Luto - o que é normal e o que não é

Monday, 1 August 2011

Luto

O luto é uma experiência estressante, mas comum. Cedo ou tarde a maioria de nós vai sofrer com a morte de alguém que amamos. Mesmo assim, no nosso dia a dia, pouco falamos ou pensamos sobre morte, talvez porque nos encontramos com a morte menos do que nossos avós, por exemplo, o faziam. Para eles, a morte de um irmão, amigo ou parente era uma experiência comum desde a infância. Para nós, as perdas acontecem geralmente no final da vida. Assim, temos poucas oportunidades de aprender sobre luto – o que é, o que é “normal”, o que se deve fazer – ou para entender como passar por ele. Apesar disso, devemos aprender que eventualmente todos poderemos finalmente estar diante da morte de alguém que amamos.

O sentimento de luto
Nós passamos por um luto após qualquer perda, mas o sentimento é muito mais poderoso após a morte de um ente querido. Não é apenas um sentimento, mas uma sucessão de sentimentos, um processo que deve levar seu tempo e não ser apressado.

Nós sofremos mais por alguém que conhecemos a algum tempo. Entretanto, sabe-se que pessoas que passaram por abortos ou morte do recém-nascido, ou que tenham perdido bebês muito novinhos sofrem da mesma forma e precisam da atenção que alguém que perdeu um companheiro de muitos anos.

Nas primeiras horas ou dias após a morte de um parente ou amigo próximo, a maioria das pessoas simplesmente se sente chocada, como se não pudesse acreditar que a morte realmente ocorreu. Muitos se sentem assim mesmo que a morte tenha sido anunciada.

Este sentimento de paralisia emocional pode ajudar em todos os afazeres e preparações após a morte, como entrar em contato com os parentes e organizar o funeral. Se este sentimento de irrealidade, entretanto, se prolonga demasiado, pode se tornar um problema. Ver o corpo do falecido pode, para alguns, ser uma forma importante de resolver esta paralisia.

Similarmente, para muitos, o funeral é uma ocasião na qual a realidade do que aconteceu finalmente os atinge. Pode ser difícil ver o corpo ou ir até o velório, mas estas são formas de dizer adeus a quem amamos. Na hora, isto pode parecer muito doloroso e você pode tentar evitar o velório e enterro. No futuro, porém, você pode se arrepender e sentir muita culpa.

Cedo esta paralisia emocional desaparece e pode ser substituída por uma sensação de agitação ou necessidade do falecido. Há uma sensação de tentar encontrá-lo, mesmo que isso seja impossível. Esta sensação faz com que seja difícil relaxar e concentrar-se e pode alterar o sono. Mesmo os sonhos podem ser bastante estressantes.

Algumas pessoas sentem-se como se “vissem” o falecido em qualquer lugar que vão – nas ruas, nas praças, perto de casa, em qualquer lugar que tenham passado tempo juntos. Muitos ficam com muita raiva neste momento – em relação aos médicos e enfermeiros que não impediram a morte, aos amigos e parentes que não fizeram o suficiente, ou mesmo em relação ao falecido, que ao morrer, os abandonou.

Outro sentiment comum é culpa. Muitos ficam repensando todas as coisas que poderiam ter feito ou dito. Podem até considerar que se tivessem feito algo diferentemente, a morte poderia ter sido impedida. É claro que a morte em geral está além de nossa capacidade de controle e uma pessoa que passa por um luto às vezes tem que ser lembrada disso. Algumas pessoas também sentem culpa se se sentem aliviadas pela morte indolor do ente querido. Esta sensação de alívio é comum e perfeitamente normal.

Este estado de agitação é mais forte nas duas semanas após a morte, mas é logo seguido por um estado de tristeza calma ou depressão, silêncio e isolamento social. Estas mudanças emocionais súbitas podem ser confusas para amigos e parentes, mas são parte do processo normal de luto.

Embora a agitação diminua, os períodos de depressão tornam-se mais frequentes e atingem um pico quatro a seis semanas depois. Espasmos de luto com choro convulsivo podem ocorrer a qualquer momento, geralmente causados por pessoas, lugares ou objetos que tragam à memória o falecido. 

Algumas pessoas podem achar difícil de entender ou sentir-se envergonhadas devido ao comportamento da pessoa em luto de chorar de repente, sem razões óbvias. Neste estágio, pode parecer tentador ficar longe de pessoas que não entendem ou não compartilham sua dor. Entretanto, evitar a compania dos outros pode causar problemas no futuro e é melhor começar a retomar suas atividades após duas semanas da perda.

Durante este tempo, pode parecer aos outros que a pessoa em luto passa muito tempo apenas sentada, sem fazer nada. Na verdade, ele\a está pensando na pessoa que perdeu, ruminando mentalmente as boas e más lembranças. Este é um processo silencioso, mas fundamental para se passar pelo processo de luto.

Conforme o tempo passa, a dor aguda do luto breve começa a desaparecer. A depressão melhora e é possível pensar em outras coisas e mesmo planejar o futuro. O sentimento de ter perdido uma parte de si mesmo, entretanto, nunca passa completamente. Para esposas ou maridos em luto, existem lembranças constantes de seu novo estado civil, ao ver outros casais e no dilúvio de imagens na mídia de casais e famílias felizes. Após algum tempo é possível sentir-se completo novamente, mesmo que tenha perdido uma parte de si.

Estes vários estágios de luto podem ocorrer ao mesmo tempo e apresentar-se de forma variada. A maioria das pessoas recupera-se de um luto importante entre um a dois anos. A fase final do luto é o processo de desapego da pessoa que morreu e o início de uma nova vida. A depressão passa completamente, o sono melhora e o nível de energia retorna ao normal. A libido, que desapareceu por algum tempo, retorna e todos estes sentimentos são normais, nada que deva causar vergonha.

Mesmo com as descrições acima, deve-se saber que não existe um jeito “certo” de sofrer um luto. Todos somos indivíduos diferentes com modos particulares de experimentar uma perda. Além disso, pessoas de diferentes culturas lidam com a morte de forma distinta. Ao longo da história, pessoas de diferentes partes do mundo criaram suas próprias cerimônias para lidar com a morte.

Crianças e adolescentes
Crianças podem não enteder o siginificado da morte até que atinjam a idade de três a quatro anos, mas elas sentem a perda de um parente próximo da mesma forma que um adulto. Hoje em dia entende-se que mesmo quando bebês, as crianças experimentam o luto e sofrem com ele. Para elas, entretanto, a experiência é bastante diferente e elas passam pelas fases do luto rapidamente.

No início da fase escolar, as crianças podem se sentir responsáveis pela morte de um parente próximo e podem necessitar de conforto. Jovens podem evitar falar de seu sofrimento, com medo de aumentar a carga emocional dos adultos. O luto de crianças e adolescentes e sua necessidade de processá-lo não deve ser ignorado quando um familiar morre. Sempre que possível incluá-los nos afazeres do velório e funeral. 
Luto após um suicídio
Pode ser particularmente difícil lidar com a morte por suicídio de alguém que você conheça. Você pode se sentir:
  • Com raiva da pessoa por ter tirade sua própria vida
  • Rejeitado pelo suicídio
  • Confuso pelas razões do suicídio
  • Culpado – a maioria das pessoas se mata em um ato de desespero. Como não notou que eles estavam a se sentir assim?
  • Culpado por não ter conseguido impedir sua morte. Você pode ruminar mentalmente as diversas vezes que passou tempo com a pessoa e perguntar-se se não havia modo de impedí-lo\a
  • Preocupado se a pessoa sofreu antes de morrer
  • Feliz por saber que ele\a não sofre mais
  • Aliviado por saber que não terá mais que ajudá-lo\a a lidar com seus pensamentos e impulsos suicidas
  • Envergonhado pelo suicídio, particularmente se sua cultura ou religião vê o ato como pecaminoso ou embaraço público
  • Relutante em falar com outras pessoas porque
    • O estigma é muito forte na sua cultura
    • Você sente que as outras pessoas estão mais interessadas no drama da situação do que nos seus sentimentos
  • Preocupado pelo fato de apresentar pensamentos suicidas seus
  • Isolado – ajuda falar com outras pessoas que também tenham perdido um ente querido por suicídio

Como amigos e parentes podem ajudar
  • Passe tempo com a pessoa em luto. Mais do que palavras de conforto, eles precisam saber que você estará com eles durante este período doloroso. Um braço amigo exprime mais sobre carinho e ajuda do que palavras jamais poderiam.
  • É importante que pessoas em luto possam chorar e falar sobre seus sentimentos com alguém que não fique o tempo todo tentando acalmá-los. Com tempo o luto passa, mas neste momento eles precisam chorar e falar sobre a morte.
  • Muitos acham difícil entender porque as pessoas em luto falam sobre as mesmas coisas o tempo todo, mas isto faz parte do processo de resolução e deve ser encorajado. Se não sabe o que dizer e se pode ou não falar sobre o assunto, seja honesto e diga isso francamente. Isto dá chance a pessoa que sofreu uma perda de falar o que quer. Muitas pessoas evitam mencionar o nome do falecido\a para não causar mais choro. Para a pessoa em luto, entretanto, parece que os outros esquecem sua perda, e aumenta a sensação de isolamento e perda.
  • Lembre-se que ocasiões festivas e aniversários (de morte, casamento, nascimento) são particularmente dolorosas. Amigos e familiares devem esforçar-se em estar por perto nestas épocas.
  • Ajudar nas tarefas do dia a dia como limpeza, comprar e cuidar de crianças diminui a carga de se estar sozinho. Idosos em luto pela perda do cônjuge podem precisar de ajuda nas atividades do dia a dia que costumavam ser feitas pelo falecido\a – pagar contas, cozinhar, limpar a casa, arrumar o carro, etc.
  • Dê tempo para que as pessoas passem pelo luto. Algumas pessoas passam por isto rapidamente. Outras precisam de mais tempo. Não espere demasiado de alguém que perdeu um familiar ou amigo recentemente. 
Luto mal resolvido
Algumas pessoas parecem não sofrer a perda. Elas nem mesmo choram no funeral, evitam mencionar sua perda e voltam à vida normal rapidamente. Para alguns isto é normal, mas outros passam a sofrer de sintomas físicos ou episódios depressivos nos próximos anos. Outros podem não ter tido oportunidade de resolver o processo de luto adequadamente. As pesadas demandas da vida, de cuidar de uma família ou negócios podem ter ditado que não havia tempo suficiente.

Algumas pessoas começam o processo de luto, mas ficam “presas” a uma fase. A sensação inicial de choque continua sem resolução. Podem se passar anos e o indivíduo ainda acha difícil acreditar que seu ente querido morreu. Outras continuam a vida incapazes de pensar em qualquer outra coisa: mantem o quarto do falecido como um altar à sua memória. 

Ocasionalmente, a depressão que ocorre com o luto pode se exacerbar a ponto de a pessoa recusar comer ou beber e apresentar pensamentos suicidas.

Como seu medico pode ajudá-lo\a
  • Noites insones podem às vezes, persistir e se tornar um sério problema. O médico pode prescrever medicamentos para ajudá-lo a dormir
  • Se a depressão continua a piorar, alterando o apetite, energia e sono, antidepressivos podem ser indicados.
  • Se o luto não se resolve, deve-se procurar ajuda de um profissional de saúde mental. Para alguns, encontrar-se com um terapeuta a sós ou em grupo, no qual outras pessoas passaram por experiências semelhantes, ajuda na solução do quadro.
  • Lembre-se: O luto é uma das experiências mais dolorosas pelas quais podemos passar. Pode ser estranho, terrível e estressante, mas é uma fase da vida pela qual quase todos passamos e não requer avaliação médica por si só.
Referências
Hawton K and Simkin S (2003) Helping people bereaved by suicide. BMJ;327:177-178.

4 comments:

Muito interessante. Acho importante debater esta questão , pois trabalho com depressivos e sempre aparece esta questão do luto. Muitos choram até hj por lembrar do filho ou marido que morreu, mas é importante esclarecer que nem por isso seria um sintoma de depressão.

Helena Moraes said...
2 August 2011 at 16:07  

Muito interessante esse tema...
Perdi uma pessoa - nem sei explicar se é bem uma perda -, na verdade trata-se da forma como tudo aconteceu... era a secretária da faculdade onde estudo, com quem eu costumava compartilhar livros e experiências de leituras em comum; ela me emprestava seus livros e eu emprestava os meus... lembro-me que umas duas semanas antes de sua morte, havíamos discutido sobre uma trilogia que estávamos acompanhando e que estávamos ansiosas pela publicação do segundo volume... ela estava com o meu volume um, com o filme do livro e com um outro livro que eram as memórias de uma francesa que sofreu num campo de concentração na Segunda Guerra Mundial... ela me falou que precisava me devolver os livros e eu disse que não tinha pressa. Aquela foi a última vez que a vi. Ela conheceu um rapaz pela internet - na verdade já namorava esse rapaz e chegamos a conversar sobre isso - e um dia os dois se encontraram e ele a assassinou esganada e depois queimou o corpo numa área de mata fechada. Ela foi encontrada pela polícia e enterrada como indigente, somente duas semanas depis foi reconhecida pela família por um anel que ela usava... anel este que eu havia visto no dedo dela por tantas vezes. Em outubro fará dois anos que isso aconteceu, mas sempre que penso nela, em nossos papos e na forma como morreu, sinto uma dor muito grande; não consigo acreditar que essa história aconteceu com a mesma pessoa que conheço e com quem troquei tantas ideias... Sinto ódio do cara que fez essa maldade com ela e, tudo o que mais queria era ficar frente a frente com ele para finalmente perguntar "por quê?". Não entendo, isso... me custa entender...

Haia said...
21 August 2011 at 18:10  

Muito Bom, me ajudou bastante!

Fernando Macedo said...
20 November 2011 at 15:26  

As últimas mortes q sofri na minha família foram grandes... Mas eu não choro, meu marido anda preocupado. Nos velórios prefiro cuidar das coisas ao invés de sentar e chorar. Estou perdendo a sensibilidade?

Patricia Duran said...
7 October 2015 at 18:31  

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