabalhar podem ter uma piora na saúde e no bem-estar.
O trabalho, em geral, é bom para a saúde e seus benefícios se estendem igualmente para pessoas com ou sem algum tipo de transtorno mental, incluindo aqueles que sofrem de transtornos severos.
Entretanto, locais de trabalho estressantes, que não promovem a saúde do funcionário, podem piorar a saúde mental de todos. Por isso é importantíssimo que os patrões façam com que o ambiente de trabalho seja um lugar agradável, proporcione conforto e seja um lugar onde os benefícios do bem-estar contribuam positivamente para o empregado.


4. Contratar alguém com transtorno mental não é viável e mesmo que ocorra não há certezas que vai dar certo trabalhar com alguém assim.
R.: Diversas pesquisas feitas na Europa dizem exatamente o inverso. A grande maioria das empresas que contrataram funcionários, mesmo sabendo que eles sofriam de algum transtorno mental, nunca se arrependeram. É o que afirma um estudo amplo da Royal College of Psychiatrists, na Inglaterra, em 2008.
Aliás, se for considerado o dado anterior de que 1 em cada 5 pessoas sofre de algum transtorno mental, é provável que a maioria das empresas já contrataram pessoas com esse tipo de problema e nem mesmo notaram qualquer diferença na produção.


5. Alguém que admita que já sofreu com algum tipo de transtorno mental com certeza ficará doente e faltará mais ao trabalho no futuro.
R.: Apesar de algumas pessoas realmente precisarem se ausentar por algum tempo para tratar de um problema relacionado à transtornos mentais, isso não é regra geral.
A maioria desses indivíduos continua a trabalhar sem nunca precisar se ausentar, e os que se ausentam retornam ao trabalho após um período pequeno.
E isso é válido inclusive para casos de esquizofrenia e depressão profunda. Mais de 70% dos casos totais de trabalhadores com transtornos mentais se recuperam completamente, de acordo com dados da Sociedade Britânica de Psicologia.
Há exceções, claro, como em toda situação que envolva saúde de uma maneira geral.

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