Aspectos psiquiátricos do cuidado de pacientes terminais (cuidados paliativos) II
Friday, 16 April 2010
Diagnósticos psiquiátricos – Prevalência, etiologia e como reconhecê-los, parte II (parte I aqui)
Delírium
Assim, não é de se estranhar que pacientes terminais, cujos órgãos e sistemas estão a falir lentamente, apresentem prevalência elevada deste quadro. Segundo Erkinjutti (1986) 9% dos pacientes maiores de 55 anos no momento da admissão no hospital geral apresentam demência e 41% apresentam delírium. Além disso, cerca de 85% dos pacientes terminais apresentam o quadro.
Os fatores de risco específicos para a ocorrência do delírium incluem:
- Idosos
- Pacientes no pós-operatório
- Pacientes com câncer
- Pacientes com AIDS
- Fatores etiológicos
- Problemas metabólicos
- Efeito colateral dos medicamentos
- Anóxia (privação de oxigênio)
- Abstinência de drogas
- Infecções
O delírium pode ser classificado em (Lipowski, 1990):
- Hiperativo (agitação, excitabilidade, distúrbios do comportamento - amedrontado ou agressivo, paranóia, alucinações)
- Hipoactivo (depressão aparente, sedação, sonolência, introspecção, paciente quieto)
- Misto
Geralmente o delírium apresenta um início súbito e tem causas orgânicas (médicas ao invés de psiquiátricas) e é um quadro típico de distúrbio da consciência, humor e percepção. Existem alguns instrumentos que podem ajudar no diagnóstico do quadro como as escalas Delirium Rating Scale (Trzepacz et al, 2001) e Confusion Assessment Method.
Ajustamento
Pânico e ansiedade
- Ansiedade antecipatória à quimioterapia
- Dor incontrolável
- Tumores secretores de hormônios e tumores que produzem ACTH (carcinoma de pulmão, por exemplo)
- Estados de abstinência
- Secundários a esteróides, broncodilatadores e estimulantes beta-adrenérgicos
Pacientes demenciados são clientes comuns de hospitais gerais e de enfermarias de cuidados paliativos. Estes pacientes apresentam seus próprios desafios no cuidado em geral, criando:
- Problemas na comunicação, impedindo consentimento verdadeiramente informado
- Problemas para apreciação do sucesso das estratégias (ex. tratamento da dor) por parte dos médicos
- Alta vulnerabilidade ao delirium
- Distúrbios do comportamento
Manejo físico
Otimizar cuidado
Otimizar hidratação e nutrição
Corrigir deficiências vitamínicas e de eletrólitos
Considerar desordens endócrinas como causa
Considerar outras rotas de administração
Usar tão poucos medicamentos quanto possível
Manejo psicológico
Pacientes e cuidadores geralmente ficam aliviados ao serem esclarecidos de que os sintomas psiquiátricos podem ser uma complicação da doença de base (demência). Isto é importante, especialmente no caso de cuidadores de pacientes com delirium, que ficam bastante angustiados por o paciente tornar-se aparentemente “louco”.
ECT
Embora o público em geral tenha muitos preconceitos contra a eletroconvulsoterapia (ECT), ela tem seu lugar nos cuidados paliativos, sendo indicada em pacientes agitados, psicóticos e com sintomas graves de depressão, podendo melhorar o humor de forma mais rápida e com menos efeitos colaterais. Entre as contraindicações do procedimento encontram-se fraturas ósseas patológicas, tumor cerebral primário ou secundário se o paciente já estiver a apresentar crises convulsivas.
Manejo social e ambiental
Ajudar o paciente a organizar seus papéis e resolver conflitos
Ministros, padres, sacerdotes, pastores da religião do paciente podem dar apoio, se esta for a vontade deste
Manejo ambiental:
Número adequado de enfermeiros para garantir a segurança necessária
Ambiente seguro, quieto e que ajude na orientação do doente
Relativos devem fazer visitas breves mas regulares
Psicofarmacologia
Embora muitos quadros de agitação possam ser resolvidos com medidas ambientais descritas acima, manejo adequado da doença de base ou com mudanças nos medicamentos e hidratação, muitas vezes há necessidade de se utilizar medicamentos psiquiátricos específicos:
Antipsicóticos
Alguns são utilizados por seus efeitos antieméticos - reduzem náuseas e vômitos (clorpromazina, levomepromazina, prochlorperazina e metoclopramida). A principal indicação nestes pacientes é a redução da intensidade e duração dos sintomas de delirium atuando em delirium hipo e hiperativo(Breitbant, 1996). O haloperidol continua a ser o gold standart já que causa a maior contenção química possível, dentro da menor sedação, em doses geralmente não maiores do que 2mg/dia. Os atípicos apresentam eficácia comparável, mas sem vantagens significativas. 10-20% dos pacientes com delirium são arresponsivos a intervenções com neurolépticos. O controle só pode ser obtido, nestes casos, com sedação e redução do nível de consciência.Em geral, duas estratégias são mais utilizadas:
• Midazolam
• Propofol IV. O propofol é mais vantajoso nestes casos pois permite o controle do nível de sedação de forma mais fácil e a recuperação é mais rápida.
Psicoestimulantes
Dextroanfetamina (ao café-da-manhã e almoço, 25mg em doses crescentes de forma contínua no curso de dias), metilfenidato, pemolina.
São alternativas para o tratamento da depressão nos doentes terminais (Burns e Eisendrath, 1994) já que apresentam ação mais rápida que antidepressivos (AD). Os psicoestimulantes estão especialmente indicados nos pacientes mais próximos da morte, para os quais a ECT é contra-indicada e os AD demorariam muito a fazer efeito. Como os pacientes são terminais e o tratamento é previsto para não mais que um ano, não há problemas de abuso. Os psicoestimulantes devem ser prescritos com cuidado aos pacientes cardíacos e hipertensos e podem causar insônia, confusão, ansiedade e paranoia.
Opiáceos
Opiáceos são narcóticos, extremamente eficazes no tratamento da dor e pedra base do tratamento paliativo. Entretanto, podem causar depressão respiratória, mas na realidade a tolerância a este efeito ocorre rapidamente, sedação, constipação, confusão, e anormalidades perceptuais.
Corticosteróides
Utilizados como adjuvantes aos analgésicos
Agentes antinflamatórios potentes
Estimulam apetite, reduzem náusea e mal estar
Diminuem os efeitos de pressão em lesões intraespinais e intracranianas
25% dos pacientes experienciam alterações do humor: Se euforia leve, não há necessidade de tratamento. Se ocorrerem sérias alterações do humor deve-se parar o medicamento, reduzir a dose ou trocas para doses equivalentes: dexametasona por prednisolona e vice-versa
Processos psicodinâmicos e psicológicos do cuidado de doentes terminais
Elizabeth Kubler-Ross: Os cinco Estágios de Luto
- Negação e choque
- Raiva
- Barganha
- Depressão
- Aceitação
No momento da avaliação psiquiátrica, os mecanismos de defesa mais comuns no paciente, na equipe e nos cuidadores vistos no momento da avaliação psiquiátrica são:
- Negação "Tudo vai ficar bem. Eu sei que posso vencer esta doença”
- Intelectualização “Nós devemos analisar todos os problemas para se chegar às causas desta anemia” - o médico ou o doente preocupam-se com aspectos materiais da doença e detalhes ao invés de focar no fato de que o mesmo está morrendo
- Racionalização "É claro que ele está com depressão, ele está morrendo” - e a consulta psiquátrica não é solicitada...
- Deslocamento - O indivíduo fica furioso com a equipe sem qualquer motivo, porque não pode ficar furioso com a injustiça de ter um câncer
- Projeção “Você não serve para nada. Vocês psiquiatras/psicólogos não conseguem curar nada”
Crenças religiosas e espirituais
Devem SEMPRE ser permitidas dentro de uma enfermaria de cuidados paliativos pois trazem conforto ao doente e à família
Cuidado da família
Familiares de doentes terminais apresentam maior risco de doenças psiquiátricas e suicídio (tanto antes quanto depois da morte do paciente). Muitas vezes o psiquiatra é chamado para conversar com os familiares e não com o doente:
Avaliação de risco
Educação e suporte por parte da equipe clínica em contato direto com familiares
Consultas adequadas para membros da família com problemas psiquiátricos
Fotos:
http://www.station.lu/images/divers/Arbeiten%20in%20Luxemburg/palliative_care_station_small.jpg
http://www.scumdoctor.com/images/Adjustment-Disorder-Due-To-Hearing-Loss.jpg
http://www.scientificamerican.com/media/inline/blog/Image/Religion_cancer.jpg
Referências:
Erkinjuntti, T. (1986). Dementia among medical inpatients. Evaluation of 2000 consecutive admissions Archives of Internal Medicine, 146 (10), 1923-1926 DOI: 10.1001/archinte.146.10.1923
Lipowski ZJ (1990). Organic mental disorders and DSM-IV. The American journal of psychiatry, 147 (7) PMID: 2356880
Derogatis, L. (1983). The prevalence of psychiatric disorders among cancer patients JAMA: The Journal of the American Medical Association, 249 (6), 751-757 DOI: 10.1001/jama.249.6.751
Burns MM, & Eisendrath SJ (1994). Dextroamphetamine treatment for depression in terminally ill patients. Psychosomatics, 35 (1), 80-3 PMID: 8134533
Labels: Alzheimer Parkinson e outras demências, delirium e outros transtornos orgânicos, psicogeriatria ou gerontopsiquiatria, psiquiatria e medicina interna, transtornos de ansiedade
4 comments:
Caro Thiago
Obrigada pelo puxão de orelhas, realmente tens razão ao questionar o que escrevi. Numa tentativa de explicar melhor o que são "causas orgânicas" já que muitos leigos também acessam o blog eu incorri em um erro que também vivo a criticar!
Durante as aulas do mestrado tive uma aula bastante interessante sobre a antropologia da morte, dada por um psicólogo especialista em psico-oncologia. Vou procurar o material que tenho e elaborar um post sobre o assunto no futuro.
Vanessa, muito bom teu post. Vou inclusive repassá-lo a meus alunos de psiquiatria. Sobre a questão da morte, tomo a liberdade de te mandar este link de uma breve reflexão que publiquei. http://tinyurl.com/36xd5fm
Em relação à ressalva feita pelo Thiago, é um problema q não tem solução fácil, e que remonta à velha dicotomia cartesiana entre espírito e corpo. Afinal, o que é psicogênico não deixa de ter seu substrato orgânico, e múltiplas interações com predisposições e outros fatores "biológicos".
Aproveito pra agradecer teus retweets.
Obrigada pelo link e pela participacao! Quando eu escrever algo sobre a antropologia da morte vou cita-lo tbm pois 'e muito pertinente.
Abracos!







Bela abordagem Vanessa!
Esse é um tema em q nos, estudantes e medicos, somos muito carentes de conhecimento! o tema "morte" deveria ser amplamente debatido mas é facilmente evitado! resultado disso é o imediato pensamento nos profissionais: "e agora q q eu faço? q q eu falo?" além da frustração de ter "perdido" o paciente, um sentimento constantemente mal elaborado.
Queria discutir com vc sobre a definição etiologica de delirium em q vc diz ter "causas orgânicas (médicas ao invés de psiquiátricas)" ...hmmm então as causas psiquiatricas não são médicas? assim eu fico pensando q psiquiatra não é médico! rsrs
talvez fosse melhor dizer causas organicas ao inves de psicogenicas?
essa eh uma afirmação mt comum entre os psiquiatras! talvez a minha visão de estudante n me permita ver a necessidade de se criar uma certa dicotomia "medico X psiquiatra" mas de fato eh algo q me deixa com a pulga atras da orelha! rsrs
otimo texto vanessa!
um grande abraço!