Como transformar crianças em bandidos

Tuesday, 9 March 2010

Daniel Martins de Barros, autor do blog Psiquiatria e Sociedade é coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense do IPq. Ele entende de psicopatia, sendo seu trabalho diário e escreveu o livro "O que é Psiquiatria Forense", (ed. Brasiliense). O caro colega acabou de me indicar que já havia escrito algo sobre a "formação" de um psicopata em seu blog, o qual recomendo a leitura.

O texto original pode ser conferido neste link. A transcrição vai abaixo:

Como transformar crianças em bandidos



Postado por Daniel Martins de Barros


Chocante o vídeo do sequestrador Rafael de Borba, que o mostra conversando com seu filho e sua sobrinha, como se os ensinasse a roubar. "Cadê meu dinheiro, boneca!", diz ele para que a sobrinha repita, logo antes de mostrar-lhe como dar coronhadas na boneca com o revólver de plástico que ela empunha.

O choque, acredito, vem do contraste entre o conteúdo aversivo e a aparente frivolidade de Borba, tranquilamente deitado numa rede como se estivesse sendo filmado num churrasco em família.

Tanto a palavra ética (do grego, ethos) como a palavra moral (do latim, mores) têm seus significados originalmente ligados a "costumes": a forma como as coisas são, os hábitos de uma comunidade. Com o tempo seu sentido evoluiu de descrever os usos e costumes para referir-se ao que é certo, qual a boa conduta; afinal, definir o certo, o correto - o bom, enfim - apoia-se em grande parte naquilo que é feito e aceito pela maioria.
 E isso é o mais aterrorizante nas imagens: a atitude descontraída do pai mostra que menos do que ensinando as crianças a roubar, ele estava estava em família, brincando como qualquer pai e tio fazem; e também ali o conteúdo das brincadeiras infantis, como soe acontecer, é uma simulação do mundo adulto vivenciado pelas crianças. O horror é perceber que o crime, a violência, o desrespeito pela integridade física do próximo são o mundo daquelas (e de quantas mais?) crianças.
Esse menino e essa menina estão condenados a serem bandidos? Não. Se se tornarem criminosos, poderão alegar que não tinham alternativas? Também não. Mas é com tristeza e uma ponta de desespero que somos confrontados com o fato de que, no final das contas, aquele comportamento, para eles, é ético, pois em seu contexto é assim que "as coisas são".

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