Pelofobia

Saturday, 27 February 2010

Artigo da Revista Época de 24/02/2010 Texto original e foto podem ser conferidos aqui.
Pelofobia
As mulheres não se permitem mais pelos em lugar nenhum do corpo. Por quê?

Ivan Martins
É editor-executivo de ÉPOCA

Em primeiro lugar, me desculpem pela ausência da semana passada. Eu fui viajar no Carnaval, voltei na tarde de quarta-feira (17) e não consegui escrever a coluna em tempo. Quem esperava ler e não leu tem direito de ficar chateado.
A parte boa da ausência é que durante a semana sem escrever eu me dei conta de um assunto óbvio, importante, que está ao nosso redor o tempo todo e que me deixa meio indignado – e sobre o qual nunca tinha me ocorrido escrever.
Estou falando de pelos. De depilação. Da forma meio amalucada como as mulheres brasileiras parecem se relacionar com esse aspecto da anatomia delas.
Conto uma história: dias atrás, escolhíamos aqui na revista uma foto para ilustrar a reportagem sobre as mulheres que se deixam fotografar nuas por alguma causa nobre ou pelo simples prazer de exibir seus corpos diante das lentes.
Uma das possibilidades era ilustrar a reportagem com a imagem de uma mulher jovem, meio gordinha, de rosto bonito e seios grandes, fotografada pelo americano Matt Blum para o Nude Project – uma coletânea mundial de nus de mulheres anônimas, normais, sem maquiagem ou correção digital. Vejam o site e vocês irão entender. É bonito.
Bem, a moça estava fotografada da cintura para a cima, com uma das mãos atrás da cabeça, e embaixo do seu braço esquerdo se via... um delicado tufinho de pelos.
Vocês não imaginam a confusão que aquilo causou. Exceto por mim e pelo editor de fotografia – o André Sarmento – todos ao redor achavam a foto impublicável. Abominável, na verdade.

As mulheres, minhas colegas de trabalho, não se continham: “Vai publicar isso, que nojo”; “Olha esses pelos, parece sujeira, não pode colocar uma foto dessas na revista”; “Vocês estão loucos de dar uma coisa dessas. Que mau gosto”... E por aí foi.

Final da história: André e eu fomos voto vencido e a foto não saiu.

Como uma espécie de vingança – e parte do argumento – ofereço a imagem para que vocês mesmo julguem:
Não sei qual é a opinião de vocês, mas eu tenho a minha: pelos, no Brasil, viraram motivo de histeria.
Na minha geração, que se tornou adolescente nos anos 70, as pessoas já gostavam de pernas lisas e de axilas desfrutáveis – mas hoje em dia vigora uma verdadeira pelofobia.
As mulheres não se permitem mais ter pelos em lugar nenhum, em quantidade alguma. Das sobrancelhas ao períneo, tudo tem que estar liso como vidro, deserto como a superfície da Lua – sem as crateras, de preferência.
Quanto tempo se passou desde que a Vera Fischer posou nua exibindo uma versão louro-acastanhada da floresta amazônica? Quantos anos transcorreram desde que pelinhos para fora do biquíni deixaram de ser a coisa mais sensual que se podia ver em Ipanema? Foi ontem que eu vi Julia Roberts aparecer numa cerimônia publica com pelos nas axilas?

Julia Roberts, aliás, me lembra o mundo externo ao Brasil, onde as coisas não são como aqui.
As mulheres europeias – bonitas, sensuais, interessantes – não seguem o código da pele estéril.


Antes de sair a passear, numa noite de verão, elas depilam as axilas para se exibirem num vestido sem mangas. Mas essas mesmas mulheres, em outras circunstâncias, não hesitam em levar um homem para casa por causa de alguns pelos no corpo. Sobretudo aqueles pelos que os homens gostam (ou gostavam...) de descobrir.
Claro, me dizem, é cultural. As mulheres no Brasil gostam de andar sem pelos. Mas seria assim tão simples? Eu não acho.
Acredito que essas estéticas “perfeccionistas” (meu termo favorito é onanistas) têm sido impostas às mulheres brasileiras – e de uma forma muito pouco sutil.

Por causa das revistas de mulheres peladas, por causa de fotos das artistas de TV e do cinema – todas profissionais do corpo, não esqueçam – as mulheres normais foram sendo pressionadas, nos últimos 10 ou 20 anos, a cuidarem do próprio corpo como trabalhassem em boate.
Acho, inclusive, que essa última onda depilatória radical – que as próprias mulheres afirmam ser dolorosa, degradante, cara e terrivelmente trabalhosa – decorre recentemente da popularização dos filmes pornôs.


Em que outras circunstâncias se encontram mulheres totalmente preparadas para a micro-exploração minuciosa e impiedosa das câmeras?

Essa não é uma estética normal e nem muito menos lógica, mas assim é tratada quando se tenta discutir os assunto com as próprias mulheres e com os homens mais jovens, educados esteticamente pelos filmes da Sasha Gray.
Mas quem diz que um púbis sem pelos é mais bonito que um púbis com pelos? Quem diz que um tufo de pelos em baixo do braço é “nojento”? De onde veio essa ojeriza?
Para mim, isso tudo parece uma deformação, um exagero, uma burca ao inverso que as garotas assumem (ou vestem) como se fosse a coisa mais natural do mundo.
A lavagem cerebral está completa quando a exigência deixa de ser imposta de fora (pelos homens, pela moda ou por quem quer que seja) e passa a ser uma demanda interior das próprias mulheres, que já não se imaginam ou se toleram de outra forma que não seja ultradepiladas. Então passam a policiar as outras, transmitindo “a doença” de uma forma epidêmica.
Se algumas delas está fora do padrão vai ser olhada de lado não apenas pelos homens (supostos beneficiários finais da coqueteria feminina), mas sobretudo pelas próprias mulheres, as fiscais mais exigentes do corpo e do comportamento umas das outras.
O resultado disso é uma onda crescente de insegurança íntima: será que eu estou depilada o suficiente, ou pintada o suficiente, ou magra o suficiente, ou bronzeada o suficiente, ou durinha o suficiente para provocar o desejo dos homens e a aprovação das outras mulheres?

Parece um pesadelo, e é.

Ao falar sobre isso, uma amiga me disse que abomina essa coisa dolorosa da “depilação íntima” e que adora a estética triangular dos pelos pubianos, mas que a cada dia se sente mais sozinha na sua delicada convicção. Está virando um dinossauro – ou seria um mamute, peludo e extinto? – num mundo de coquetes histéricas.
E não se trata só de pelos. Uma das minhas colegas de trabalho que faz parte da geração mais atingida por essa onda de perfeição (a das mulheres que ainda não fizeram 30 anos) me contou que uma ex-chefe a achava relapsa por não fazer as unhas toda semana...

Por comparação, acho que vale a pena olhar para o que acontece no mundo masculino.

Há uns tantos homens que estão raspando o peito, fazendo a sobrancelha e depilando a barba – além de se submeterem a sessões cada vez mais longas de musculação, em busca do corpo perfeito. Muitos chegam a fazer plásticas.

Mas essa não é a lógica dominante.

Os homens, na sua absoluta maioria, continuam peludos, barrigudos, carecas, barbados e fora de forma.
Somos feios, somos baixinhos, somos magrelos, somos gordos. E assim somos aceitos. E assim somos amados. E assim vivemos: sem nos submetermos à tirania do gosto alheio, sem termos feito uma única sessão de depilação.
Há algo a ser aprendido com essa diferença, não?


(Ivan Martins escreve às quartas-feiras.)

Posted by Vanessa Marsden at 05:34  

7 comments:

Que mania de estar sempre a criticar tudo, bom o texto está muito engraçado é um facto. Mas não vejo qual é o problema das mulheres não gostarem de pêlos. E já agora como mulher europeia e que viaja pela Europa e conhece outras mulheres europeias deixa me dizer que isso de que as europeias se permitem ter pêlos é mentira, odiamos pêlos tanto ou mais que as brasileiras e a depilação brasileira e americana, e o laser e luz pulsada aqui é bem usada e cada vez mais barata. Isso é um mito absurdo mas super normal, por exemplo, as portugueses acham que as francesas não se depilam, por sua vez as francesas acham que nós portuguesas é que não nos depilamos, é mentira, tanto nós como as francesas nos depilamos. Posso afirmar que num grupo de 10 mulheres haverá talvez 1 que não faz depilação total na linha do bikini(ou quase) de hoje em dia é muito raro uma mulher não fazer depilação. Quanto ás pernas e axilas já é faz parte do senso comum pêlos não.
Não é uma "coisa" exclusiva das mulheres brasileiras e não é um problema, pq fazer disso um problema?

Exahmia said...
27 February 2010 at 07:37  

Cara Exahmia

Tambem nao acho que haja problema tanto para quem quer se depilar completamente quanto para quem prefere deixar ao natural. A escolha 'e de cada uma. O que nao 'e desejavel ou normal 'e o excesso, a ojeriza, como o autor cita, seja de um lado ou de outro. Incrivel os estereotipos sobre a questao. Ja ha muito ouco falar das francesas, das inglesas, das portuguesas, das brasileiras, etc... Um amigo dizia "toda generalizacao 'e burra" e concordo com ele. Somos completamente 'unicos e individuais nas nossas escolhas. Gostei da foto e do texto, porque trazem algumas consideracoes que nao vemos tanto: uma mulher nua que foge dos padroes de beleza atuais e um texto que de certa forma questiona os valores de que a depilacao 'e uma lei nao escrita. Questionando situacoes ja embutidas no inconsciente popular dissecamos seus porques para melhor entendimento dos nossos valores e atitudes. Dai o texto estar no blog. Voce se depila porque gosta ou porque se sente obrigada?
Percebes?

Mais uma vez obrigada pela participacao!

Vanessa Marsden said...
27 February 2010 at 08:41  

Sim claro que entendi, eu achei o texto muito inteligente e engraçado.

Quanto a foto acho que é de certa forma arrojada e até bonita mas completamente fora dos padrões estéticos que eu considero belos.

Eu respeito e aceito o "gosto dos outros" e não acho que os gostos se possam discutir ou lamentar, acho que é cada um é que sabe.

Mas quando disse "mania de criticar tudo" referia me ao facto de que hoje parece que está tudo completamente fora do controlo as pessoas perderam o bom senso ou deixaram de o ter, seremos assim tão sem o que fazer? Por amor de Deus ter a oportunidade de ser jornalista, ter voz e chegar á tanta gente e falar de coisas importantes e perder tempo a discutir meia dúzia de pêlos de baixo de um braço? Não há o que discutir, basta dizer "minha querida se você se sente bem com isso força". Publicavam a foto e assunto resolvido, a gordinha com pêlos tem o direito de sair na revista, eu não gosto mas com certeza há quem goste, o respeito é a base de tudo meus caros.

Citando o meu querido Oscar Wilde

"São só os intelectualmente desorientados que discutem."

E isto poupava muito tempo :)

Exahmia said...
27 February 2010 at 09:27  

Gostei do texto o que não quer dizer que concorde com ele. Questiona os padrões e o que é a 'normalidade' para mulheres e também para homens o que acho bom.
Tudo o que seja não nos meter em caixinhas ou gavetas estanques acho bom. Por isso tb discordo de mulheres brasileiras vs europeias etc...
Pelos, tatuagens, piercings, maquilhagem, coloração, silicone, transformar as pálpebras dos olhos asiáticos, etc são extensões ou componentes do corpo (enfeites, acessórios, o que se queira chamar) que definem a nossa individualidade. Por isso devem ser opções não imposições externas de um qualquer negócio. Quanto à imagem balzaquiana e a lembrar um quadro do Rubens (nas versões com e sem pelos) não a tenho como ideal de beleza, mas também não me agride. De forma alguma. Acho até que já que a nudez é uma coisa que entra cada vez mais no nosso quotidiano seria óptimo que ela fosse acompanha da salutar diversidade mais ou menos pilosa.
ps-lembro que numa prova de atletismo a corredora portuguesa Rosa Mota ao cortar a meta exibia umas axilas bem pilosas o que foi motivo de comentários muito negativos em especial de mulheres.
Mas tudo se compra e tudo se vende se há quem os tire também há quem os coloque implante (por exemplo pelos no peito nos homens). Resumindo: é de livre vontade? ficam mais felizes?
Sim há coisas mais importantes a discutir. Mas chamar a atenção para a não imposição de uma "norma" (estabelecida por quem? com que direito?), neste caso uma "norma estética" é saudável.
Nota: fiquei curiosa em relação ao site.

ex ana said...
27 February 2010 at 10:22  

Achei o texto muito bom e não considero uma discussão fútil. Não se trata da aparente questão de "sem pelos/com pelos", mas de processos maiores por trás disso: de como as pessoas se submetem à regras meticulosamente criadas para favorecer grupos dominantes - o sistema capitalista, num plano maior - (e as assimilam como se fossem próprias, o que é pior)sem nem se darem conta disso. E isto perpassa não só a área de beleza e estética... Se discussões como essa não fossem abertas, a inconsciência de muitos seria perpétua.

28 February 2010 at 06:26  

Gostei de ver como este texto causou polêmica. Parece um assunto tão banal e tão automático hoje em dia, ir depilar-se. O autor conseguiu mesmo mexer com os processos de todas nós e ao analisarmos estas atitudes robóticas nos conhecemos um pouquinho melhor. Como dizia Sócrates, "Conhece-te a ti mesmo"!

Vanessa Marsden said...
3 March 2010 at 08:27  

Boa tarde a todos! Eu sou homem e digo desde já que não me faz diferença uma mulher ter pêlos, acho que para gostar de alguém não é preciso ver a quantidade de pêlos que a pessoa tem no corpo! Não acho que este tema deva servir de polémica, é um tema bastante aberto e concordo que existe uma diversidade muito grande relativamente às ideias que cada mulher tem, não é por ser brasileira ou francesa que pensam da mesma maneira, aliás a globalização tem tendência a acabar com isso visto que existe uma multiculturização em todos os países!

Anonymous said...
24 January 2012 at 08:39  

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