Parentalidade
Saturday, 21 August 2010
Antes de se conceptuar parentalidade, deve-se pensar que as forças biológicas e ambientais que levam homens e mulheres a desejar ter filhos e as fantasias nascidas desse desejo podem ser encaradas como a “pré-história da vinculação”. A maternidade e a paternidade acentuam a dimensão psico-afetiva de um estado de expectativa, caracterizam-se em um ou mais aspectos da dimensão da personalidade do sujeito e há que se entender que são mediados pelos aspectos culturais, uma clivagem que acentua o afetivo para o lado da mãe e delega poder no pai (Bégoin, 2005. Do traumatismo à emoção estética)
Concepção Psicanalítica:
A parentalidade é uma das figuras específicas da relação de objeto, a que une o sujeito ao seu filho (Laplache; Pontalis, 1988) e depende de maior ou menor grau de aspectos narcísicos (relação narcísica) e anaclíticos (relação anaclítica). Tanto a sexualidade quanto a parentalidade, enquanto dimensões da identidade do sujeito se atualizam na relação com um parceiro interativo, num caso o parceiro sexual e noutro o filho – dimensão diacrônica.
Ao se analisar as competências parentais, diversos aspectos são avaliados:
• Caracterísitcas da personalidade dos pais
• A qualidade da relação entre os pais
• Características da criança – é bastante diferente criar uma criança saudável de uma criança com uma doença crônica incapacitante
• Idade, fase de desenvolvimento da criança (bebê, idade escolar, adolescência)
• Adequação e desadequação dos pais à criança em particular num contexto determinado.
Quando se avalia a parentalidade, o que se avalia realmente?
• A capacidade de amar?
• A capacidade de cuidar?
• A capacidade de proteger?
• A capacidade de cuidados continuados?
A avaliação de parentalidade indica avaliar a adequação ou inadequação do adulto cuidador relativamente à criança objeto de cuidados: A capacidade empática e de diferenciar-se do outro.
Tornar-se uma mãe, tornar-se um pai (J. Begoin, 2002)
Criar uma criança é também simultaneamente criar um pai e uma mãe. A procriação trata de fato da criação de uma relação totalmente nova de 3 pessoas entre elas e é uma situação única e excepcional que comporta enorme força potencial pela intensidade das reações emocionais que provoca, não só entre os três protagonistas mas também à sua volta, nomeadamente no meio familiar e social.
A maternalidade e paternalidade são estados psicoafetivos em evolução, que desenvolvem-se com o tempo. O caráter de mutualidade e reciprocidade das inter-relações precoces torna difícil distinguir o papel de cada um dos atores: bebê, mãe e pai. A criança tem um papel de “pai do homem”, ou seja, alguém com o poder de fazer surgir capacidades parentais nos seus dois progenitores.
A Experiência de ser mãe
É marcada pela
• História pessoal da mulher
• Qualidade da relação do casal
• Expectativaas em torno do bebê
• Qualidade da relação com familia e amigos
• Posição da mulher na sociedade
• Fatores sociais, econômicos e culturais
O desejo de ter um filho na mulher é influenciado por fatores como a identificação com a mãe, o desejo de ser completo e onipotente (desejo narcísico), o desejo de fusão e união com o outro, o desejo de se rever no filho, realização de ideais e oportunidades perdidas, o desejo de renovar velhas relações e a dupla oportunidade de substituição e separação da própria mãe.
Psicologia da Gravidez
Dois fatores são particularmente importantes na gravidez: a gravidez como crise de desenvolvimento (Deutch; Bibring; Caplan) e a gravidez como início da Ligação Mãe-Bebê (Brazelton, Cramer). A ligação mãe-bebê na gravidez age como um processo de ajustamento físico e psicológico ao feto em crescimento. Há uma intimidade psicobiológica que torna indissociáveis aspectos biológicos e psicológicos.
Na primeira fase do processo de ligação, há adaptação à notícia da gravidez, assim como ambivalência afetiva e dúvidas sobre o estado. Na segunda fase, notam-se os primeiros movimentos fetais, há reconhecimento do feto como um Ser separado da mãe e as fantasias passam a ser mais focadas no bebê (bebê perfeito versus bebê anormal). Na terceira fase há progressiva individualização do feto e a ocorrência de medos e fantasias acerca do parto.
Movimentos identificatórios da grávida
• Identificação à mãe – movimento de aproximação à própria mãe, identificação voltada ao passado
• Identificação ao bebê – identificação voltada para o futuro.
No desenrolar deste duplo processo identificatório desenvolve-se a capacidade da mulher ser mãe, ou seja, de responder às necessidades do seu bebê
Todos estes processos levam à ocorrência de 3 bebês no momento do nascimento:
• O bebê imaginário
• O feto invisível, mas real
• O recém-nascido real
O processo de gravidez e maternidade envolve a concretização de tarefas desenvolvimentais, especificamente
1. Aceitação da notícia
2. Aceitação do feto como um ser separado
3. Reavaliação e reestruturação da relação com os pais
4. Reavaliação e reestruturação da relação com o companheiro
5. Aceitação do bebê como uma pessoa separada
6. Redefinição da própria identidade (integrando a identidade materna)
7. Reavaliação e reestruturação da relação com outros filhos
Paternidade – identificações e alteridade
Reconhecimento de si e do outro na sua individualidade. A distância entre o filho ideal e o filho real pode ser mais ou menos dolorosa e pode ser colmatada pelo respeito da alteridade e do prazer da descoberta do outro, mas também e simultaneamente da descoberta de novos aspectos de si próprio. Na paternidade há ainda que se identificar os riscos da indiferenciação pai, mãe/criança (entender a criança como uma parte de si próprio). No Pré-histórico da ligação ocorre o fenômeno do “paradoxo da masculinidade” (Bell, 1984): como conciliar um primeiro movimento identificatório à mãe com o novo movimento identificatório ao pai e ao comportamento masculino.
O desejo de um bebê – ser completo/onipotente/rever-se no bebê, desejo de continuidade, transpor para o bebê ideais, oportunidades perdidas, renovar velhas relações, oportunidade de igualar-se ao pai
A gravidez – proximidade/distância entre o pai e a mãe grávida (amostras transculturais indicam que 79% dos casos pai e mãe dormem separados durante amamentação)
• A síndrome de Couvade (ou gravidez empática, na qual o pai experimenta sintomas de gravidez)
• A aproximação do pai do bebê ao próprio pai tem função protetora
• Transição da relação dual para relação triangular
• Preocupação com a saúde da grávida e feto
Parentalidade e família
O nascimento do primeiro filho marca o nascimento da família nuclear, acarretando mudanças estruturais e funcionais, com diferenciação dos sub-sistemas parental e filial. Com o nascimento de segundos filhos diferencia-se o sub-sistema fraternal. Na perspectiva da família alargada o bebê concretiza a ligação entre as duas famílias de origem e cria novos laços de parentesco, como avós, tios, primos e acarreta uma reorganização das relações entre a família nuclear e as famílias de origem. Por fim, um bebê introduz novas dimensões na relação família e sociedade.
Fotos:
http://www.wellsphere.com/parenting-article/trouble-conceiving/260294
http://www.reasonforliberty.com/ethics/parenthood-and-freedom.html
Labels: etologia, psicodinâmica e psicanálise, psiquiatria da mulher, psiquiatria transcultural e antropologia
Nao perca seu dinheiro: acupuntura para tratamento da infertilidade
Thursday, 1 April 2010
Mulheres inferteis que gastam centenas ou milhares em tratamentos adjuntos de acupuntura para aumentar as probabilidades de sucesso dos tratamentos de infertilidade estao a perder dinheiro.
Em uma conferencia da European Society of Human Reproduction and Embriology em Barcelona, a investigadora principal do estudo, Dra. S. Sunkara admitiu que nao indicaria o procedimento a suas pacientes por falta de evidencia cientifica de que o mesmo ajuda.
Na metanalise foram identificados 83 clinical trials (estudos clinicos) dos quais 13 foram suficientemente adequados para serem avaliados. Os demais foram rejeitados por serem comentarios (sem dados estatisticos para serem avaliados) ou por serem experimentos mal desenhados. Os unicos resultados analisados foram taxas de gravidezes apos os ciclos de IVF e taxas de nascimento. A acupuntura nao apresentou efeitos em nenhum dos dois.
Ja por diversas vezes escrevi posts alertando sobre tratamentos que nao apresentam validade cientifica, como homeopatia e outros. Em breve este ultimo devera ser abolido da rede publica inglesa, ou seja: o estado ingles recusa-se a pagar por um tratamento que nao apresenta eficacia comprovada.
Diversos profissionais justificam o uso de ervas, homeopatia e florais de Bach dizendo que "na sua experiencia" o procedimento demonstra resultados.. Este 'e que 'e o problema. Esta conversa de "na minha experiencia" foi abandonada ha decadas atras. Para se afirmar se algo funciona ou nao, utilizamos de estatisticas. Pode ser que a memoria do medico que disse que na "sua experiencia" o tratamento funciona esteja condicionada a lembrar apenas dos casos de sucesso. Isso 'e um erro honesto, que pode acontecer com qualquer um.
Outras pessoas justificam o uso por acreditarem na tradicao, utilizando argumentos como "se funciona ha milhares de anos, deve ser bom". Astrologia tambem existe ha milhares de anos, assim como cartomantes, necromancia, advinhos, etc... Estes chegam mesmo a ser citados no Antigo Testamento da Biblia (escrito ha mais de 5000 anos). Nao 'e por isso que sao infaliveis.
Longe de querer proibir ou reprimir o uso de terapias alternativas, acredito que um medico ou um profissional de saude nao deveria prescrever tais tratamentos sem obter um consentimento informado do paciente, alegando que entendeu que nao ha evidencias cientificas para tal prescricao e que desta forma o tratamento 'e experimental.
As pessoas sao livres para utilizar as terapias alternativas, mas devem ser claramente alertadas de sua falta de evidencia positiva no tratamento e da falta de estudos controlados sobre seus efeitos colaterais.
Somente com todos os fatos ("acupuntura cientificamente nao ajuda no tratamento da infertilidade, mas pode ser que voce relaxe com o procedimento e sinta-se mais em controle da situacao") um paciente pode tomar a decisao de gastar quase 350 euros ou 1000 reais em um pacote de 4 sessoes de acupuntura sem ser lesado.
Lembre-se, muitas vezes os tratamentos alternativos sao oferecidos em conluio nas clinicas de tratamento da infertilidade. Embora o Conselho Federal de Medicina proiba a associacao de medicos com farmacias (para impedir que o consumidor seja lesado), nao existe legislacao especifica no caso de outras terapias alternativas.
Conheca seus direitos e evite ser lesado por procedimentos e terapias sem base ou por profissionais inescruplosos.
Peco desculpas pela falta de acentos no post de hoje, mas estou a utilizar um teclado configurado em ingles.
Referencias:
Sunkara, S., Coomarasamy, A., Khalaf, Y., & El-Toukhy, T. (2009). Acupuncture and in vitro fertilization: updated meta-analysis Human Reproduction, 24 (8), 2047-2048 DOI: 10.1093/humrep/dep189
Foto:
http://2.bp.blogspot.com/_mwmjwayrAo0/SsztitWF5bI/AAAAAAAAAIg/OOEuyG4gWyg/s320/20070925_acupuncture.jpg
As mulheres na psiquiatria
Monday, 8 March 2010
Hoje sentei-me em frente ao teclado com o objetivo de escrever um post sobre o Dia Internacional da Mulher (que por sinal comemora seu centenário). Mas não quero cair na mesmice de colocar a foto de uma rosa e um poema mal escrito que exalta a beleza do sexo frágil. Acredito que isso não enaltece nem a mulher nem o que se comemora nesta data. Lembro-me de todas as rosas, cartões bregas e chocolates que recebi de empregadores por este motivo.
Queria escrever um post sobre a história das mulheres na psiquiatria. Assim, fiz uma pesquisa no google e achei diversos artigos que trilhavam o caminho da liberação e o papel das mulheres nesta profissão, que como todas na medicina, era predominantemente masculina. Os artigos traçavam a história das psiquiatras nos EUA, na Inglaterra, na França... e lembrei que escrevo o blog em português, sendo mais adequado escrever sobre as mulheres brasileiras e portuguesas. Pesquisei os termos “mulheres na psiquiatria” e “futuro da psiquiatria”. Devo dizer que fiquei bastante decepcionada.
Encontrei um texto da Psychiatry Online de Walmor J. Piccini, na qual o colega relaciona as produções científicas e doutorados de colegas psiquiatras do sexo feminino. E só. No mais, os artigos e páginas a perder de vista que tratam destes termos falam da sexualidade da mulher, o lugar da mulher nas instituições psiquiátricas, o mal-estar que as histéricas causavam nos manicômios, centenas de páginas sobre depressão e TPM na mulher. E, posso estar a ser meio paranóica, mas achei tudo muito pobre. Milhares de páginas sobre as mulheres e muito pouco, na verdade, sobre nosso protagonismo nesta profissão. É claro que grandes psiquiatras brasileiras são louvadas, como algumas páginas que prestam homenagem a Nilse da Silveira, mas em geral, não mais que isso.
O papel das mulheres na psiquiatria é muito maior que isso. Nós não somos apenas pacientes com problemas sexuais, embora a sociedade brasileira e muitos pesquisadores ainda nos vejam assim. A visão freudiana do papel da mulher parece ainda preponderar e pairar por aquilo que é publicado em nossa língua. Não quero negar o papel da psicanálise no desempenhar de papéis profissionais, mas esta visão está um bocado ultrapassada. O mal estar não está apenas na cabeça do pesquisador que escolheu este tema para sua análise da feminilidade. Está contaminando todas as partes da sociedade brasileira e portuguesa. Nós não temos só depressão, anorexia e TPM. Mulheres também bebem (oh! Tabu!), usam crack (embora na literatura ainda se encontre que as mulheres só iniciam o uso de drogas através dos parceiros) e tem psicoses (não apenas puerperais).
Passei então a me lembrar de como comecei minha carreira. Quando escolhi fazer a especialização em psiquiatria tive que aguentar meus colegas de medicina (turma de 25 homens, 15 mulheres) a brincar que eu iria abandonar a medicina e que psiquiatria era profissão de loucos. A chefe do departamento de psiquiatria da universidade (sim! Uma mulher!) causava muito espanto nestes meus colegas. Solteirona, fumadora compulsiva (dentro da sala de aula), de voz rouca e já em seus 60 anos, ela inspirava autoridade só de entrar no ambiente. Mesmo dentro de minha família pude observar os olhares atravessados quando dizia que queria ser psiquiatra (Só um adendo: nunca em minha infância fui atendida por mulheres médicas. Cresci em uma família que acreditava que médico bom era homem).
Quando comecei a residência, esta mulher chefe da disciplina era um monumento ao poder feminino por si só. Ela praticamente havia fundado o departamento junto com outro colega e tive a oportunidade de entrevistá-la sobre o assunto (talvez um dia escreva sobre isso). Infelizmente, tive muito pouco contato com ela, pois adoeceu gravemente e teve de se afastar.
Durante os plantões que fazia como residente, passava muito do tempo na sala dos plantonistas do Pronto Socorro de Clínica Médica, pois amigos meus faziam a residência nesta área e trocávamos informações e companheirismo. Não só isso: não existe maior concentração de fofocas por metro quadrado do que em uma sala de plantonistas de um hospital. Qualquer que seja o hospital, qualquer que seja a disciplina. E mais uma vez, ouvia as opiniões sobre o papel da mulher (especialmente na psiquiatria) e as piadinhas machistas de sempre. Era impossível não cair no escrutínio dos colegas, que faziam perguntas sobre a vida sexual de um e de outro no departamento (ainda com aquela visão antiga da psicanálise contaminando sua ideia dos psiquiatras). Todos éramos loucos por escolher aquela profissão e as mulheres (claro) eram lésbicas (as mais poderosas) ou prostitutas. Nada era dito às claras, apenas insinuações. Hoje fico chateada por não ter protestado contra estes rótulos mais energeticamente, mas ainda era verde na profissão e na personalidade.
O tempo passa e mudo para Portugal. E, como no Brasil, o país ainda tem uma visão um bocado provinciana da mulher. No mestrado, diversas alunas residentes (internas) em psiquiatria rapidamente ganharam apelidos de fufas (gíria portuguesa para lésbicas). Sempre a questão sexual. Sim, porque uma mulher poderosa, que escolhe trabalhar nesta área só pode ter mesmo um falo (simbólico) ou ser uma devoradora de homens.
Não quero que pense que escrevo como vítima de discriminação (embora sim, tenha sofrido como tantas outras). Apenas penso que, agora com o distanciamento que tenho, vejo que ainda há muito a se trilhar na questão do papel da mulher nas sociedades de língua portuguesa. A sociedade inglesa também não é perfeita, mas esta análise não é sobre ela. É sobre minha pátria e minha cultura. Quem sabe um dia eu não pesquise no google sobre “mulheres na psiquiatria” e alguém escreveu uma tese historiográfica que traça o caminho das mulheres na profissão da psiquiatria, seja em Portugal ou no Brasil (ou Angola, ou Moçambique, etc..)? Nós contribuímos com muito mais para este ramo da ciência do que fornecer amostras de conversões histéricas para que Charcot iniciasse seus estudos sobre a histeria. É hora de sermos reconhecidas por isso.
PS: não desisti de escrever sobre o papel das psiquiatras na história da profissão. Vou preparar um post sobre o assunto e publicar posteriormente.
PPS: Achar uma foto para ilustrar este post foi dificil. Uma busca pelos termos women psychiatrist no google images só traz fotos de pacientes ou cartoons nos quais o médico é um homem e a mulher está no divã. Há um trocadilho ingês para mostrar nossos pré-conceitos no assunto:
"A man and his son were in a car accident. The man died on the way to the hospital, but the boy was rushed into surgery. The surgeon said “I can't operate, for that's my son!” How is this possible?"
PPPS: mesmo filmes que trazem a mulher como psiquiatra acabam numa hipersexualização da personagem (como Mr. Jones, no qual a terapeuta se envolve com Richard Gere, o paciente).
PPPPS: Quando liguei para minha família para informar que estava grávida e que já havia marcado minha primeira consulta, a primeira coisa que ouvi foi "o ginecologista é homem?" Não era nem homem e nem médico. Minha primeira consulta foi com uma enfermeira-parteria (midwife).
Notícias em psiquiatria
Friday, 5 March 2010
Estas vieram de Portugal:
Vendas de sedativos baixaram
Estudo aponta para redução doconsumo de remédios para o sono
Jornal de Notícias
05/03/2010
Poupança do doente na mão dos médicos
Preços de referência para calcular comparticipações vão baixar 30%
Jornal de Notícias
05/03/2010
Legislação para casos de bullying existe faz falta é prevenir
Jornal de Notícias
05/03/2010
Estas são do clipping de notícias da ABP
Por que os sintomas da esquizofrenia surgem após a adolescência?
Há tempos médicos se perguntam por que a esquizofrenia geralmente começa a manifestar os sintomas na passagem entre a adolescência e a fase adulta
Veículo: Ciência Diária
Seção: Medicina
Data: 03/03/2010
Antidepressivos na gravidez e na amamentação: tomar ou não tomar?
Ser mãe é padecer no paraíso, mas para quem tem depressão o preço a ser pago pelas delícias da maternidade pode ser bem maior
Veículo: Uol
Seção: Ciências e Saúde
Data: 03/03/2010
Biblioterapia: Por que hábito de leitura faz bem à saúde
Biblioterapia é um termo criado por médicos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial
Veículo: Vya Estelar
Seção: Medicina Complementar
Data: 04/03/2010
Depressão: Alastra-se a doença da alma
Uma tristeza que não passa e que se associa, muitas vezes, a sentimentos de desvalia e ideias de culpa e inutilidade
Veículo: Jornal O Informativo do Vale
Seção: Especial
Data: 03/03/2010
Vigilantes poderão ter avaliação psicológica obrigatória
A medida é para evitar que efeitos psicológicos interfiram no exercício profissional do vigilante
Veículo: Expresso MT
Seção: Política
Data: 26/02/2010
Estar casado pode ser o melhor para a saúde mental
O casamento pode reduzir os riscos de depressão e distúrbios da ansiedade, segundo estudo da Universidade de Otago, na Nova Zelândia
Veículo: Paraná on-line
Seção: Colunas
Data: 26/02/2010
Wii diminui depressão em idosos
Prática de "exergames" melhoraram humor e saúde mental de pessoas entre 63 e 94 anos
Veículo: R7
Seção: Tecnologia e Ciência
Data: 25/02/2010
Soneca melhora capacidade cerebral de absorver informações
Pesquisadores americanos afirmam que o hábito de dormir fora do horário noturno melhora o rendimento do cérebro ao limpar o espaço destinado à memória de curto prazo
Veículo: O que eu tenho?
Seção: Home
Data: 03/03/2010
Maridos hostis e antissociais contribuem para o aumento dos sintomas de depressão em esposas
No mundo todo, o número de indivíduos que sofrem de transtornos depressivos tem aumentado
Veículo: Uol
Seção: O que eu tenho?
Data: 26/02/2010
Labels: benzodiazepinicos e sedativos, depressão distimias e disforias, distúrbios do sono, esquizofrenia e psicose, medicina do trabalho e psiquiatria, psiquiatria da mulher, terapia
Mãe a tempo integral ou mulher de carreira?
Monday, 1 March 2010
De acordo com resultados da The British Social Attitudes Survey (BSA), jovens mulheres inglesas preferem abdicar de carreiras para ficar em casa e criar os filhos. A BSA é uma pesquisa conduzida anualmente no Reino Unido pelo National Centre for Social Research desde 1983. Os resultados da última edição foram liberados há 15 dias pelo pesquisador principal, Geoff Dench. A ampla pesquisa inclui tópicos como opiniões políticas e confiança no sistema de governo, saúde, educação, pobreza, meio-ambiente, raça, religião, liberdades civis, imigração, sexo, entre outros. O tópico que me interessou, entretanto foi o da mudança de atitude das mulheres que agora entram no mercado de trabalho.
O mais interessante é que estes resultados surgem em um contexto político no qual o governo inglês (e isso tem acontecido praticamente em todo o mundo ocidental) tem realizado pressão constante para que jovens mães retornem ao trabalho.
Os números, entretanto, não mentem: O número de mães com crianças menores de 4 anos que acreditam que a vida familiar sofrerá se retornarem ao trabalho cresceu de 21% em 1998 para 37% em 2006. Da mesma forma, o número das que acreditam que o que as mulheres desejam é um lar e filhos cresceu de 15% em 2002 a 32% em 2006. A principal diferença, entretanto, foi no questão a respeito de mulheres e homens ter diferentes papeis na sociedade . Em 2002 apenas 2% das mulheres acreditavam que sim e em 2006, 17%.
Em entrevista à mídia inglesa, Geoff Dench resumiu seus achados dizendo que "jovens mulheres com filhos estão a voltar para os valores tradicionais da divisão de trabalho, vendo os maridos como o chefe e provedor familiar. Tem havido uma valorização de "trabalhos" tradicionais para mulheres na família e na comunidade informal." Dench também disse que a principal faixa etária que tem influenciado a mudança é a de mulheres de 18 a 34 anos, a mesma idade de suas mães e avós quando lutaram pelos direitos trabalhistas iguais aos dos homens.
Além disso, as mulheres que responderam ser as mais felizes, parecem ser as que valorizam o trabalho doméstico, mas também trabalharam fora de casa (principalmente em jornadas flexíveis de meio período).
A polêmica sobre o assunto, como não poderia deixar de ser, foi grande e imediata. Em um artigo na revista Psychologies Magazine, Louise Chunn, editora chefe escreveu: "Eu lutei pelo meu direito de ter uma carreira. Então porque minha filha que se formou em Oxford quer um homem rico para tomar conta dela?" (texto original aqui). No texto, ela escreve:
"Isso (os resultados da pesquisa) é de fato muito polêmico. E para uma mulher como eu, a editora chefe de uma revista com três filhos, é desmoralizante. (...) Eu fui mais do que feliz ao levantar a causa feminista e me tornar uma jornalista de sucesso. Eu sempre assumi que minhas filhas seguiriam meu caminho, mas a minha mais velha, Alice, de 21 anos, após se formar em Oxford, quer arrumar um trabalho mais simples até arrumar um marido. Uma parte de mim pensava que ela estava apenas e me irritar. Mas no fundo sei que ela provavelmente me observou a equilibrar trabalhos estressantes e família e achou tudo muito complicado (...) Tendo crescido a testemunhar nossas dificuldades, (a nova geração) está rejeitando nosso modelo. Talvez elas achem que tenham a liberdade de escolher apenas o melhor dos estilos de vida de suas mães e avós. Alice cresceu como uma feminista lutadora. A diferença é que ela não sente necessidade de se provar uma igual dos homens - ela sempre se viu assim."
Mais lenha na fogueira:
Um estudo recente da Universidade de Kansas (EUA) revela que as pessoas em geral não apenas preferem mães dona-de-casa à mães trabalhadoras, como filhos de mães que ficam em casa são melhor vistos. O estudo, que serviu de base a uma tese de mestrado em psicologia na Universidade, avaliou as percepções que as pessoas têm de mães e seus filhos, baseadas em seu estatus no trabalho. Os resultados evidenciaram que as pessoas tendem a desvalorizar mães que trabalham fora de casa e que elas percebem as crianças destas mães como problemáticas e difiíceis. A tese foi apresentada em janeiro na conferência Society for Personality and Social Psychology.
Segundo Jennifer Livengood, investigadora principal do estudo, pesquisas anteriores mostraram que os indivíduos tendem a gostar mais de mães donas-de-casa do que as que trabalham. Entretanto, poucos estudos avaliaram as percepções de mães que procuram um meio-termo como trabalhar uma jornada flexível ou meio-período. O experimento em questão envolveu estudantes universitários (todos solteiros), cuja grande maioria não tinha filhos (99%). Cada participante ouviu uma de 3 entrevistas de uma mãe que trabalha, uma mãe dona-de-casa e o que os pesquisadores chamaram de mãe meio-termo.
A mãe trabalhadora dizia na entrevista que voltou ao trabalho 2 semanas após o parto e trabalhava mais de 40 horas por semana. A mãe dona-de casa dizia que havia parado de trabalhar após dar à luz e a mãe meio-termo dizia ter tirado 18 meses de licença após o parto e ter voltado ao trabalho em meio-período, gradualmente aumentando sua jornada. Após a entrevista, cada participante assistiu um vídeo de uma mãe e seu filho de 4 anos a completar juntos um quebra-cabeças. Por causa da entrevista anterior, os participantes foram levados a acreditar que o vídeo era ou de uma mãe trabalhadora, de uma mãe dona-de-casa ou da mãe meio-termo. Os participantes então preencheram um questionário que avaliava suas percepções da mãe e da criança (questões como "ela faz um bom trabalho como mãe" e "a criança é bem comportada", além de um questionário que avaliava suas percepções do relacionamento mãe-criança (se eles trabalhavam bem juntos).
Os achados evidenciaram que os participantes não diferenciaram entre a mãe dona-de-casa ou a mãe meio-termo, mas que eles desvalorizavam a mãe trabalhadora em comparação. Além disso, os participantes apresentaram muito mais percepções negativas das crianças e do relacionamento das mães trabalhadoras com seus filhos. Outros achados indicam que os participantes percebem crianças de mães que trabalham como tendo mais problemas de ajustamento e comportamentais e que seu relacionamento é mais frio e problemático.
E o que tudo isso faz neste blog? Acontece que no momento encontro-me em uma encruzilhada da minha vida. O apelo de uma vida familiar tranquila, a cuidar dos filhos pequenos até seus 5 anos de idade, pelo menos, e das tarefas domésticas está a bater em minha porta. E sinto a ressonância dos achados do estudo. Depois de cruzar meio mundo pela minha carreira, estudar e trabalhar diariamente até as 23:00h, viver a solidão de um exílio auto-imposto como sacrifício maior pelo conhecimento, encontrar-me agora em período sabático a curtir uma gestação é uma grande mudança. A culpa pelo fato de estar em casa no momento e não trabalhando é lidada com horas de educação médica continuada e na composição deste blog. A culpa de estar pensando em voltar ao trabalho o mais cedo possível após o nascimento do bebê ainda é pequena, mas sei que vai crescer. Nenhuma decisão foi tomada ainda. Mas as culpas já lá estão, a me amarrar a uma situação, como no conto popular do burro que morreu de fome entre dois montes de feno, sem saber qual comer primeiro.
Acredito que não só eu me encontro numa encruzilhada, como também a sociedade com sua mudança de valores também está indecisa. Durante 20 anos a cartilha dizia que deveríamos sim vencer a todo custo e sacrifício, e o único objetivo era usar sapatos de salto e roupas caríssimas para uma reunião de negócios na qual deveríamos nos sentar na cabeceira. Agora o pêndulo social parece vergar em direção oposta.
Talvez mais do que nos sentirmos obrigadas a trilhar um caminho ou outro, nós temos a ESCOLHA e não a OBRIGAÇÃO de sermos donas-de-casa ou mulheres de carreira. Pode até ser possível termos as duas opções, como indica o estudo de Livengood. O que importa é que hoje possamos trilhar um caminho que venha de encontro às nossas opções e valores sem sermos julgadas a todo instante pela sociedade. Talvez esta seja uma visão um bocado utópica, mas prefiro pensar que no final das contas, a escolha é apenas minha e de minha família. E isso sim, considero avanço social.
Referência:
National Centre for Social Research. British Social Attitudes 26th Report. http://www.natcen.ac.uk/study/british-social-attitudes-26th-report
Kansas State University (2010, February 18). People not only judge mothers based on work status, but also judge their kids. ScienceDaily.
Fotos:
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Pelofobia
Saturday, 27 February 2010
Artigo da Revista Época de 24/02/2010 Texto original e foto podem ser conferidos aqui.
Pelofobia
As mulheres não se permitem mais pelos em lugar nenhum do corpo. Por quê?
Ivan Martins
É editor-executivo de ÉPOCA
Em primeiro lugar, me desculpem pela ausência da semana passada. Eu fui viajar no Carnaval, voltei na tarde de quarta-feira (17) e não consegui escrever a coluna em tempo. Quem esperava ler e não leu tem direito de ficar chateado.
A parte boa da ausência é que durante a semana sem escrever eu me dei conta de um assunto óbvio, importante, que está ao nosso redor o tempo todo e que me deixa meio indignado – e sobre o qual nunca tinha me ocorrido escrever.
Estou falando de pelos. De depilação. Da forma meio amalucada como as mulheres brasileiras parecem se relacionar com esse aspecto da anatomia delas.
Conto uma história: dias atrás, escolhíamos aqui na revista uma foto para ilustrar a reportagem sobre as mulheres que se deixam fotografar nuas por alguma causa nobre ou pelo simples prazer de exibir seus corpos diante das lentes.
Uma das possibilidades era ilustrar a reportagem com a imagem de uma mulher jovem, meio gordinha, de rosto bonito e seios grandes, fotografada pelo americano Matt Blum para o Nude Project – uma coletânea mundial de nus de mulheres anônimas, normais, sem maquiagem ou correção digital. Vejam o site e vocês irão entender. É bonito.
Bem, a moça estava fotografada da cintura para a cima, com uma das mãos atrás da cabeça, e embaixo do seu braço esquerdo se via... um delicado tufinho de pelos.
Vocês não imaginam a confusão que aquilo causou. Exceto por mim e pelo editor de fotografia – o André Sarmento – todos ao redor achavam a foto impublicável. Abominável, na verdade.
Final da história: André e eu fomos voto vencido e a foto não saiu.
Como uma espécie de vingança – e parte do argumento – ofereço a imagem para que vocês mesmo julguem:
Não sei qual é a opinião de vocês, mas eu tenho a minha: pelos, no Brasil, viraram motivo de histeria.
Na minha geração, que se tornou adolescente nos anos 70, as pessoas já gostavam de pernas lisas e de axilas desfrutáveis – mas hoje em dia vigora uma verdadeira pelofobia.
As mulheres não se permitem mais ter pelos em lugar nenhum, em quantidade alguma. Das sobrancelhas ao períneo, tudo tem que estar liso como vidro, deserto como a superfície da Lua – sem as crateras, de preferência.
Quanto tempo se passou desde que a Vera Fischer posou nua exibindo uma versão louro-acastanhada da floresta amazônica? Quantos anos transcorreram desde que pelinhos para fora do biquíni deixaram de ser a coisa mais sensual que se podia ver em Ipanema? Foi ontem que eu vi Julia Roberts aparecer numa cerimônia publica com pelos nas axilas?
Julia Roberts, aliás, me lembra o mundo externo ao Brasil, onde as coisas não são como aqui.
As mulheres europeias – bonitas, sensuais, interessantes – não seguem o código da pele estéril.
Antes de sair a passear, numa noite de verão, elas depilam as axilas para se exibirem num vestido sem mangas. Mas essas mesmas mulheres, em outras circunstâncias, não hesitam em levar um homem para casa por causa de alguns pelos no corpo. Sobretudo aqueles pelos que os homens gostam (ou gostavam...) de descobrir.
Claro, me dizem, é cultural. As mulheres no Brasil gostam de andar sem pelos. Mas seria assim tão simples? Eu não acho.
Acredito que essas estéticas “perfeccionistas” (meu termo favorito é onanistas) têm sido impostas às mulheres brasileiras – e de uma forma muito pouco sutil.
Por causa das revistas de mulheres peladas, por causa de fotos das artistas de TV e do cinema – todas profissionais do corpo, não esqueçam – as mulheres normais foram sendo pressionadas, nos últimos 10 ou 20 anos, a cuidarem do próprio corpo como trabalhassem em boate.
Acho, inclusive, que essa última onda depilatória radical – que as próprias mulheres afirmam ser dolorosa, degradante, cara e terrivelmente trabalhosa – decorre recentemente da popularização dos filmes pornôs.
Em que outras circunstâncias se encontram mulheres totalmente preparadas para a micro-exploração minuciosa e impiedosa das câmeras?
Essa não é uma estética normal e nem muito menos lógica, mas assim é tratada quando se tenta discutir os assunto com as próprias mulheres e com os homens mais jovens, educados esteticamente pelos filmes da Sasha Gray.
Mas quem diz que um púbis sem pelos é mais bonito que um púbis com pelos? Quem diz que um tufo de pelos em baixo do braço é “nojento”? De onde veio essa ojeriza?
Para mim, isso tudo parece uma deformação, um exagero, uma burca ao inverso que as garotas assumem (ou vestem) como se fosse a coisa mais natural do mundo.
A lavagem cerebral está completa quando a exigência deixa de ser imposta de fora (pelos homens, pela moda ou por quem quer que seja) e passa a ser uma demanda interior das próprias mulheres, que já não se imaginam ou se toleram de outra forma que não seja ultradepiladas. Então passam a policiar as outras, transmitindo “a doença” de uma forma epidêmica.
Se algumas delas está fora do padrão vai ser olhada de lado não apenas pelos homens (supostos beneficiários finais da coqueteria feminina), mas sobretudo pelas próprias mulheres, as fiscais mais exigentes do corpo e do comportamento umas das outras.
O resultado disso é uma onda crescente de insegurança íntima: será que eu estou depilada o suficiente, ou pintada o suficiente, ou magra o suficiente, ou bronzeada o suficiente, ou durinha o suficiente para provocar o desejo dos homens e a aprovação das outras mulheres?
Parece um pesadelo, e é.
Ao falar sobre isso, uma amiga me disse que abomina essa coisa dolorosa da “depilação íntima” e que adora a estética triangular dos pelos pubianos, mas que a cada dia se sente mais sozinha na sua delicada convicção. Está virando um dinossauro – ou seria um mamute, peludo e extinto? – num mundo de coquetes histéricas.
E não se trata só de pelos. Uma das minhas colegas de trabalho que faz parte da geração mais atingida por essa onda de perfeição (a das mulheres que ainda não fizeram 30 anos) me contou que uma ex-chefe a achava relapsa por não fazer as unhas toda semana...
Por comparação, acho que vale a pena olhar para o que acontece no mundo masculino.
Há uns tantos homens que estão raspando o peito, fazendo a sobrancelha e depilando a barba – além de se submeterem a sessões cada vez mais longas de musculação, em busca do corpo perfeito. Muitos chegam a fazer plásticas.
Mas essa não é a lógica dominante.
Os homens, na sua absoluta maioria, continuam peludos, barrigudos, carecas, barbados e fora de forma.
Somos feios, somos baixinhos, somos magrelos, somos gordos. E assim somos aceitos. E assim somos amados. E assim vivemos: sem nos submetermos à tirania do gosto alheio, sem termos feito uma única sessão de depilação.
Há algo a ser aprendido com essa diferença, não?
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras.)
Notícias em psiquiatria
Tuesday, 23 February 2010
Do clipping da ABP
Depressão gestacional pode ter relação com comportamento violento dos filhos
Crianças cujas mães sofreram de depressão durante a gravidez são mais propensas a desenvolver comportamentos antissociais, incluindo mais casos de violência na vida adulta
Veículo: Uol
Seção: O que eu tenho?
Data: 21/02/2010
Déficit de atenção ainda é problema subestimado
As vendas de metilfenidato - medicamento indicado para o tratamento TDAH – saltaram quase 80% entre 2004 e 2008, segundo a Anvisa
Veículo: Veja On-line
Seção: Saúde - Notícia
Data: 19/02/2010
Transexualismo é retirado de lista de doenças mentais na França
O transexualismo não é mais considerado uma doença mental na França, primeiro país no mundo que o retira da lista das patologias psiquiátricas, segundo um decreto publicado no "Diário Oficial" de quarta-feira (10)
Veículo: Folha Online
Seção: Equilíbrio e Saúde
Data: 13/02/2010
A vida com altos e baixos
Formas mais leves e crônicas de transtornos de humor, distimia e ciclotimia costumam ser confundidas com jeito de ser do paciente e demoram a ser diagnosticadas
Veículo: Folha de São Paulo
Seção: Saúde
Data: 18/02/2010
Famosos ajudam a combater estigma de doenças mentais, dizem médicos
O novo blog não pretende decifrar sintomas, nem explorar a vida privada dos artistas e sim informar e educar a população para vencer o estigma das doenças mentais.
Veículo: Bol
Seção: Ciência
Data: 18/02/2010
Entenda o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
O transtorno obsessivo-compulsivo conhecido por muitos como TOC, é um transtorno mental bastante comum, acomete aproximadamente uma em cada *40 ou 50 pessoas
Veículo: Vya Estelar Seção: TCC
Data: 19/02/2010
Fobia de dentistas: má saúde bucal pode ser reflexo de problemas familiares
Crianças e adolescentes com medo intenso de dentistas normalmente têm famílias problemáticas
Veículo: Uol
Seção: O que eu tenho?
Data: 19/02/2010
Chocólatras: é possível ser viciado em chocolate?
Os chocólatras de plantão podem confirmar: é comum correr atrás de uma barra desse doce vício quando se está em determinados estados emocionais
Veículo: Uol
Seção: O que eu tenho?
Data: 19/02/2010
Quando o sexo vira obsessão
Compulsões: Há pessoas que nunca ficam saciadas, independentemente do quanto repetem aquilo que lhes dá muito prazer. Limite entre o saudável e o doentio nem sempre é claro
Veículo: O Tempo
Seção: Interessa
Data: 21/02/2010
Quando a pessoa quer, é possível
O compulsivo sexual pode buscar satisfação em qualquer atividade que esteja relacionada ao tema sexual
Veículo: O Tempo
Seção: Interessa
Data: 21/02/2010
"Ele age com crueldade, tem prazer em ver a vítima sofrer"
Suspeito não atua por impulso, é organizado e evita deixar pistas
Veículo: O Tempo
Seção: Cidades
Data: 07/02/2010
Labels: anti-social, depressão distimias e disforias, fobias e compulsões, psiquiatria da infância e adolescência, psiquiatria da mulher, psiquiatria forense, sexologia, Transtorno obsessivo compulsivo
A construção da dignidade depois do abuso moral e sexual
Sunday, 21 February 2010
A coluna de Cristiane Segatto de 19\02 é tão boa que não tenho como não partilhar neste blog. A lição de vida e a leveza com que ela trata da questão do abuso e da necessidade de acreditarmos em nós mesmos é majestosa.
Recomendo a leitura. Texto original neste link. Abaixo a transcrição.
Às garotas preciosas de todo lugar
A construção da dignidade depois do abuso moral e sexual
Cristiane Segatto - Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo
Preciosa é obesa mórbida, negra e praticamente analfabeta aos 16 anos. Vive no bairro do Harlem na Nova York dos anos 80. É violentada pelo pai – com o conhecimento da mãe – desde a primeira infância. Quando engravida dele pela segunda vez, é expulsa da escola. A mãe a escraviza e a submete a sucessivas agressões físicas e morais enquanto vive de papo pro ar, às custas do “vale-pobreza” que recebe do governo.
É interpretada com competência pela estreante Gabourey Sidibe (Preciosa) e pela versátil Mo'Nique, uma comediante que executa com brilhantismo o papel dramático da mãe cruel.
Assisti ao filme na segunda-feira (15) apesar dos muxoxos do meu marido. Em pleno Carnaval, ele queria uma historinha mais leve. O filme é perturbador. Não tanto pelas cenas de indignidade explícita, mas pela consciência de que elas acontecem na vida real e estão se repetindo agora mesmo, em todo lugar. No país mais rico do mundo, no Brasil, na África...em todo canto.
O filme foi baseado no livro Preciosa (Editora Record), escrito em 1996 pela americana Sapphire e que agora chega ao Brasil. Ela trabalhou num abrigo de mulheres no Harlem e conhece de perto a realidade de quem nunca teve direito à autoestima. Mas há saída para garotas como Preciosa. No filme, ela é salva pela educação. Numa escola alternativa de nome sugestivo – Each one teach one (cada um ensina um), ela encontra uma professora engajada e, finalmente, aprende a ler e escrever.
A professora induzia as meninas a produzir diários. Pedia que elas contassem tudo. Qualquer coisa. Sempre. Toda anotação era valorizada. O importante era que elas lessem e escrevessem. A dignidade de Preciosa é construída conforme ela progride nas letras. Existe uma boa palavra em inglês para expressar transformações desse tipo. É empowerment. Depois de receber atenção e acreditar em seu próprio potencial, Preciosa se torna poderosa, toma as rédeas da própria vida. Percebe que é capaz de viver com dignidade, criar os dois filhos e deixar o passado no passado.
Sempre me emociono com histórias assim. Choro mesmo. Meu marido já sabe e respeita meu sentimento. Choro de emoção porque sei que personagens como a professora de Preciosa não são meros recursos de cinema para comover multidões. Choro porque sei que professores anônimos, que amam e honram a profissão, estão por toda parte. Fazem um trabalho de formiguinha – salvam uma vida aqui, outra ali. No conjunto, dão um futuro a milhões de brasileiros.
Passei a infância e a adolescência numa escola pública na Freguesia do Ó, um bairro de classe média baixa de São Paulo. Lembro até hoje da desesperança de um certo professor de Matemática. Ele dizia que, em vez de ir à escola, deveríamos catar papel na rua e vender. Segundo os cálculos estreitos dele, não teríamos a menor chance no mercado formal de trabalho. Nenhuma outra ocupação, portanto, poderia nos render mais dinheiro. Talvez ele pensasse que muitos de nós teríamos sucesso no mundo do crime. Mas isso ele jamais teve coragem de dizer.
Enquanto o professor de Matemática nos imputava sua visão mesquinha, o de Literatura nos apresentava o mundo. Com ele aprendi a ser curiosa, a garimpar informação, a perceber que a literatura é o maior patrimônio da humanidade. E a ter certeza de que o conhecimento é capaz de nos levar aonde quisermos.
Se hoje sou jornalista foi porque não acreditei no professor de Matemática. Fui salva pelo de Literatura. Há alguns anos, procurei saber por onde andava o professor Fernando Freire, que não via desde 1985. Descobri que está aposentado e vive num sítio na região de Guaratinguetá, no interior de São Paulo. Continua sendo um leitor compulsivo. Lê de tudo. Da Revista Tititi a James Joyce. Fiquei surpresa quando disse, orgulhoso, que acompanha o meu trabalho. Chorei sem parar quando a mensagem dele surgiu no meu Orkut: “Leio todos os seus artigos. Me encantam a precisão, a objetividade e a secura. Não há firulas. Continue assim. Estou te acompanhando pari-passo”.
O estímulo de um bom professor é capaz de promover mudanças gigantescas. De ordem pessoal e social. Por muito tempo achei que eu era uma das únicas almas salvas por Fernando. Estava redondamente enganada. No perfil dele no Orkut, encontrei 360 mensagens. A maioria de ex-alunos que nunca se esquecerem do mestre. Agradecem por terem aprendido a amar os livros. Muitos progrediram nos estudos e na escala social. Encontrei ali psicólogos, professores universitários, dentistas, jornalistas, advogados, uma diplomata.
Depois de plantar tantas sementes, Fernando se dedica hoje a outro tipo de cultivo. Está empenhado em ajudar a reflorestar a Mata Atlântica e se encanta com as mudas raras que tem conseguido semear. Esse homem é ou não é um exemplo?
Professores são, muitas vezes, as principais referências de comportamento social e intelectual que as crianças e os adolescentes podem ter. Se os mestres forem inspiradores, os alunos (pelos menos os mais interessados) se tornam capazes de superar grandes adversidades.
A essa altura, querido leitor, você deve estar se perguntando por que estou falando tanto sobre educação se o tema da minha coluna é saúde. Foi exatamente a pergunta da minha filha de 9 anos quando lhe disse que a coluna desta semana seria sobre o filme Preciosa. Por favor, não desista. Estou chegando lá. A educação é um fator primordial na construção de dignidades. Mas não é o único. Outro eixo importante é a saúde. Os professores e os profissionais de saúde são grandes construtores de cidadania. Eles é que reerguem pessoas que, de outra forma, não teriam a menor perspectiva de levar uma vida digna. Eles fazem o tal empowerment.
O posto de saúde costuma ser o primeiro (às vezes, o único) lugar onde as vítimas de abuso moral ou sexual se sentem acolhidas. É ali que encontram gente capaz de ouvir, de orientar, de mostrar a luz. Se os profissionais de saúde tivessem que dar conta apenas das doenças do corpo, a vida deles seria fácil. No entanto, lidam frequentemente com a violência doméstica, com todo tipo de dominação emocional e material que afetam a alma. É um trabalho dificílimo, mas muitas vezes recebem trapos humanos e conseguem devolver gente à sociedade.
Tive uma amostra disso em janeiro. Estava de férias em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Minha filha pegou a tal virose que levou tanta gente ao hospital. Fomos parar no Pronto-Socorro de Boiçucanga. Ela precisou receber soro. Passei um dia inteiro nessa unidade do SUS e pude acompanhar um pouco dos dramas que a equipe enfrenta ali.
Na cama próxima à da minha filha estava uma moça franzina de 20 anos. Estava casada há apenas uma semana. O marido, violento, a submetia a empurrões, safanões, ameaças pelos motivos mais fúteis. Pela descrição que ouvi, é um sujeito possessivo, que se acha dono da mulher. Na véspera, ele a ameaçou com uma peixeira. Ela pulou da janela do primeiro andar e foi parar no hospital.
Tinha a expressão apática. Não demonstrava raiva ou indignação. Passivamente se submetia à insanidade alheia. Fiquei com a impressão de que ela já havia entrado num processo de dependência emocional, sexual e material que minava sua autoestima. A mãe tentava tirá-la da resignação dizendo que ela precisava se separar daquele homem, que aquele casamento havia sido um erro e tudo mais que uma mãe pode dizer numa hora dessas. Nada parecia surtir efeito.
O que mais me impressionou foi a atitude da enfermeira. Havia vários pacientes ali e ela cuidou de todos com atenção. Mas dedicou tempo e paciência tentando ajudar aquela moça a se ajudar. Conversou muito, com paciência e firmeza. Aconselhou-a a dar um basta, a denunciar aquele homem, a se reerguer. Suspeito que nesse caso específico, o esforço dela não surtiu resultado. Mas certamente já fez diferença em outros casos e continuará fazendo.
O americano Lee Daniels dedicou seu filme às garotas preciosas de todo lugar. Dedico essa coluna ao professor Fernando Freire, às enfermeiras do Pronto-Socorro de Boiçucanga e aos tantos profissionais anônimos que, neste exato momento, estão construindo dignidades por esse Brasil afora.
Gravidez, maternidade e falhas de memória
Friday, 19 February 2010
Se você já esteve ou está grávida, ou se já conviveu de perto com alguma grávida sabe que, depois das náuseas, insônia e outras queixas físicas comuns deste período, a principal queixa psicológica neste estágio é "esquecimento". Muitas mulheres (eu inclusive) notam que a mente não funciona como antes e é frustrante procurar (e não achar) as chaves do carro, a bolsa, os óculos, o sapato que tinha acabado de separar para usar ("mas eu acabei de vê-los!") entre outros. Não faz nem uma semana que, ao guardar as compras do supermercado, coloquei o pacote de ervilhas congeladas no armário dos cereais matinais e foi sorte meu marido tê-las encontrado lá, pois eu não tinha ideia do que tinha feito.
Por isso fiquei um pouco surpresa quando li o estudo de Christensen et al. Cognition in pregnancy and motherhood: prospective cohort study, no número de fevereiro do British Journal of Psychiatry. Os pesquisadores encontraram que gravidez e maternidade não são as causas dos lapsos de memória e outros problemas cognitivos, como comumente aceito.
Embora muitos livros sobre gravidez e até mesmo alguns estudos respaldem o "esquecimento da gravidez", os pesquisadores australianos notaram que estas conclusões estavam em desacordo com estudos em animais, que muitas vezes mostram que aprendizado e memória chegam a melhorar quando as fêmeas estão prenhas. Christensen escreveu que "Isto nos sugeriu que os efeitos da gravidez e maternidade nas habilidades cognitivas podem não ter sido adequadamente testados". As principais falhas encontradas nos estudos em humanos foram falta de testes de memória anteriores à gravidez para se conseguir uma linha de base para avaliação; amostras muito pequenas; e falta de um follow-up suficientemente longo.
No estudo em questão, os investigadores avaliaram mulheres que participavam de um largo estudo baseado na comunidade em 1999 que investigava a saúde e bem -estar da população. As voluntárias foram submetidas a uma bateria de testes cognitivos em intervalos de 4 anos (2003 e 2007).
1241 mulheres (20-24 anos) foram testadas em 1999 para prover uma linha base. Após 8 anos de estudo, 76 mulheres estiveram grávidas durante os testes de follow-up em 2003 ou 2007. 188 se tornaram mães mas não estavam grávidas no momento da entrevista. Apenas grávidas e mães de primeira viagem foram incluídas no estudo.
Não houve diferenças significativas entre as grávidas, as que se tornaram mães ou as mais de 500 que não tiveram filhos durante o curso do estudo. A gravidez avançada esteve associada a pior performance em testes de velocidade mental, mas além disso não foram encontradas outras diferenças substanciais.
E como fica a impressão que temos de que a nossa memória diminui proporcionalmente ao aumento de nossa circunferencia abdominal? Li recentemente uma entrevista (acho que foi no The Times) com a Dra. Helen Christensen, investigadora principal do estudo. Ela acredita que os lapsos que apresentamos durante a gravidez podem ser explicados por uma das duas hipóteses: Os lapsos podem ser tão simplesmente semelhantes aos que qualquer um apresenta no dia-a-dia, mas como estamos grávidas ou temos filhos pequenos, e estes estão muito presentes em nossas vidas, estamos condicionados ou acostumados a culpá-los pela falta de memória. Outra hipótese é que os testes utilizados não foram suficientemente sensíveis para detectá-los, embora a Dra. Christensen não ponha fé nesta hipótese.
E você? O que pensa? Concorda com os achados do estudo?
Christensen, H., Leach, L., & Mackinnon, A. (2010). Cognition in pregnancy and motherhood: prospective cohort study The British Journal of Psychiatry, 196 (2), 126-132 DOI: 10.1192/bjp.bp.109.068635
Cartoon: http://3.bp.blogspot.com/_VVDiIOygGlA/Sai91i3aBZI/AAAAAAAAAAw/qJ1Pt-mmWeA/s320/Cartoon.jpg
Labels: jornais e periódicos científicos, psiquiatria da mulher
Violência contra a mulher
Tuesday, 2 February 2010
Um anúncio da organização Women's Aid, que luta contra a violência contra a mulher foi de certa forma "banido" por ser considerado muito violento. No vídeo contra a violência doméstica de 2 minutos a atriz Keira Knightley é vista sofrendo brutal assalto por seu parceiro. O vídeo é denominado "Cut movie - isn't it time someone called cut?" (Será que alguém não deveria dizer "Corta!"?)
Em uma entrevista, Keira Knightley disse: “I wanted to take part in this advert for Women’s Aid because while domestic violence exists in every section of society, we rarely hear about it. We may not think we know someone who has experienced domestic violence, but this does not mean that it is not happening. Domestic violence affects one in four women at some point in their lifetime and kills two women every week.
Ainda sobre as bonecas vivas
Tuesday, 26 January 2010
Depois de ter escrito o último post sobre as bonecas vivas (mulheres pasteurizadas na aparência e hipersexualizadas, que só veem como objetivo na vida aparecer na capa da playboy) lembrei-me de um fato e um filme que recomendo.
Quando ainda estava no curso de medicina tive uma longa discussão com um colega que adorava pornografia. Ele possuía uma vasta coleção de dvds e assinava praticamente todos os canais fechados da tv a cabo. Lembro-me de discutir os possíveis efeitos psicológicos que os atores (tanto homens quanto mulheres, mas estas principalmente) poderiam sofrer a longo prazo ao exercer aquela profissão. Este meu colega não aceitava este argumento de forma alguma e dizia acreditar que trabalhar como prostituta ou como atriz pornô era na maioria das vezes uma escolha pessoal, como ele lia ou via nas entrevistas com os atores no final dos dvds ou nas entrelinhas das revistas.
É claro que discutimos longamente sobre o assunto e imagino que, se ele ainda se lembra desta discussão, deve ter se sentido vingado quando Bruna Surfistinha lançou o livro "O Doce Veneno do Escorpião", no qual relata sua vida como prostituta.
Eu, entretanto, segui os caminhos da psiquiatria e diversas vezes consultei prostitutas e garotos de programa (ativos ou aposentados) que apresentavam desde quadros mais leves de angústia e culpa a sérios transtornos mentais.
Não vou contar mais nada para não estragar e fica a recomendação. Acho que deve ser um bocado difícil encontrar o filme para comprar em DVD, mas as antigas locadoras de vídeo dispõem de cópias. A peça Nuts, a play in three acts está disponível para compra em diversos sites.
Foto: http://en.wikipedia.org/wiki/Nuts_(film)
Labels: psiquiatria da mulher, psiquiatria no cinema, sexologia
Bonecas vivas
Natasha Walter é uma feminista inglesa que no final dos anos 90 fez parte do grupo de pensadores do movimento Lipstick Feminism (Feminismo de Batom) que se empenhou em desafiar os estereótipos feministas. Vem daí diversos pensadores que de certa forma viram suas idéias de poder da mulher culminar no seriado americano Sex and the City. O argumento era de que, sim, uma mulher poderia se vestir e portar como uma top model e ser uma feminista, sim, ela poderia casar-se de branco e comprar pornografia e continuar a ser feminista.
No seu novo livro, lançado este mês, Living Dolls: The Return of Sexism, Walter admite que estava enganada. Ao invés de uma geração de mulheres fortes e confiantes em sua emancipação sexual, o que temos hoje é uma nova raça de bonecas afeminadas: bonecas hipersexualizadas, que cresceram em uma dieta de roupas cor-de-rosa das princesas da Disney, que se sentem poderosas por fazer parte de modas como cursos de strip-tease e até mesmo prostituição. Seu mundo é um de promiscuidade, assédio sexual e mal gosto erótico, recheado de cirurgias plásticas, no qual aspirar a ser capa da Playboy é o objetivo máximo da carreira.
Embora Walter escreva sobre a cultura inglesa, a ressonância do outro lado do Atlântico (seja nos EUA, de onde tirou inspiração; seja no Brasil, que sofre com a cultura do culto ao corpo) é impecável.
Abaixo a transcrição de uma pequena parte de seu livro. A tradução é minha. Para ler em inglês, clique aqui
A noite começa na discoteca Mayhem no Southend (em Londres). Por volta de doze garotas, todas de shortinhos e saltos altíssimos, com bronzeados artificiais e cabelos brilhantes e alisados abrem seu caminho em direção a um grupo de homens que estão em volta de uma grande cama vazia. O trabalho deles é escolher qual delas deve entrar para a competição "Bonecas na Cama". Das centenas de mulheres selecionadas para posar nas camas por discotecas em todo o Reino Unido para esta competição, a uma seria dado um contrato para ser modelo da revista Nuts (uma publicação masculina). "Eu quero ser escolhida para deixar minha mãe orgulhosa" diz Lauren, em shorts justos e um top amarelo.
Uma mulher mais carnuda em soutian e calcinha foi uma das primeiras a retirar o soutian e mostrar seus seios para as câmeras. Conforme o desfile torna-se mais sexual, com as roupas sendo retiradas da pele jovem das adolescentes, os homens no clube começam a cantar e a se aproximar cada vez mais do palco. Muitos usam seus celulares (telemóveis) para filmar e fotografar as garotas. (...) A lista final é rapidamente apresentada - apenas as mulheres que mostraram os seios ou os fio-dentais para o público são chamadas novamente.
Como eu testemunhei por mim mesma o evento na discoteca Mayhem, qualquer um pode assistir, em qualquer clube do país, a imagens que uma geração anterior veria como degradantes para mulheres, sendo agora demonstradas como brincadeiras e até mesmo vocações.
Por mais de 200 anos feministas têm criticado as imagens artificiais de beleza feminina, que são impostas como um ideal ao qual as mulheres devem aspirar. De "A Vindication of The Rights of Woman" de Mary Wollstonecraft em 1972 a "The Beauty Mith" de Naomi Wolf em 1991, mulheres brilhantes demandam a mudança destes ideais. Entretanto, ao invés de desaparecerem, estes ideiais estão mais poderosos do que nunca. Mais ainda, por toda nossa sociedade, a imagem de perfeição feminina, a qual as mulheres são encorajadas a aspirar, são mais e mais definidas pela linha sexual.
É claro que o desejo de ser sexualmente atrativo sempre foi e sempre será um desejo natural, tanto para os homens quanto para as mulheres. Mas nesta geração, uma verta visão da sexualidade feminina tornou-se celebrada e ela é determinada pelos termos da indústria do sexo. O que isso quer dizer é que ser sexy - magra com grandes mamas em exibição - vem do fato de que a indústria do sexo saiu das margens para o centro da nossa sociedade. Isso é graças ao surgimento das modelos de revistas masculinas, ao súbito crescimento dos clubes de strip-tease nos centros das cidades, uma nova moda de dança da barra (ou pole dance), à popularidade das biografias de prostitutas, que sugerem que vender sexo é uma grande maneira de uma mulher ganhar a vida; e sobretudo, à maior onipresença da pornografia nas vidas de muitos jovens, trazida principalmente pela internet.
(...) Posar para revistas masculinas é visto por muitos que participam da indústria como um marcador não de sexismo persistente mas da confiança da nova mulher. Esta equação de poder e liberação com objetificação sexual é vista por toda parte e está a ter efeitos reais nas ambições de jovens mulheres.
Ellie é uma mulher bem educada e articulada, educada em colégios particulares e uma boa universidade, que foi criada para acreditar que poderia ser o que quisesse profissionalmente - advogada, médica, figura política.
Entretanto, ela escolheu ser atriz. Mas quando os empregos estavam difíceis e ela se encontrou financeiramente desesperada, ela tomou um atalho aos 20 anos de idade, e aceitou trabalhar em um clube de strip-tease e lapdancing em Londres. Ela não achava, a princípio, que o trabalho seria difícil. Ela havia recebido mensagens da nossa cultura de que lapdancing era bastante simples e que dava poder às mulheres.
"As pessoas dizem isso, não é?", ela disse. "Existe um mito de que as mulheres expressam sua sexualidade livremente desta forma e que pode-se ganhar muito dinheiro com isso, que nós temos o poder sobre os homens que estão pagando".
Entretanto não foi isso que ela encontrou. Ela ficou chocada ao descobrir o quão o trabalho era humiliante e degradante. No contexto do clube, as mulheres são mais bonecas do que pessoas.
"Você se parece com uma caricatura. Você escolhe um nome bem feminino, como uma boneca. Você é encorajada a parecer-se com bonecas. Não é surpresa que os homens não vejam que você é uma pessoa."
(...)
Em 2006 uma pesquisa realizada em meninas adolescentes sugeriu que mais da metade delas consideraria ser modelo de revistas masculinas. O crescimento da cultura em que tantas mulheres sentem que sua capacidade é medida pelo tamanho de suas mamas parece ter surgido do nada. (...) Muitas jovens mulheres parecem acreditar que confiança sexual é o único tipo de confiança que se deve ter e que confiança sexual só pode ser obtida se uma mulher está disposta a se conformar com a imagem pornô-soft de uma garota jovem bronzeada, depilada e de seios grandes. Se a confiança sexual pode ser obtida de outras formas ou se outros tipos de confiança são importantes são temas que esta cultura obcecada pelo sexo não se importa em discutir.
(...)Pesquisas atuais demonstram que quase três quartos das adolescentes estão insatisfeitas com sua forma corporal e mais de um terço estão em dietas. Um estudo demonstrou que mesmo entre meninas de 11 anos de idade, uma em quatro está tentando perder peso; outro mostrou que a maioria das meninas de seis anos prefeririam ser mais magras do que são.
Os sites de relacionamento formam uma parte intrínseca de quase todas as jovens e eles se definem em uma auto-imagem cuidadosamente apresentada, que frequentemente se conforma com a estética desenhada pelas imagens semi-pornográficas que elas encontram na sua cultura.
"Todas elas tiram fotos umas às outras", a mãe de uma adolescente me disse, "E são muito frequentemente de conteúdos provocativos e sexuais. Estas garotas de 11 e 12 anos de repente parecem-se com garotas de 16 anos que estão a se vender para sexo."
Se esta sexualização precoce de mulheres jovens fosse sobre sua liberação e elas estivessem no controle, nós não veríamos grandes números de mulheres que dizem se arrepender de suas primeiras experiências sexuais. Mas como o número de jovens garotas sexualmente ativas aumentou, também aumentou o número de garotas que se arrependem.
Em um estudo realizado em 2000, 80 por cento das garotas que fizeram sexo entre 13 ou 14 anos se arrependeram. Já que uma em quatro garotas fazem sexo antes dos 16 anos, isso é um bocado de arrependimentos.
Emoções e sexo estão divorciados para as jovens mulheres, que se vêem em somente em termos de seu próprio apelo sexual. Eu conversei com um grupo de adolescentes que sumarizaram a visão do sexo partilhada por jovens mulheres. "Nós estávamos a conversar que uma destas semanas, deveríamos todas sair e tentar arrumar tantos amantes quanto possível, com a maior variedade possível - idade, sexo, emprego, vida familiar..." disse Ruby.
Ao contrário de se sentir isoladas pelo seu desejo pela promiscuidade, estas garotas levam a peito a forma em que a cultura ao seu redor reflete e reforça este comportamento. Elas gostam do mundo sexualmente explícito em que vivem. Neste universo, a mulher de suceso é aquela que prioriza a perfeição física e silencia qualquer desconforto que esteja a sentir sobre isso.
Esta mulher objetificada, tão frequentemente celebrada como a mulher ou namorada do homem heróico, ao invés de heroína de sua própria vida, é a boneca viva que substituiu a mulher liberada que deveria estar a viver no século 21. E isso é uma tragédia.
Living Dolls, Natasha Walter
Custo médio £12.99, 273 páginas, pode ser adquirido na Amazon.
Fotos:
http://tvpeloespectador.blogspot.com/2009/12/filme-sobre-bruna-surfistinha-tera.html
http://veja.abril.com.br/170101/imagens/especial12.jpg
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Labels: psiquiatria da mulher, psiquiatria transcultural e antropologia, sexologia
A cultura da sub-lebridade
Monday, 25 January 2010
Nos últimos anos temos assistido ao constante extermínio da celebridade (aquele indivíduo que apresenta talento fora do comum e cuja fama se espalha nacionalmente ou globlamente) e à ascenção de um novo tipo de indivíduo para preencher este vácuo: a sub-lebridade.
As sub-lebridades são caracterizadas por possuírem muito pouco talento, desfilarem quase nus assim que os flashes disparam e\ou por terem ficado "famosos" por namorar (ou tentar namorar) um jogador de futebol. Esta cultura da sub-lebridade parece ter proliferado no início deste século, com o lançamento da "televisão realidade" e programas de "entretenimento", como o Big Brother Brasil e o ápice da cultura de tirar a roupa para revistas masculinas (que parece ter se tornado objetivo principal de muitas meninas hoje em dia).
Despidos de talento, beleza ou charme, as sub-lebridades criaram uma indústria de comportamentos extravagantes realizados com o único objetivo de mantê-los na mída. E é claro que a cada manchete ou foto em primeira página, as extravagâncias se superam, tornando-se cada vez mais bizarras.
Assim, no Brasil, temos uma tal de Ângela Bismarchi, cujo único feito na vida é realizar o máximo de cirurgias plásticas possíveis para aparecer na mídia durante o carnaval. Geyse da Uniban, que depois de desfilar semi-nua pelos corredores de uma universidade (e quase ser linchada injustamente por causa disso) agora vai desfilar em escola de samba e parece ter um empresário para lidar com sua "agenda". Seguem-se os diversos seres humanos de papel dos reality shows brasileiros, que demonstram a profundidade psicológica de um pires de café e passam o dia a discutir a sexualidade alheias e fofocas. Sem contar a nova geração de "atores" (claro que exceções estão em ordem), escolhidos pelas suas características físicas e não pela sua capacidade lírica. Em geral, eles não fazem nada, não dizem nada e, de fato, carecem virtualmente de qualquer característica de apelo público.
Angela Bismarchi, que "orientalizou" os olhos com cirurgia plástica para combinar com sua fantasia de carnaval.Mas, o mais triste de toda esta cultura é a obsessão de tantas meninas novas que lutam para emular suas divas. Se Paris Hilton dança semi-nua sobre uma mesa na discoteca, milhares seguem seus caminhos. Se Britney Spears cai e vomita bêbada na sarjeta, há uma fila de meninas a imitá-la; e todas querem ter o tamanho recomendado de mamas para saír no carnaval (extra grande). "Se é normal para elas, é normal para nós também...."
Para melhor exemplificar o texto, deixo-vos com uma história que tem movimentado a mídia de celebridades na última semana:
Heidi Montag tem 23 anos e ficou "famosa" ao participar do reality show The Hills, da MTV. Na última semana seu nome apareceu em diversos meios devido a decisão de se submeter a 10 intervenções plásticas no mesmo dia e de modificar completamente seu rosto e corpo (na tenra idade de 23 anos).
Um especialista em vícios das celebridades assim descreveu os procedimentos de Heidi Montag:
"O que ocorreu aqui é o que eu chamo de travestismo da mulher. Em outras palavras, uma mulher quer acentuar sua femilidade, se tornar uma boneca Barbie - e isso sempre me preocupa. Isso geralmente sugere um trauma mais significativo. E ao invés de procurar ajuda, ela se submete a isso..."
O assunto da cultura da boneca Barbie e suas implicações na feminilidade hoje merece um post por si só, que escreverei brevemente.
Fotos: http://oglobo.globo.com/fotos/2008/02/04/04_MVG_rio_angela.jpg
http://www.payer.de/arbeitkapital/arbeit308237.gif
http://perezhilton.com/2010-01-14-heidis-new-boobs-are-huger-than-huge
Labels: psiquiatria da mulher, psiquiatria transcultural e antropologia
Notícias em psiquiatria
Monday, 28 December 2009
Mulheres na pós-menopausa têm mais distúrbios do sono
Diagnosticado com Parkinson há 19 anos, Michael J. Fox diz ter sorte
Labels: neurologia, psiquiatria da mulher, psiquiatria na midia
A terceirização da maternidade
Wednesday, 2 December 2009
Este post é de autoria de Tata, autora e colaboradora do blog "Mamíferas", que discute assuntos da maternidade.
Muito embora não seja específico da psiquiatria, o post dela trata da família e comportamento, temas que sempre permeiam qualquer discussão sobre o comportamento e mente humanos.
O blog é excelente e recomendo a visita, pois discute desde o incentivo ao parto normal (de preferência ao parto natural) e à amamentação.
No último domingo, jantando em um restaurante para comemorar o aniversário do marido, me espantei com o número de famílias com uma composição estranha: mãe + pai + bebê (com idades que variavam de poucos meses até uns três anos) + babá.
A cada nova família que chegava, eu ficava mais incomodada. O casal sempre vinha na frente, às vezes conversando entre si, outras vezes nem isso. Logo atrás, vinha a babá, com a criança no colo, ou segura pela mão. A criança nunca vinha com a mãe, com o pai. Sempre com a babá, que na maioria das vezes vestia branco e não merecia dos patrões sequer um "por favor" ou "obrigado", quando solicitada.
Juro que tento, mas não consigo entender essa nova ordem familiar, tão comum nos dias de hoje. Contratar uma babá para estar com a criança enquanto trabalhamos, ou precisamos nos ocupar de outras coisas, eu posso compreender. Eu mesma, no primeiro ano das minhas filhas mais velhas, tive em casa uma senhora, de toda confiança e que até hoje trabalha conosco - mas hoje cuida da casa, e não das meninas - , para me ajudar com elas, quando eu saía para ir à faculdade, ou para que pudesse me concentrar em algum trabalho. Mas era isso, uma ajuda para os momentos em que eu não podia me dedicar inteiramente a elas. Uma ajuda esporádica, não uma presença constante.
A situação me lembrou uma conversa que acompanhei em uma lista de discussão, uns três anos atrás, e que me causou a mesma estranheza: o debate se dava entre mães que discutiam como lidar com a "babá folguista". A babá folguista, termo que eu desconhecia e que aprendi o que significa nessa discussão, é a babá que trabalha quando a outra folga. Finais de semana, feriados, férias. Nesses momentos, a babá folguista ocupa o lugar da 'oficial'.
'E quando esses pais ficam com seus filhos?', vocês se perguntam. E eu respondo: não ficam. São pais que levam babás e cuidadores sempre à tiracolo, seja no dia-a-dia de obrigações cotidianas, seja nos momentos de descanso e lazer. São pais que curtem o almoço sem pressa no restaurante que custa os olhos da cara, enquanto a babá 'folguista' distrai a criança na área de recreação. São mães que ficam em casa, ou vão fazer as unhas e a escova da semana, enquanto as babás levam as crianças para 'socializar' no playground do condomínio, ou na pracinha mais próxima.
Nessa discussão que citei, lembro de ter ouvido um argumento que me deixou, sem exageros, horrorizada. Era uma mãe dizendo que não vivia sem babá folguista, porque queria ter alguém pra fazer o "trabalho sujo". O tal 'trabalho sujo', para ela, era dar banho, dar comida, trocar fraldas, colocar para dormir. Não pude evitar pensar para quê uma pessoa assim decide ter um filho.
Ter filhos, para mim, não é apenas a parte 'glamourosa'. Não é escolher a roupinha mais bonita, o sapato novo da marca A ou B, levar na festinha e aparecer bonita na foto. A relação com nossos filhotes se faz no dia-a-dia, e se fortalece nas dificuldades. Nas noites sem dormir, no cansaço imenso ao final de cada dia, nos momentos de dúvida, de questionamento. Ter filhos não é cor-de-rosa, não é comercial de margarina. Mas não é pra ser.
Ter alguém para ajudar aqui e ali é uma coisa, é legítimo e eu compreendo. Mas o que vejo é algo bem diferente. Vejo mães e pais que não conhecem seus filhos, que perguntam às babás de que eles gostam e como preferem isso ou aquilo. Vejo mães e pais que, sem a triangulação da relação, não sabem lidar com seus filhos, e se vêem paralisados diante das dificuldades. Vejo mães e pais passando procuração, terceirizando a criação de suas crianças, deixando que eles cresçam à sua revelia, sem conhecê-los, sem criar laços.
Acho tudo isso muito, muito triste. Porque se de um lado estão os pais e mães, perdidos em suas próprias rotinas, dificuldades e compromissos inadiáveis, de outro lado estão pequenas criaturas, inocentes e entregues, ávidas por um amor intenso e inteiro, incondicional como só uma mãe e um pai podem oferecer. E o vazio que se estabelece é imenso, e talvez irreversível.
Olho pelas minhas pequenas, e reconheço a beleza da nossa relação. Que não é perfeita, mas é inteira, e é nossa. Construída a quatro mãos, dia após dia. Seja como for, errando aqui e ali, corrigindo a rota de vez em quando, caminhamos juntas.
No final das contas, talvez seja isso o mais importante: estar junto, tropeçando, caindo de vez em quando, quebrando a cara, seguindo em frente e rindo de tudo no final das contas. Mas junto.
***Para finalizar:
A autora citou a importância da triangulação no desenvolvimento da criança. Ela não é psicóloga ou psiquiatra mas compreendeu a importância da família nuclear no desenvolvimento psicológico na infância. Lógico que, dentro do possível, a família nuclear, com o Édipo ou Electra adequadamente resolvidos é o melhor que se pode esperar na criação do filho\a.
Um outro post descreve isso de forma mais precisa.
Labels: psiquiatria da infância e adolescência, psiquiatria da mulher, psiquiatria transcultural e antropologia
GRAVIDOREXIA – Passando fome por dois
Tuesday, 24 November 2009
A gravidorexia tem estado cada vez mais em evidência devido às mamães célebres e famosas com barriguinhas perfeitas, como Nicole Kidman em 2008 e Nicole Richie em 2007 e neste ano, que se assustam com a palavra calorias e sacrificam-se em regimes de exercícios durante toda a gravidez. Nestes casos, o objetivo não é perder o peso o mais rápido possível mas nem mesmo ganhá-lo desde o princípio.
Transtornos alimentares podem surgir a qualquer momento na vida da mulher e a gravidez, com a ansiedade e mudanças hormonais típicas do período, pode causar por si só ou agravar um quadro de anorexia ou bulimia. Estas mulheres necessitam de tratamento especializado e terapia. O que se tem observado no caso da gravidorexia, entretanto, não é exatamente um cluster de pacientes mas uma moda, como tantas outras, que pode trazer prejuízos à mulher e ao bebê.
Um bebê busca no corpo da mãe os nutrientes que necessita. Se as reservas da mãe estão baixas, pode haver problemas como anemia, depleção de cálcio (responsável pela formação dos ossos) e risco de se dar à luz a um bebê de baixo peso, que pode levar a problemas futuros para a criança como doenças cardíacas, depressão e retardo do desenvolvimento cognitivo.
A gravidorexia é um fenômeno que está a ser alimentado pela crescente indústria da “moda da maternidade”. Enquanto nossas mães desapareciam felizes e alegres sob roupas de grávidas largas e confortáveis nos anos sessenta e setenta, as grávidas de hoje vêem a sua disposição uma enorme opção de escolha desde desenhos de estilistas famosos a roupas que rapidamente os copiam nas lojas de classe média.
Além das gravidoréxicas típicas, um fenômeno similar está a acontecer após o nascimento do bebê. Mulheres desesperadas para recuperar suas figuras pedem, ou por lipoaspirações no mesmo tempo cirúrgico da cesariana, ou entram em rotinas extenuantes de exercícios e dietas no pós-parto. Nos EUA uma entrevista recente com a apresentadora de TV Liz Fraser causou polêmica: Fraser, que estava ao vivo para promover seu novo livro “Yummy Mummy”, que trata de mães que rapidamente perdem o peso após o parto para ficarem “mamães gostosas” admitiu que sofreu de um transtorno alimentar durante a gestação. Diversos telespectadores protestaram contra o que consideraram “hipocrisia” ao se tentar vender um livro que na verdade divulgava sua doença.
Independentemente do motivo por trás da divulgação da moda das “mamães gostosas”, esta é uma moda cruel na formação da nova família. O leite materno é altamente influenciado pela qualidade da alimentação da mãe. Mulheres que fazem dietas radicais e estão a amamentar consequentemente fazem com que seus bebês também sofram. Mesmo para aquelas que optaram por não amamentar seus bebês (apesar de todas as indicações médicas atuais que sublinham a amamentação como a melhor opção para mães e bebês), a rotina de exercícios físicos extenuantes aos quais as mulheres se impõem pode prevenir a criação de laços de afeto com os recém-nascidos. Ao invés da mamãe descansar e dedicar seu tempo ao bebê, ou ela está na academia com o personal trainner, ou cansada e irritada devido ao baixo aporte calórico.
A lista de celebridades a povoar as capas de revistas mostrando seu corpo enxuto até dez dias após dar a luz continua a crescer. Especialistas ainda debatem se as gravidoréxicas e “mamães gostosas” estão a aumentar devido à divulgação extensa por parte da mídia e das revistas de fofocas. Sabe-se que este fenômeno ocorre com anoréxicas e bulímicas, que usam fotos de celebridades e modelos magérrimas como gatilho e estímulo para iniciar ou manter seus comportamentos. Ainda é cedo para se afirmar o mesmo em relação às grávidas. Entretanto, há razões para suspeiras: nunca a indústria do culto à celebridade e à “fama pela fama” foi tão forte e esta tendência coincide com a atual mentalidade da dieta e boa forma a todo custo. A moda dos bebês acessórios (que preferencialmente devem estar vestidos com a última moda em Paris, e combinar com o esquema de cores da roupa da mamãe) objetifica o recém-nascido e torna mais fácil a ruptura do laço afetivo pela busca narcísica da beleza exterior o mais rápido possível. O bebê passa a ser mais uma engrenagem na maquinaria consumista atual.
Como médica, devo concluir dizendo que a questão do peso e da vaidade devem, como quase tudo na vida, estar em equilíbrio. Todos os conselhos médicos válidos até hoje sobre o assunto, sejam em grávidas, crianças ou outros proclamam a perda de peso lenta e regular associada a exercícios físicos moderados e diários como a opção mais saudável. Dietas da moda, dietas rápidas ou planos de exercícios que mais parecem uma sessão de tortura medieval não trazem prazer e podem causar consequências graves à saúde. Retornando às celebridades que mais estimulam os comportamentos descritos neste texto, Nicole Richie (filha do cantor Lionel Richie e queridinha das fashionistas e da indústria do emagrecimento) esteve na mídia neste ano não só por não adquirir peso ideal na gravidez mas por perder todo o peso extra em duas semanas após o parto (9kg em 14 dias). Há menos de dez dias Richie esteve novamente na capa dos jornais, desta vez por ter sido hospitalizada com uma grave pneumonia. A infecção (típica em adultos imunodeprimidos) pode não ter nada a ver com seu emagrecimento súbito ou seu constante estado subnutrido. Mas o princípio lógico da Navalha de Ockham, aprendido nos primeiros anos do curso de medicina, nos diz que “a explicação mais simples é sempre a mais lógica”.
Nicole Richie no pós parto (à esquerda) e grávida de seu segundo filho
Labels: anorexia; bulimia e transtornos alimentares, psiquiatria da mulher, sexologia






















