Os convênios e os médicos

Friday, 27 July 2012

Para reflexão. O texto não é meu, mas de um colega que cansou.

Por que seu médico lhe atende tão rápido?

Você acabou de renovar seu convênio privado e receber a nova carteirinha.
Vem num pacote bem montado, com diversos extras e muitas recomendações de
saúde. Pronto para fazer sua primeira consulta, cheio de expectativas, você
liga para um médico listado no caderno do convênio e agenda um horário.
Chega o dia e você vai ao consultório e encontra uma sala de espera cheia
de outros clientes, um calor infernal e ouve gente começando a reclamar da
demora. Senta, levanta, pega uma revista, toma um copo d’água, entra um,
sai outro e nada. Já impaciente, não entende o que pode estar acontecendo,
mas abre um sorriso quando seu nome é chamado com mais de uma hora de
atraso!

Ao entrar no consultório com sua lista de dúvidas dentro do bolso, ouve
duas perguntas do médico, senta na maca, mede a pressão e sai de lá mudo
com cinco guias após menos de 15 minutos de consulta. Ao dar-se conta, já
está fora da sala sem saber muito o que ocorreu. Alguém já passou por isso?

Caso se identifique, caro leitor, antes de culpar seu médico, vamos
entender o que acontece hoje na maioria dos planos privados e porque este
profissional é tão vítima quanto você.

Numa pesquisa feita recentemente, os pacientes acreditam que seu médico
esteja recebendo cerca de R$ 100,00 pela consulta, acham que ele deveria
receber em torno de R$ 140,00, mas na verdade ele recebe uma média de
R$40,00 (bruto), de acordo com dados da ANS de 2010. A

Assim, temos um paradigma: o paciente acha que está pagando duas vezes e
meia mais do que está sendo exercido na realidade por seu tratamento. A
disparidade entre percepção de pagamento e serviço prestado é simplesmente
alta demais. Mas, ao mesmo tempo, você como paciente pode intrigar-se, já
que seu plano custa caríssimo.

Pois bem, atualmente apenas 10-15% do que você paga efetivamente vai para o
profissional que coordena todo o sistema e quem, em princípio, deveria
zelar pela sua saúde. Todo o resto cobre custos de possíveis internações,
exames, medicamentos hospitalares, custos administrativos, propaganda do
plano e lucro de terceiros.

O resultado disso tudo se reflete na situação exposta acima. A conta é
simples e rápida: o custo de um consultório, apenas para mantê-lo aberto
hoje é em torno de R$ 3.500,00, considerando aluguel, secretária etc. Isso
significa que um médico deve fazer, apenas para pagar essas contas, um
total de 140 consultas pagas (pois dos R$ 40,00 se descontam INSS e imposto
de renda).

Na prática, significam em torno de 182 consultas, pois 30% destas são
retornos não remunerados. Até aqui o médico não ganhou nada, apenas pagou
seus custos de trabalho. Vamos dizer que ele vá ganhar R$ 7.000,00 por mês
(sem entrar no mérito se é muito ou pouco) – isso significa que terá que
atender mais 280 consultas para gerar esse valor, ou 364 considerando os
retornos. Somando tudo isso, temos 546 consultas no mês para esse salário!

Como o tempo é fixo, trabalhando 8 horas por dia, 22 dias por mês, ele tem
176 horas por mês para dar conta de tudo, ou seja, 3.1 consultas/hora. Isso
sem considerar férias não remuneradas, feriados, falta de pacientes, entre
outros extras que fazem com que a marcação de consultas passe na maioria
dos consultórios para 4 por hora. Claro que ainda temos congressos e o
tempo de estudo para atualização profissional que não foram computados nos
custos, mas saem diretamente do bolso do profissional.

Já dá para entender que se você foi um dos 546 pacientes vistos por seu
médico, o nível de atenção despendida por ele não tem como ser maior. É
algo racional e direto, proporcional ao grande volume de trabalho que o
profissional tem de gerar para receber um salário digno. É claro que
gostaríamos, como médicos, de sempre dar a maior atenção possível a todos
os pacientes, mas atualmente isso é simplesmente impossível.

A solução é óbvia, mas não é facilmente mutável: o médico tem que receber
mais pela consulta. Não adianta fingirmos, fugir do assunto, fazermos
discursos cheios de oratória: saúde custa caro e um bom profissional
também. Você, paciente, fica no meio disso e sofre com um atendimento
inferior ao que merece e paga.

Por isso, busque saber do seu plano quanto ele paga ao seu médico e saberá
qual a qualidade de atendimento que terá. Não se impressione com
helicópteros, propaganda de melhores hospitais, nada disso. No final, quem
mais importa é o profissional que lhe atende e é isso o verdadeiro
diferencial num serviço de saúde.

Dr. Juliano de Lara Fernandes

Medico cardiologista, coordenador do Departamento de Cardiologia da
Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas

Posted by Vanessa Marsden at 16:45  

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