Não perderás seu tempo em fofocas e bate-papo

Friday, 5 March 2010

A Bíblia, em Provérbios (provavelmente escrito entre os séculos 10 e 5 A.C.) já alertava:
"Aquele que vigia a sua boca e a sua língua preserva a sua alma das angústias" (Pr 21,23) e também "Na abundância de palavras não falha em haver transgressão, mas aquele que mantém seus lábios sob vigilância age discretamente" (Pr 10,19).

Os gregos também se preocupavam com o conteúdo das conversas em geral. Nos textos de Hesiodo (que escreveu um épico grego entre 7 ou 8 A.C.), encontra-se:
"Faça como eu digo e fique longe de pessoas fofoqueiras. Pois Pheme (deusa do rumor) é má por natureza, ela é leve para se levantar, oh, muito leve; mas pesada para carregar e difícil de se colocar no chão novamente. Pheme nunca desaparece completamente quando muitos falam dela. De fato, ela é um tipo de deusa.

Agora, um estudo recentemente publicado também toma para si preocupar-se com o conteúdo de nossas conversas diárias. É de conhecimento geral que conversas à toa (bate-papo) e fofocas parecem ser lubrificantes sociais mas parece que conversas mais profundas e intelectualizadas podem deixar as pessoas mais felizes.

O estudo publicado na revista Psychological Science de fevereiro de 2010 (texto completo aqui, referência completa abaixo) analisa justamente o tipo de conversa e níveis de felicidade. Embora os autores reconheçam a função social do bate-papo, eles encontraram que discussões de conteúdo parecem conectar melhor as pessoas. Mathias Mehl e colaboradores colocaram escutas em 79 estudantes universitários (homens e mulheres) que periodicamente gravavam partes de suas conversações enquanto os mesmos seguiam suas atividades diárias rotineiras. A cada 12 minutos a escuta gravava por 30 segundos. Ao final de 4 dias os pesquisadores possuíam 23 mil gravações (média de 300 por participante).

Os pesquisadores então classificaram as gravações em bate-papo ou discussões de conteúdo:
"Bate papo foi definido como conversação banal, sem envolvimento (ou seja, apenas troca de informação trivial; ex. "O que é isso? Pipoca? Yummy!"). Uma discussão de conteúdo foi definida como envolvendo uma conversação de natureza substancial (ou seja, troca de informação relevante; ex. "Ela se apaixonou pelo seu pai?  E entao, eles se divorciaram depois disso?").

Para avaliar o bem-estar dos participantes, os pesquisadores empregaram por duas vezes (em um intervalo de 3 semanas) a Satisfaction With Life Scale (Diener, Emmons, Larsen, & Griffin, 1985),  uma escala simples de medida da felicidade ("Eu me vejo como alguém feliz, satisfeito com a vida") e o inventório de personalidade Big Five Inventory (John & Srivastava, 1999)


Os participantes com melhores níveis de bem-estar eram os que ficavam menos tempo sozinhos e por mais tempo a falar com outros (passaram 25% menos tempo sozinhos e 70% mais tempo falando). Os "mais felizes" também apresentaram quase duas vezes mais discussões de conteúdos do que os outros participantes. Os autores concluem que uma vida feliz é societal ao invés de solitária e de conteúdo, ao invés de superficial e citam Sócrates ("Uma vida não avaliada não é uma vida digna de ser vivida").

O estudo, entretanto, não prova causa e efeito. Não se sabe se pessoas mais felizes se isolam menos e acham mais fácil se envolver em discussões de conteúdo ou se conversar assuntos mais profundos pode fazer com que as pessoas se sintam mais realizadas. Entretanto, segundo os autores, os resultados "trazem a interessante possibilidade de que níveis de felicidade possam ser aumentados ao se facilitar conversas de substância".

Os resultados, na verdade, não são tão surpreendentes. Não é necessário discutir física quântica e a teoria dos "buracos de minhoca" (wormholes) para se atingir o nirvana da felicidade. Conversas de conteúdo podem ser desenvolvidas ao se demonstrar interesse genuíno por determinado assunto. Mesmo que este seja trivial, a conversa que se desenvolve pode abordar questões profundas. Em terapia sabe-se que a falta de socialização e de conversas de conteúdo, seja entre casais ou entre membros da família é grande causa de ruptura de laços. Vários casais, que atingem um platô no qual o casamento parece desandar, referem que a falta de "algo em comum" para se discutir é uma das causas de separação/divórcio. Após a falta desse "algo em comum", o segundo passo para a ruptura de laços é só se discutir assuntos triviais ("Como foi seu dia?" 'Bom' (longa pausa)... "O meu também foi bom").

E para se iniciar conversas de conteúdo? Como fazer? Os autores não entram no mérito da questão. Mas o bom senso indica: desligue sua televisão, e esqueça o Big Brother Brasil. Leia jornais e revistas para ter uma pauta de assuntos atualizada (fica mais fácil iniciar conversas como "você viu o que aconteceu no Chile? O que pensas dos últimos terremotos/o que pensas dos serviços de ajuda humanitária?"). Socialize! E evite cair nas armadilhas do bate-papo simples, das fofocas, e de mexer a boca e a língua apenas para ter algo o que fazer.

Referências:

ResearchBlogging.org
Mehl, M., Vazire, S., Holleran, S., & Clark, C. (2010). Eavesdropping on Happiness: Well-Being Is Related to Having Less Small Talk and More Substantive Conversations Psychological Science DOI: 10.1177/0956797610362675

Pheme. http://www.theoi.com/Daimon/Pheme.html

Cartoons:
Small Talk do webcomic xkcd (recomendo a visita regular para uma boa dose de humor) http://xkcd.com/222/
http://channelate.com/comics/2008-02-23-mens-room.jpg

Posted by Vanessa Marsden at 21:57  

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