O equilibrista não é louco?

Thursday, 25 February 2010

Mais um blog em psiquiatria digno de nota. Tenho acompanhado a pouco tempo o blog Psiquiatria e Sociedade, de Daniel Martins de Barros, médico psiquiatra do Instituto de Psiquiatria (IPq) de Hospital das Clíncas da USP. Seu último post é muito divertido e não tenho como não compartilhá-lo (pode ser lido no original aqui). Não vi o documentário, mas está na minha lista. Como estou ficando meio pesada e minha última experiência no cinema não foi das melhores (Avatar é muito comprido para quem está grávida) adicionei o documentário à minha crescente lista de reservas na locadora.

Assistir ao documentário O equilibrista (Man on wire), que ganhou Oscar de melhor documentário em 2009 me levou a uma série de reflexões: até onde se pode ir na busca de um sonho, como são borrados os limites entre a autonomia do sujeito e a proteção do Estado, qual a força da amizade, como avaliar a beleza de uma conquista. De todas, gostaria de aprofundar-me brevemente em uma, tema central desse blog: o desafio da psiquiatria para diferenciar os loucos dos doentes mentais. Explico.


No senso comum, qualquer pessoa que aja de forma diferente da norma é anormal. Mas a minoria é doente. Como Philippe Petit, equilibrista que andou por quase uma hora entre as torres gêmeas num cabo preso clandestinamente por sua equipe. “Esse cara é louco”, pensamos ao ver sua proeza. Tanto assim que, logo após ser detido, foi imediatamente levado aonde? A um psiquiatra. Divertidíssimo vê-lo contando que o médico lhe perguntava se ele havia bebido. “Você está louco?” redarguia Petit “Você sabe o quê eu acabei de fazer? Como me pergunta se eu bebi?”. De fato, se alguém pretende se equilibrar num cabo a quase meio quilômetro do chão, a última coisa que deve fazer é beber.

No final das contas o médico sensatamente dá alta ao “nefelibata” (aquele que anda nas nuvens), não tendo diagnosticado qualquer transtorno mental. Mesmo ele sendo “doido”.

Penso, enfim, que a maior dificuldade não é diferenciar os loucos dos doentes. Tecnicamente isso não é assim tão complicado na maioria das vezes. O difícil mesmo é, feita essa distinção, explicar para a sociedade que, apesar de ser anormais, algumas pessoas não são doentes. Afinal, a gente está sempre em busca de uma causa para os comportamentos excêntricos. Mas como disse o próprio Petit, nem sempre temos as razões: “Não tem um porquê, essa é a beleza da coisa”.

Outra recomendação veio da colega do blog "Esqueci a Ana", sobre o documentário "Esboços de Frank Gehry".

Fotos: http://temavercomigo.files.wordpress.com/2009/04/man-on-wire.jpg
http://i.thisislondon.co.uk/i/pix/2007/06/frankgehry_243x337.jpg

Posted by Vanessa Marsden at 08:57  

1 comments:

Muitissimo interessante. Discutir estas questões este estado de "estar na contramão do mundo" (li num blogue que acompanho a propósito de um livro) é mesmo importante.
Fui ver o blogue do texto original e irei voltar (apesar de me parecer que não tem a opção de comentários)
Quanto ao documentário vou tentar obtê-lo.
(obrigada Vanessa pela referência, já rectifiquei e actualizei o post inicial)

ex ana said...
25 February 2010 at 12:22  

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