Sexualidade Precoce

Friday, 26 February 2010

A sexualização precoce da infância parece finalmente ter começado a ser debatida na mídia. Como é época de eleições na Inglaterra, os dois principais partidos (Labour e Tory) têm trazido diversas propostas para reduzir a exposição de crianças a imagens sexuais. A BBC traz hoje um debate e reportagem sobre o assunto, que podem ser conferidos no link abaixo, que contém o texto e dois vídeos com entrevistas (em inglês):

Children 'over-exposed to sexual imagery' (com vídeo)
Media blamed for 'sexualisation' of young girls (com vídeo)
'The whole of society is hyper-sexualized' (audio)
Children absorbing message to be 'sexy' (audio)

Uma amiga me indicou este texto abaixo da revista digital Outras Palavras (pode ser lido no original no link). Achei que o texto tem tudo a ver com uma linha que tenho seguido de alerta sobre tendências comportamentais. A transcrição segue abaixo.

Sexualidade Precoce

Mariana Alves dos Santos


T- Olha tia o que eu escrevi – falou-me uma garotinha de 9 anos com um papel em suas mãos. Ao pega-lo vi que era um verso, para minha surpresa nada infantil.


“Te amo muitíssimo
Te amo como quiser
Me jogue na cama
E me faça mulher.”


Lembrei que nessa idade não pensava muito nessas coisas, o que queria era curtir as brincadeiras.
Infância precoce é um fenômeno cada vez mais preocupante para pais, médicos e sociólogos. Em um tempo não muito distante, a sexualidade era tratada como um assunto proibido e constrangedor. Porém, atualmente o quadro é outro: a sexualidade é abordada de forma ampla pela sociedade, mas muitas vezes banalizada pelos meios de comunicação.

Debate


Treze meninas e oito meninos, de 7 a 10 anos. Foram dois grupos com os quais me reuni para conversar sobre sexualidade. No dia do nosso encontro as crianças estavam todas ansiosas. Falamos sobre seus maiores sonhos e o futuro. Natália Lima Barreto, 9 anos, confessou que queria ser famosa: “ Deve ser muito legal ser celebridade, dar autógrafos...” , assim ela e mais duas amiguinhas começaram a fantasiar o possível sucesso.

Luana Maia, 9, Verônica Bernardino, 10, e Heloísa Vilela, 8, já têm o pé no chão. Sonham em ter profissões convencionais e não acham o mundo dos famosos tão glamuroso assim. Acreditam que viver expostas na mídia traz perda de liberdade.
As meninas demonstraram ser mais reservadas, já os meninos tiveram menos vergonha para contar alguns segredos.
- Eu gosto de ver o canal da Playboy - disse um deles com um sorriso maroto.
- E a sua mãe sabe disso?- perguntei a ele
- Não. Eu me tranco no meu quarto e ela nem vê.
Os outros garotos começaram a rir. Mudei de assunto.
- Vocês querem fazer o que da vida?
- Quero ser policial, para dar tiro, andar depressa com o carro e não ser multado- disse o mesmo que gosta do canal erótico.
- Você acha que o policial só faz isso?
- É – disse ele seguramente.
Diferente do colega, Bruno Bueno Lenzi, 8 anos, revela :
- Quero ser veterinário pra cuidar dos animaizinhos.
Bruno não é o único que prefere uma vida mais tranqüila. Éric Raise disse que não quer namorar agora, porque sabe que é criança, e seus pais lhe ensinaram que as crianças não devem namorar, mas sim brincar. A maioria beijou na boca.
Durante a conversa, percebi que meninas e meninos sentem falta de conversar com a família. As crianças reclamam que seus pais e mães trabalham demais e nem sempre têm tempo para ouvi-los. Quando estão junto dos filhos não podem ou não dão atenção a eles.
A ausência dos pais, em alguns casos, os leva, por exemplo, à televisão como companhia. As crianças dos dois grupos vêem TV no mínimo 4 horas por dia, não só desenhos animados e programas direcionados às suas idades, como também novelas, programas voltados para adolescentes. Todos adoram a MTV.
A socióloga Sônia Dezute, formada pela Fundação Santo André, lecionou diversas disciplinas em escolas do Ensino Fundamental e Médio e faz palestras sobre sexualidade infantil. Para ela, não existem crianças precoces, os filhos apenas reproduzem o que vêem e tem dentro de casa.
O problema do limite que os pais devem estabelecer é um dos maiores dramas. “Impor limites é totalmente raro”, diz a socióloga. Para ela há um certo desleixo dos pais, que infelizmente nem notam comportamentos precoces, e sugere: “Trocar a TV por bons livros seria um começo”.
Segundo pesquisas da organização Mídia Ativa, não há como controlar o acesso das crianças e adolescentes aos conteúdos impróprios. Cada programa tem uma faixa etária determinada, mas se a criança vê a culpa não é da TV e sim de quem permitiu que ela visse o programa.
A TV por si só não influencia esses comportamentos nada infantis, mas sim um conjunto de fatores, abrangendo a família, a escola, amigos, a sociedade de uma maneira geral.

Fotos: http://farm3.static.flickr.com/2125/2547301979_51cc07bf82.jpg

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