Pedofilia corporativa

Wednesday, 17 February 2010

Para os que acompanham meu blog, já havia manifestado meu descontentamento com a forma com que uma starlet de 10 anos é apresentada na mídia. Seu nome é Noah Cyrus, irmã da atriz que fazia a Hanna Montana, Miley Cirus. A criança (sim, criança) costuma ser apresentada pelos seus pais em vestidos curtíssimos, meia-calça arrastão, botas sadomasoquistas e batom vermelho. O rostinho infantil e o peito liso ficam ridículos em um traje tão sexualizado. Entretanto, para milhres de crianças americanas, a menina é um ícone de estilo e agora, junto de outra criança, lançaram uma marca de lingerie e roupas eróticas para crianças (!!!) denominada Ooh La! La!

As roupinhas na maioria são vestidos ultra curtos, no estilo prostituta,  com estampas tigradas ou pretas. Mesmo que não se vá tão longe, os pais e mães que lêem este texto deixariam suas filhas de 5 anos andando por aí de saltos altos e batom vermelho como a pequena Suri Cruise?
Suri Cruise



Infelizmente este não é apenas um fenômeno americano. Na Inglaterra diversas mães protestaram devido ao crescente número de roupas que apresentam conteúdo sexual destinadas a crianças (inclusive bebês) nas lojas e supermercados. As crianças tem sido empurradas sem limites para o mundo adulto sexualizado cada vez mais cedo. Entre os produtos facilmente disponíves no mercado inglês estão  microshorts justos, jaquetas metalizadas, estilo motoqueiro para meninas de 4 anos e sandálias de salto com pedrinhas estilo diamante para as de 3 anos de idade. Uma loja de roupas infantis tem uma marca específica para este estilo, cujo nome Tainted (sujo, danificado) já diz tudo. No Brasil, com sua cultura de carnaval e bailes funk, não é preciso ir muito longe para ver meninas com tops e shorts de lycra que desfilam na periferia a rebolar as inexistentes curvas. No país do Carnaval, até uma menina de 7 anos pode ser Rainha de Bateria de escola de samba, uma posição que sempre foi ligada à sexualidade de modelos de corpos esculturais.

Recentemente, um relatório solicitado pelo Australian Institute criou um termo para esta sexualização comercial das crianças: Pedofilia corporativa (corporate paedophilia). Emma Rush, uma das investigadoras envolvidas no relatório escreveu que "imagens de crianças sexualizadas estão a se tornar cada vez mais comuns em propagandas e material de marketing (...) Crianças de até 12 anos, especialmente meninas, são vestidas, maquiadas e posam da mesma forma que jovens e sexy modelos".
Muitos podem pensar que estas roupas são inofensivas e que estes comentários são conservadores, mas há crescente evidência que sugere o contrário. Justine Roberts, responsável por um site destinado a conselhos a mães, acredita que as roupas e brinquedos sensuais para crianças as "introduz ao mundo da sexualidade adulta e as pressiona e encoraja a tornarem-se sexualmente ativas em tenra idade. (...) A impressão que se passa às meninas é que a qualidade mais importante que se possa ter é ser sexy e que a sexualidade feminina diz respeito à dar prazer a outros, encorajando uma cultura na qual as crianças são vistas como disponíveis sexualmente."

A American Psychological Association publicou diversos estudos que ligam a sexualização precoce à transtornos alimentares, baixa auto-estima e depressão em garotas. A associação também relata ter encontrado evidências de sexualização em todas as mídias e que os efeitos na sociedade são catastróficos e incluem aumento no sexismo/machismo, taxas aumentadas de violência e assédio sexual e aumento da demanda por pornografia infantil.

Em 2008, Girlguiding UK em associação com Mental Health Foundation publicou um relatório sobre a sexualização precoce de meninas. A organização pesquisou meninas entre 10 e 14 anos e os resultados evidenciaram que muitas experimentavam "estresse, ansiedade e infelicidade" como resultado de terem sido forçadas a crescer muito rápido. As meninas sentiam-se pressionadas a vestir roupas que as faziam parecer mais velhas e se não o fizessem estavam a mercê dos bullies.

No final das contas, cabe aos pais escolher o que seus filhos vão vestir e como vão crescer. Se uma marca de roupas insiste em vender roupas de prostitutas para bebês, cabe aos pais não comprá-las. Se existe este mercado, o mais triste de tudo, é porque existe demanda e estes pais expõem seus filhos a toda uma miríade de males tardios.

Em uma nota pessoal, acredito que a exploração da pequena Julia Lira, que foi madrinha de bateria na Viradouro neste Carnaval 2010 foi um absurdo. No mundo todo os jornais repercutiram a polêmica.. A exibição desta criança em um papel destinado a ninfas sexuais não fez nada para melhorar a imagem do Brasil no que tange à exploração sexual de crianças e adolescentes. Mesmo com o caso sendo debatido no Juizado de Menores (que estava a estudar se aprovaria ou não a participação da criança), o desfile foi a frente mas a pequena Julia desfilou por apenas 7 minutos. A pressão das câmeras de tv e do público foi demais e ela foi retirada do sambódromo a chorar.

A imagem do país e de suas mulheres no exterior é escandalosa. Em diversas partes de Portugal, brasileira é sinônimo de prostituta. Não adianta o país querer ser parte do Conselho de Segurança da ONU e sentar na mesa dos adultos nas relações diplomáticas se em uma semana em fevereiro consegue desmerecer todo o esforço para melhorar sua imagem. A exploração de mulheres e crianças brasileiras no Norte e Nordeste Brasileiro (e também no Rio de Janeiro) está institucionalizada e todos os anos milhares de turistas compram pacotes turísticos sexuais para conhecer as "maravilhas do Brasil". Lembro-me de que quando visitei Fortaleza pela primeira vez fiquei chocada ao ver meninas de 12 anos, ainda sem mamas de mãos dadas com turistas do norte europeu na casa dos 35 dentro de uma das discotecas mais famosas da cidade. A pedofilia corporativa está institucionalizada no Brasil há anos, nas agências de turismo. Já passa da hora de se fazer algo a respeito.

Fotos: http://www.dailymail.co.uk/femail/article-1249538/From-worried-mother-passionate-arms--Its-time-stop-fashion-industry-dressing-girls-like-this.html
http://www.timesonline.co.uk/multimedia/archive/00684/JULIA_PIXEL_SIZE_18_684893a.JPG

1 comments:

Que absurdo! Nem há palavras, isto é tão revoltante que deixa qualquer pessoa num estado de choque e sem conseguir sequer raciocinar. Dei por mim a olhar para os pés destas pequenas e a pensar "mas aqueles saltos vão lhes fazer tão mal, não podem usar já saltos altos, é um absurdo" isto para não pensar no resto dos problemas todos que vão ter no futuro e já devem com certeza estar a ter é absolutamente inacreditável. A minha mente bloqueou nos saltos.

Exahmia said...
17 February 2010 at 10:00  

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