As Neuroses (parte 2) - Histeria
Tuesday, 31 August 2010
Este post continua a história e psicopatologia das neuroses, iniciada aqui.
Formas clássicas
Histeria de conversão - substituição de um conflito por expressividade somática
Histeria de dissociação
Crianças somatizam normalmente e com frequência, também convertem mas raramente dissociam.
Histeria (segundo conceitos clássicos) utiliza o mecanismo de defesa recalcamento. As fobias utilizam evitamento (antigamente chamada de Histeria de angústia) e deslocamento.
No transtorno obsessivo compulsivo (TOC) o componente ansioso é menos marcante. Nestes pacientes nota-se um afeto depressivo enquanto que o afeto básico da histeria e das fobias é a angústia.
Existem dois afetos básicos: ansiedade/angústia e depressivo. Estes afetos são normais nos indivíduos. Todos temos mecanismos destes dois afetos. O primeiro é desencadeato por estresse e o segundo por perdas significativas.
O termo histeria designa:
- doença (categoria das neuroses)
- personalidade: O indivíduo histérico tem insight e juízo crítico preservados. Os sintomas são egodistônicos. Este grupo de sintomas preserva o insight, enquanto que os egossintônicos prejudicam o juízo ( o paciente aceita como dele os delírios).
Nos borderline e antissocial predomina o mecanismo "acting out": predomínio da periculosidade e ausência de culpa. Nos fóbicos o que predomina é a inibição. A personalidade que mais facilmente passa ao ato é a histérica (explosões histéricas: gritar, falar alto, etc.) - estrutura (pertencente ao registro da neurose) Estrutura histérica é algo além da personalidade, com maior tendência à doença.
- discurso (ex, maiêutica socrática) - há uma dissociação entre o conteúde e a forma de falar
Hipócrates
histerus (útero)
Teoria etiológica (migração do útero através do corpo) com noções de insatisfação sexual e de crise
Idade média
histéricas apelidadas de bruxas ou imbuídas de fervor religioso
Século XVI
surgem concepções "orgânicas" da histeria: "doença do espírito", dos "nervos" ou afecção "vaporosa"
Século XIX
estatuto de doença com reconhecimento de fenômenos psicológicos
Briquet (1859) defende a sede da doença no cérebro, contrapondo-se a Pinel (1813) que defendia o útero como ponto de partida da doença.
Charcot (1825-1893) atribui à histeria o estatuto de doença. Babinski nota que o quadro pode ser produzido por sugestão.
Janet, o "pai da psicologia clínica", a partir de 1893 considera a histeria como doença
Freud (1893) desenvolve a ideia de causalidade inconsciente e sexual dos sintomas histéricos.
Semiologia
A definição de histeria nunca foi dada e nunca o sera. Os sintomas não são suficientemente constantes nem suficientemente semelhantes na forma, suficientemente iguais em termos de duração e de intensidade para qualquer um tipo, ainda que descritivo, possa compreender todas as variedades. (Lasigue)
A histeria é um quadro de semiologia múltipla, variável num mesmo indivíduo e os sintomas são funcionais e reversíveis.
Tipos de apresentação
- alteração da motricidade e do tônus
- alterações sensitivas
- alterações neurovegetativas
Crise clássica ou "grande ataque" em 5 fases: aura, epileptóide, contorções, transe e terminal.
Movimentos anormais (tremores paroxísticos, movimentos de expressão coréica)
Soluços, tosses espasmódicas, "nó na garganta"
pseudoparalisias - "bélle indifference"
contraturas
astenia ou fraqueza muscular
Perturbações sensitivas
anestesias, hipoestesias, hiperestesias que não respeitam sistematizações neurológicas (em luva ou meia)
alterações da visão
Perturbações neurovegetativas
espasmos
alterações em todos os aparelhos: gravidez histérica, palpitações, vômitos, perturbações tróficas (estigmas)
Sintomatologia psíquica (dissociação - F44 da CID10)
repentina e transitórica
amnésia
fuga psicogênica
estados crepusculares
sonambulismo
personalidade múltipla
despersonalização
Os sintomas têm um caráter espetacular e são apresentados de forma dramática (pode existir bélle indifférence). O sintoma é sensível à sugestão (presença de espectadores reforça ou modifica o sintoma - plasticidade do indivíduo histérico e labilidade do sintoma). O sintoma está inscrito numa relação, podendo assumir um valor de sedução, manipulação ou refúgio.
Foto: http://jessicadoyle.com/2006/06/08/female-hysteria-aids-that-every-woman-appreciates/
http://www.counselor.org/dissociative-disorders.html
Labels: neurose, psicodinâmica e psicanálise, psicopatologia
Princípios da supervisão em psiquiatria
Thursday, 26 August 2010
Definições e princípios da supervisão
Supervisão clínica e educacional: processo formal de aprendizado e suporte profissioinal que permine ao indivíduo desenvolver conhecimento, competências e a assumir responsabilidade.
Supervisão clínica – supervisão ativa do trabalho clínico diário, garantindo que as decisões clínicas são seguras e apropriadas.
Supervisão educacional – o treino e a menção do trabalho do residente são o focus. Pode envolver casos clínicos como base da demonstração e aprendizado.
Objetivos da supervisão
• Identificar soluções para problemas clínicos
• Melhorar o standard
• Aprimorar o entendimento de problemas profissionais
• Aprimoramento da prática clínica do interno/residente
• Desenvolver habilidades e conhecimento
Responsabilidades do supervisor
• Agir como um mentor
• Estabelecer objetivos de aprendizado e monitorizá-los
• Dar feedback construtivo
• Estar envolvido na avaliação do residente/interno
Como estabelecer uma supervisão adequada – 1 hora de sessão de supervisão todas as semanas
• 10 minutos para revisar problemas levantados em sessões prévias para avaliar se melhorias foram implementadas
• 40 minutos para levantar problemas e assuntos a serem discutidos
• 10 minutos para resumir e anotar pontos principais da sessão
Conteúdo da sessão de supervisão
• Manejo clínico
• Experiência de ensino do residente/interno
• Experiência com pesquisa/investigação clínica
• Necessidades, gerência e atenção ao residente/interno
Princípios do feedback
Propósito – permitir que o residente/interno tenha insight sobre seu progresso e comparar o que era esperado dele e o resultado atingido realmente
Princípios gerais
Ende, 1983
• Supervisor e interno/residente devem trabalhar como aliados em direção a objetivos comuns
• O feedback deve ser planejado e esperado
• O feedback deve ser dado dentro da estrutura da sessão de supervisão
• O feedback deve ser sobre comportamentos específicos e observáveis, não performance em geral
• O feedback deve ser dado em uma linguagem descritiva e sem julgamentos
• O feedback deve ser limitado a decisões ou atos observáveis
Heirson & Little, 1998
• Clima amistoso, de respeito mútuo e de mente aberta
• Deve-se provocar o pensamento e sentimentos antes de ser dado
• Sem julgamentos
• Focar-se me comportamentos
• Fatos observáveis
• Sugerir ideias para melhorar a performance
• Basear o feedback em objetivos negociáveis e claramente definidos
Modelos de feedback
Regras de Pendleton
• O supervisor brevemente clarifica o assunto do dia
• O residente/interno fala primeiro e discute o que foi bem sucedido
• O supervisor discute o que foi bem sucedido em seu ponto de vista
• O residente/interno descreve o que poderia ter sido feito de forma diferente e propõe sugestões para mudança
• O supervisor faz o mesmo
Problemas : formato estricto, bons pontos versus maus pontos e o residente/interno pode ficar defensivo
Modelo Calgary-Cambridge
• A sessão inicia-se com a discussão da agenda do residente/interno
• O resultado que o residente busca atingir é discutido
• O residente passa a auto-avaliação e resolução de problemas ao dizer como a tarefa foi desenvolvida
• O supervisor dá feedback dentro do princípio SET-GO ( vide abaixo)
• O supervisor resume as habilidades necessárias para atingir o objetivo
Princípio SET-GO
• O que vi (SAW) – o supervisor descreve o que viu
• O que mais você notou (what ELSE) – o residente faz o mesmo
• O que você pensa sobre o assunto (THINK) – o supervisor reflete sobre o assunto
• Quais objetivos a se atingir (GOALS)
• OFERTAS (sugestões) sobre como atingir os objetivos
Feedback verbal
Sempre sobre comportamentos específicos e observáveis, deve evitar julgamentos em comentários ou linguagem
Benefícios do feedback
Promove a competência (Rolle & McPherson, 1995) e ajuda a promover o aprendizado
Cartoon: http://alchemist.excessivelydangerousthing.com/webcomic.pl?comic=16
Medicamentos não licenciados – quando e como prescrevê-los
Tuesday, 24 August 2010
Medicamentos não licenciados (off label ou unlicensed) são medicamentos prescritos fora de sua indicação. Nos EUA e no Reino Unido os medicamentos são mais regulados que no Brasil e em Portugal. A prescrição de medicamentos desta forma é bastante comum, mesmo nestes países e em psiquiatria seu uso chega a 31%. Nos países de língua portuguesa, pode-se dizer que a prática diz respeito à prescrição de um fármaco para uma condição que não é seu alvo inicial. Por exemplo, a muitos pacientes é prescrita a carbamazepina, um antiepilético, para estabilização do humor na doença bipolar.
Como prescrever medicamentos não licenciados?
Deve-se sempre INFORMAR O PACIENTE adequadamente sobre o medicamento proposto e o porquê do seu uso. O médico deve esclarecer sobre as alternativas licenciadas existentes e o porquê de não prescrevê-las. Em qualquer prescrição deve-se explicar os potenciais efeitos colaterais e interações medicamentosas. Especificamente no caso dos medicamentos não licenciados, é prática na Europa obter o consentimento informado do paciente e certificar-se de que tudo esteja muito bem documentado.
No Reino Unido, por exemplo, o General Medical Council (GMC) exije os seguintes requerimentos para a prescrição off label
• Estar satisfeito de que as alternativas não atendem às necessidades do paciente
• Estar satisfeito de que existe evidência suficiente para embasar o uso do off label e estar seguro de sua segurança e eficácia
• Assumir responsabilidade pela prescrição – monitorar e follow up adequados
• Escrever detalhadamente a necessidade da prescrição e as razões que levaram à escolha do medicamento
• O medicamento deve servir às necessidades do paciente melhor do que os licenciados
• Deve haver evidência suficiente para sua prescrição
Lembre-se, se não tem certeza de que o medicamento é licenciado para sua condição, converse com seu médico para melhores esclarecimentos
Foto: http://mylocalhealthguide.com/off-label-drugs-what-you-need-to-know/
Pistas de comunicação dos bebês - Linguagem não-verbal
Sunday, 22 August 2010
Porque se importar em aprender as pistas de comunicação de um bebê:
É comum pensar que um bebê vem "sem manual de instruções" e até que ele aprenda a verbalizar seus desejos há um bloqueio à comunicação eficaz. Hoje em dia, entretanto, muito se desenvolveu no que tange ao entendimento da comunicação de um bebê. Na maioria das vezes ele se comunica através de "pistas" de linguagem não verbal que podem ser identificadas e utilizadas para criar um diálogo único entre os pais e a criança.
- um bebê perde menos energia lutando para se comunicar quando é respondido apropriadamente
- uma resposta rápida leva a bebês que choram menos
- ajuda o bebê a atingir seu potencial e a comunicar-se de forma mais fácil
- crianças que são ouvidas crescem em um meio de respeito mútuo que encoraja a autoestima, confiança e habiliade para regular extremos emocionais
- bebês que são respondidos apropriadamente são mais estáves e tornam-se mais eficientes em habilidades como alimentação, sono e a lidar com as demandas da vida em geral
- os pais tornam-se mais confiantes quando aprendem e entendem a linguagem corporal de seu bebê
- Ao serem respondidos adequadamente, os bebês aprendem se seu comportamento é ou não aceitável dentro da família
- responder aos sinais de um bebê é como uma dança entre a mãe/pai e a criança - um diálogo que estreita o processo de ligação entre eles
- bebês que são ignorados têm que criar táticas para conseguir a atenção que necessitam. Estas crianças são geralmente rotuladas "difíceis", "mimadas", quando tudo o que querem é serem ouvidas
- É importante observar o corpo todo do bebê para aprender as pistas. Elas são todas interligadas, criando um diálogo. É a figura completa que conta.
Pistas de comunicação
Pistas de engajamento
Pistas óbvias:
- para de se mexer
- movimentos suaves de pernas e braços
- busca o interlocutor
- move os olhos em direção ao interlocutor
- sorri
- olha no rosto do interlocutor
- faz sons de alimentação
- "conversa"
- mantém contato visual
- olhos bem abertos e brilhantes
- face brilhante
- mãos abertas
Pistas de "disengagement" - não engajado
Pistas óbvias:
- move a cabeça para o outro lado
- choro, remexe muito
- tosse, engasga
- arqueia as costas
- quase a dormir
- movimentos difíceis
- afasta-se
- muda de cor
- olha para o outro lado
- respiração rápida
- bocejos
- testa enrugada
- olhos fechados ou vidrados
- faz caretas
- mão na boca
- soluços
- língua para fora
http://www.kidsmalta.com/articles/view/472/contactus.aspx
Parentalidade
Saturday, 21 August 2010
Antes de se conceptuar parentalidade, deve-se pensar que as forças biológicas e ambientais que levam homens e mulheres a desejar ter filhos e as fantasias nascidas desse desejo podem ser encaradas como a “pré-história da vinculação”. A maternidade e a paternidade acentuam a dimensão psico-afetiva de um estado de expectativa, caracterizam-se em um ou mais aspectos da dimensão da personalidade do sujeito e há que se entender que são mediados pelos aspectos culturais, uma clivagem que acentua o afetivo para o lado da mãe e delega poder no pai (Bégoin, 2005. Do traumatismo à emoção estética)
Concepção Psicanalítica:
A parentalidade é uma das figuras específicas da relação de objeto, a que une o sujeito ao seu filho (Laplache; Pontalis, 1988) e depende de maior ou menor grau de aspectos narcísicos (relação narcísica) e anaclíticos (relação anaclítica). Tanto a sexualidade quanto a parentalidade, enquanto dimensões da identidade do sujeito se atualizam na relação com um parceiro interativo, num caso o parceiro sexual e noutro o filho – dimensão diacrônica.
Ao se analisar as competências parentais, diversos aspectos são avaliados:
• Caracterísitcas da personalidade dos pais
• A qualidade da relação entre os pais
• Características da criança – é bastante diferente criar uma criança saudável de uma criança com uma doença crônica incapacitante
• Idade, fase de desenvolvimento da criança (bebê, idade escolar, adolescência)
• Adequação e desadequação dos pais à criança em particular num contexto determinado.
Quando se avalia a parentalidade, o que se avalia realmente?
• A capacidade de amar?
• A capacidade de cuidar?
• A capacidade de proteger?
• A capacidade de cuidados continuados?
A avaliação de parentalidade indica avaliar a adequação ou inadequação do adulto cuidador relativamente à criança objeto de cuidados: A capacidade empática e de diferenciar-se do outro.
Tornar-se uma mãe, tornar-se um pai (J. Begoin, 2002)
Criar uma criança é também simultaneamente criar um pai e uma mãe. A procriação trata de fato da criação de uma relação totalmente nova de 3 pessoas entre elas e é uma situação única e excepcional que comporta enorme força potencial pela intensidade das reações emocionais que provoca, não só entre os três protagonistas mas também à sua volta, nomeadamente no meio familiar e social.
A maternalidade e paternalidade são estados psicoafetivos em evolução, que desenvolvem-se com o tempo. O caráter de mutualidade e reciprocidade das inter-relações precoces torna difícil distinguir o papel de cada um dos atores: bebê, mãe e pai. A criança tem um papel de “pai do homem”, ou seja, alguém com o poder de fazer surgir capacidades parentais nos seus dois progenitores.
A Experiência de ser mãe
É marcada pela
• História pessoal da mulher
• Qualidade da relação do casal
• Expectativaas em torno do bebê
• Qualidade da relação com familia e amigos
• Posição da mulher na sociedade
• Fatores sociais, econômicos e culturais
O desejo de ter um filho na mulher é influenciado por fatores como a identificação com a mãe, o desejo de ser completo e onipotente (desejo narcísico), o desejo de fusão e união com o outro, o desejo de se rever no filho, realização de ideais e oportunidades perdidas, o desejo de renovar velhas relações e a dupla oportunidade de substituição e separação da própria mãe.
Psicologia da Gravidez
Dois fatores são particularmente importantes na gravidez: a gravidez como crise de desenvolvimento (Deutch; Bibring; Caplan) e a gravidez como início da Ligação Mãe-Bebê (Brazelton, Cramer). A ligação mãe-bebê na gravidez age como um processo de ajustamento físico e psicológico ao feto em crescimento. Há uma intimidade psicobiológica que torna indissociáveis aspectos biológicos e psicológicos.
Na primeira fase do processo de ligação, há adaptação à notícia da gravidez, assim como ambivalência afetiva e dúvidas sobre o estado. Na segunda fase, notam-se os primeiros movimentos fetais, há reconhecimento do feto como um Ser separado da mãe e as fantasias passam a ser mais focadas no bebê (bebê perfeito versus bebê anormal). Na terceira fase há progressiva individualização do feto e a ocorrência de medos e fantasias acerca do parto.
Movimentos identificatórios da grávida
• Identificação à mãe – movimento de aproximação à própria mãe, identificação voltada ao passado
• Identificação ao bebê – identificação voltada para o futuro.
No desenrolar deste duplo processo identificatório desenvolve-se a capacidade da mulher ser mãe, ou seja, de responder às necessidades do seu bebê
Todos estes processos levam à ocorrência de 3 bebês no momento do nascimento:
• O bebê imaginário
• O feto invisível, mas real
• O recém-nascido real
O processo de gravidez e maternidade envolve a concretização de tarefas desenvolvimentais, especificamente
1. Aceitação da notícia
2. Aceitação do feto como um ser separado
3. Reavaliação e reestruturação da relação com os pais
4. Reavaliação e reestruturação da relação com o companheiro
5. Aceitação do bebê como uma pessoa separada
6. Redefinição da própria identidade (integrando a identidade materna)
7. Reavaliação e reestruturação da relação com outros filhos
Paternidade – identificações e alteridade
Reconhecimento de si e do outro na sua individualidade. A distância entre o filho ideal e o filho real pode ser mais ou menos dolorosa e pode ser colmatada pelo respeito da alteridade e do prazer da descoberta do outro, mas também e simultaneamente da descoberta de novos aspectos de si próprio. Na paternidade há ainda que se identificar os riscos da indiferenciação pai, mãe/criança (entender a criança como uma parte de si próprio). No Pré-histórico da ligação ocorre o fenômeno do “paradoxo da masculinidade” (Bell, 1984): como conciliar um primeiro movimento identificatório à mãe com o novo movimento identificatório ao pai e ao comportamento masculino.
O desejo de um bebê – ser completo/onipotente/rever-se no bebê, desejo de continuidade, transpor para o bebê ideais, oportunidades perdidas, renovar velhas relações, oportunidade de igualar-se ao pai
A gravidez – proximidade/distância entre o pai e a mãe grávida (amostras transculturais indicam que 79% dos casos pai e mãe dormem separados durante amamentação)
• A síndrome de Couvade (ou gravidez empática, na qual o pai experimenta sintomas de gravidez)
• A aproximação do pai do bebê ao próprio pai tem função protetora
• Transição da relação dual para relação triangular
• Preocupação com a saúde da grávida e feto
Parentalidade e família
O nascimento do primeiro filho marca o nascimento da família nuclear, acarretando mudanças estruturais e funcionais, com diferenciação dos sub-sistemas parental e filial. Com o nascimento de segundos filhos diferencia-se o sub-sistema fraternal. Na perspectiva da família alargada o bebê concretiza a ligação entre as duas famílias de origem e cria novos laços de parentesco, como avós, tios, primos e acarreta uma reorganização das relações entre a família nuclear e as famílias de origem. Por fim, um bebê introduz novas dimensões na relação família e sociedade.
Fotos:
http://www.wellsphere.com/parenting-article/trouble-conceiving/260294
http://www.reasonforliberty.com/ethics/parenthood-and-freedom.html
Labels: etologia, psicodinâmica e psicanálise, psiquiatria da mulher, psiquiatria transcultural e antropologia
Abuso e dependência de substâncias na terceira idade
Tuesday, 10 August 2010
Na terceira idade, a comorbidade do abuso de substâncias é a forma de apresentação mais comum. É um quadro muitas vezes não avaliado adequadamente, o que é uma pena, visto que os idosos aderem melhor ao tratamento do transtorno de uso/abuso de substâncias do que outros grupos etários.
Uso/Abuso de álcool
Ferramentas de rastreio específicas para a terceira idade: short MAST-G (Michigan Alcohol Screening Test – Geriatric Version); Drinking Problems Index e Alcohol-Related Problems Survey.
- Estigma
- “ageism” – racionalização de que as dificuldades deste grupo etário se devem tão simplesmente ao envelhecimento
- Falta de treinamento adequado da equipe técnica
- “misattribution” – pensar que os sintomas do abuso de álcool, como déficit cognitivo ou transtornos do humor, se devem à idade do paciente ou atribuir os efeitos físicos do abuso a traços de personalidade como “ele sempre dormiu/comeu mal”.
Dificuldades médico-legais
Problemas judiciais como dirigir embriagado
Ofensas a terceiros
Violência doméstica
A forma de apresentação mais comum do abuso/dependência de álcool nestes indivíduos é:
- Deterioração lenta dos cuidados pessoais e das atividades domésticas na ausência de doença orgânica que justifique estes sintomas
- Transtorno depressivo
- Demência
- Desnutrição
- Desidratação
- Quedas
Feedback
Responsabilidade pela mudança reside com o indivíduo
Advice (conselhos)
Fornecer um Menu de opções de mudança
Um estilo de aconselhamento/terapia EMPÁTICO
Aumentar a auto-eficácia (SELF EFFICACY)
Os pacientes muitas vezes passam e voltam a diferentes estágios durante o curso do tratamento.
Comorbidade/comorbilidade psiquiátrica
Luto
Mudanças no papel social após a aposentadoria
Restrições e dificuldades relacionadas à idade
O uso de álcool aumenta o risco de depressão e o risco de suicídio nestes pacientes é 60 a 120 vezes maior do que na população geral.
Alcohol Epidemiologic Survey: indivíduos com mais de 65 anos que são depndentes do álcool apresentam 3 vezes mais risco de ter um transtorno depressivo (depressão major). Para a maioria dos pacientes, a sintomatologia depressiva resolve com a abstinência em 2 a 4 semanas.
Álcool e doenças cerebrais
Demência alcoólica primária: prejuízo cognitivo associado a alterações cerebrais pelo uso do álcool. Melhora com a abstinência.
Demência associada ao uso de álcool:
É a comorbidade mais comum entre as doenças cerebrais, melhora com a abstinência e tem o álcool como principal contributor para o quadro.
Critérios para condição provável:
-diagnóstico de demência 60 dias após a última exposição ao álcool
-consumo significativo da substância nos 3 anos anteriores ao início do quadro.
Estes critérios são aliados à presença de:
-dano a órgãos (fígado, por exemplo), relacionado ao consumo de álcool
-ataxia ou polineuropatia sensorial periferal não isquêmica
-melhora ou estabilização do prejuízo cognitivo
-melhora das alterações radiológicas após 60 dias de abstinência e evidência (neuroimagem) de atrofia cerebelar
Os seguintes critérios causam dúvida no diagnóstico de demência associada ao uso de álcool:
-prejuízo da linguagem
-sinais neurológicos focais
-evidência em neuroimagem de infarto ou hemorragia
Abuso/dependência de benzodiazepínicos (ou benzodiazepinas)
BZD são os psicofármacos mais comumente prescritos na terceira idade: 13-23% dos pacientes que vivem em comunidades (residências) as utilizam, 50% para os indivíduos com mais de 75 anos. Mais comum em mulheres. 1 em cada 10 idosos apresentam efeitos adversos como redução do tempo de reação e quedas (aumentam incrivelmente o risco de quedas).
Os idosos não apresentam os sintomas clássicos de abstinência de BZD (ansiedade, insônia, alterações perceptuais) e sim alteração do nível de consciência e desorientação
Abuso/dependência de outras substâncias
Nicotina - Principal causa de morte prematura. A cessação dos consumos na meia idade evita em 90% o risco de câncer de pulmão. É a substância mais comumente utilizada em idosos alcoólicos – 5 vezes mais comum neste grupo.
Drogas ilícitas - Cohortes de nascimento que evidenciam aumento nas taxas de uso de drogas ilícias apresentam maiores taxas na terceira idade. A mortalidade é 12 a 22 vezes maior em utilizadores de drogas idosos e estes apresentam 2 a 6 vezes mais risco de óbito relacionado à droga do que utilizadores mais jovens (overdose, por exemplo).
Outras substâncias - Medicamentos para dor e tosse: 90% dos indivíduos com mais de 75 anos utilizam uma ou mais drogas vendidas livremente em farmácias
Comorbidades físicas
Tratamento do abuso/dependência de substâncias na terceira idade
-não estão licenciados para uso nesta faixa etária: buprenorfina, naltrexone, acamprosato, lofexidina, dissulfiram e clonidina
-Riscos: a buprenorfina nestes pacientes não deve ser utilizada por causa convulsões, problemas respiratórios e doença hepática (maior sensibilidade nos pacientes idosos). As BZD também não devem ser utilizadas pois causam problemas respiratórios e instabilidade postural. Se utilizados, o diazepam e o clordiazepóxido não devem exceder metade da dose para adultos jovens. Da mesma forma a metadona. Terapia de uso da nicotina (para os que querem deixar o cigarro) não deve ser utilizada em pacientes com doenças cardiovasculares, tireoidianas ou diabetes.
-pouca evidência da eficácia dos medicamentos nesta população
Abordagem psicológica
Álcool: Resultados semelhantes aos esperados em adultos. Melhores resultados associados a maior tempo em terapia, maior envolvimento ao final do tratamento, mulheres e a pacientes com maior rede de apoio social.
Cigarro: Evidência limitada em idosos. Parece ser tão eficaz quanto em adultos, particularmente em pacientes com problemas físicos associados ao uso. Melhores resultados para os que fizeram uso de terapia de uso da nicotina e Intervenções Breves
Opiáceos e medicamentos prescritos: Metadona: poucos estudos, mas alguma evidência de melhora.
Foto: http://spiritlodge.wordpress.com/
Labels: dependencia quimica, outras dependências, psicogeriatria ou gerontopsiquiatria, psiquiatria e medicina interna, tabagismo, toxicodependencia
Os seis estágios de consciência de um bebê
Continuando os posts maternais, para entender melhor como um bebê se comunica e aprende:
Estados de sono:
Sono profundo:
Não há qualquer atividade corporal
respiração suave e regular
Sem movimentos faciais ou oculares
Às vezes apresenta movimentos de sucção
Ocasionalmente apresenta o reflexo do susto (abana os braços)
É difícil acordar o bebê neste estágio
Se acordado, rapidamente volta a dormir
Procedimentos intrusivos não são recomendados nesta fase
Não amamenta
Geralmente irresponsivo
Maior nível de atividade corporal
Repiração irregular
Movimentos faciais
Movimentos oculares (REM)
menos difícil de ser acordado
Amamentar nesta fase pode ser difícil
pode sorrir
mais responsivo
Estados transicionais
Sonolência
Atividade variável
Respiração irregular
Abre e fecha os olhos
Olhar vidrado
Responsividade tardia
Mais fácil de ser acordado
Difícil dizer se o bebê esta a dormir ou acordado
Se deixado em paz, volta a dormir
Amamentar pode ser difícil até que completamente acordado
Pode acordar ou voltar a dormir
Estados despertos
Alerta pacífico
Atividade corporal mínima
Respiração regular
O rosto está iluminado e alerta
Mais atento a estímulos
Boa fase para segurar e interagir com o bebê
Aprende e responde melhor nesta fase
Nas primeiras horas após o nascimento, recém nascidos apresentam intensos períodos desta fase, alternados com sono profundo.
Alerta ativo
Alto nível de atividade corporal
Respiração irregular
Movimentos faciais
Sensível a estímulos
Pode sinalizar que precisa de trocar a fralda; se alimentado, reposicioná-lo
Contorce o corpo e mexe os membros
Difícil de interagir
Se deixado em paz, pode consolar-se sozinho
Choro
Respiração irregular
Face contorcida
Chora
Mudança de cor
Os limites do bebê foram atingidos
Necessita de trocar a fralda
Necessita consolo
Sensibilidade variável a estímulos
Fotos: http://for-your-child.blogspot.com/
http://krystlehaines.com/the-final-post-on-self-soothing/
http://picasaweb.google.com/lh/photo/lAv5iW0dhTmSVPXLcoIgAg[http://parentinguru.com/sleep/health-issues-related-to-baby-sleep/
http://www.jerileakroll.com/
http://4everfamily.com/2009/09/16/works-for-me-wednesday-7-ideas-for-soothing-a-fussy-baby/
Competência, capacidade e habilidade de tomada de decisões nos transtornos mentais
Monday, 9 August 2010
Immanuel Kant (1724-1804) – consequências não fazem parte do conceito de moralidade e os imperativos categóricos ditam o que se deve fazer em uma devida situação.
Kant acreditava que apenas decisões racionais são autônomas (Kant cunhou o termo “autonomia”): Um indivíduo tem que ter capacidade intelectual para ter habilidade para tomada de decisões racionais.
- Consequências
- Distribuição das consequências pela maioria
- A natureza das consequências, geralmente medida em termos de felicidade
- Revelar informação
- O paciente deve ser competente, ter capacidade
- A decisão deve ser voluntária
• Agir
• Tomar de decisões
• Comunicar decisões
• Entender decisões
• Reter a memória de decisões
• Por razão de transtornos mentais ou inabilidade de comunicá-las devido a defeito físico.
Estados maníacos
Prejuízo de insight
Sintomas negativos
Tempo
Mínimo possível de distrações na sala ou quarto do paciente
Comunicação clara e precisa
Panfletos informativos
Explicar prós e contras
Deixar claro que a decisão pertence ao paciente
Facilitar reflexão, relação e questionamento
Tratamento do transtorno mental subjacente

















