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Transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM)

Monday, 23 November 2009


Continuando o tema do primeiro post sobre o assunto, este é destinado a explicar melhor o que é a TPM e o que é o TDPM.
A TPM é bem conhecida e pode ser entendida rapidamente com uma visita à Wikipedia:
"A tensão pré-menstrual (conhecida pela sigla TPM) é uma síndrome que atinge as mulheres e que ocorre, em maior ou menor grau, nos dias que antecedem a menstruação. Ela se caracteriza por uma irritabilidade e ansiedade mais acentuadas, bem como manifestações físicas, como por exemplo dor nas mamas, distensão abdominal e cefaléia. Decorre da retenção de sódio e água ."

O Transtorno Disfórico Pré Menstrual (TDPM) é uma forma mais grave da TPM, que afeta de 3 a 8% das mulheres. A principal característica do TDPM é a severidade dos sintomas, que podem causar disfunção física, psíquica ou emocional. Nestes casos o tratamento é recomendado pois o TDPM interfere com a habilidade da mulher de funcionar socialmente ou no trabalho. Os principais sintomas, como na TPM incluem (mas de forma mais severa):
  • sentimentos profundos de tristeza ou desepero, com possível ideação suicida
  • tensão ou ansiedade extremas
  • ataques de pânico
  • diarreia
  • alterações do humor, choro
  • irritabilidade ou raiva persistentes que criam conflitos interpessoais - tipicamente as mulheres não percebem o impacto que o transtorno tem nos familiares e amigos próximos
  • apatia ou desinteresse em atividades de vida diária
  • infecções por cândida (sapinho) - Candida albicans
  • dificuldades de concentração
  • fadiga
  • insônia ou hipersonia
  • inchaço
  • palpitações
  • dores nas mamas
  • dores de cabeça, nos músculos ou articulações
Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Psiquiátrica Americana (1994), os critérios para o transtorno são os seguintes:


A. Os sintomas devem ocorrer durante a semana anterior à menstruação e remitirem poucos dias após o início desta. Cinco dos seguintes sintomas devem estar presentes e pelo menos um deles deve ser o de número 1, 2, 3, ou 4:

1. Humor deprimido, sentimentos de falta de esperança ou pensamentos autodepreciativos.
2. Ansiedade acentuada, tensão, sentimentos de estar com os “nervos à flor da pele”.
3. Significativa instabilidade afetiva.
4. Raiva ou irritabilidade persistente e conflitos interpessoais aumentados.
5. Interesse diminuído pelas atividades habituais.
6. Sentimento subjetivo de dificuldade em se concentrar.
7. Letargia, fadiga fácil ou acentuada falta de energia.
8. Alteração acentuada do apetite, excessos alimentares ou avidez por determinados alimentos.
9. Hipersonia ou insônia.
10. Sentimentos subjetivos de descontrole emocional.
11. Outros sintomas físicos, como sensibilidade ou inchaço das mamas, dor de cabeça, dor articular ou muscular, sensação de inchaço geral “e ganho de peso”.

B. Os sintomas devem interferir ou trazer prejuízo no trabalho, na escola, nas atividades cotidianas ou nos relacionamentos.

C. Os sintomas não devem ser apenas exacerbação de outras doenças.

D. Os critérios A, B, e C devem ser confirmados por anotações prospectivas em diário durante pelo menos dois ciclos consecutivos.


Tratamento

Em geral mudanças no estilo de vida como dieta e exercícios podem melhorar alguns sintomas. Alguns antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina (ISRS) parecem melhorar o quadro: fluoxetina, sertralina, paroxetina e escitalopram. Para muitas mulheres, o uso de métodos hormonais que suprimem os períodos menstruais, seja o Dispositivo Intra Uterino (DIU) hormonal, os implantes hormonais ou pílulas contraceptivas que devem ser tomadas por tempo indeterminado produzem alívio ao impedir as oscilações hormonais.

Para ler mais: celebridades brasileiras que sofriam com a TPM e usam hormônios contraceptivos de longo prazo. Reportagem da revista Veja de agosto de 2000.
Escolha polêmica. Suspender a menstruação tem sido uma alternativa para tratar doenças e evitar a TPM - Reportagem do Estado de São Paulo de 15 de Abril de 2006.


Referências:

ResearchBlogging.org

American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder. Washington DC: American PSYCHIATRIC ASSOCIATION PRESS, 2004.

HALBREICH, U. (2003). The prevalence, impairment, impact, and burden of premenstrual dysphoric disorder (PMS/PMDD) Psychoneuroendocrinology, 28, 1-23 DOI: 10.1016/S0306-4530(03)00098-2 

Rapkin & Winer. Premenstrual Syndrome and Premenstrual Dysphoric Disorder: Quality of Life: Etiology of PMS/PMDD and Comorbidity With Psychiatric and Medical Disorders. Medscape Today.
 
Valadares et al. Transtorno disfórico pré-menstrual revisão – conceito, história, epidemiologia e etiologia. Revista de Psiquiatria Clínica 2006, vol.33, n.3, pp. 117-123.
Jornal Brasileiro de Psiquiatria
 
Vieira & Gaion. Impacto da síndrome pré-menstrual no estado de humor de atletas. J. bras. psiquiatr. vol.58 no.2 Rio de Janeiro 2009.

Meus períodos menstruais quase acabaram com meu casamento: uma mulher revela como a TPM a deixou tão irritável que seu casamento ficou em frangalhos

My periods nearly killed my marriage: A woman reveals how PMS made her so volatile it put a strain on her relationship



By Keris Stainton
Publicado no jornal Daily Mail e traduzido por mim. 

Last updated at 7:50 AM on 23rd November 2009

Esparramada no chão da sala de visitas, exausta e com olhos vermelhos após discutir por horas com meu marido David, tanto ele quanto eu tivemos o suficiente. Era o mesmo cansativo argumento, o que vínhamos tendo diversas vezes por anos, mas desta vez algo havia mudado.

Desta vez David mencionou divórcio. A briga começou inocentemente - como sempre começava - quando notei que ele havia gasto mais de £150 no supermercado, em ítens que mal poderíamos pagar. Eu gritei, acusando-o de ser irresponsável e incapaz - ou somente indesejoso - de se comunicar comigo. Ele rebateu dizendo que eu estava "histérica" e exagerando como sempre. Nossas brigas sempre começavam com algo pequeno - mais comumente problemas financeiros - mas algumas vezes eram porque eu sentia que David não fazia qualquer esforço com minha família ou havia sido rude com um dos meus amigos. Tudo isso continuaria em crescendo em uma série de queixas que, se tomadas individualmente, não eram nada em especial, mas coletivamente sugeriam que eu tinha cometido um terrível engano e nunca deveria ter-me casado com ele.

As brigas tornaram-se mais frequente após o nascimento de nosso primeiro bebê. Quando Harry estava com dois anos, David e eu nos preocupamos o suficiente para marcar uma consulta com Relate.

Parecía-nos um passo na direção certa e uma última tentativa, mas achamos a sessão humilhante. Eu falei sobre minha vontade de que David crescesse e assumisse maior responsabilidade por suas ações e problemas familiares, como pagar as contas e a manutenção da casa. Eu me contorci enquanto ele dizia que ele frequentemente agia "de forma passiva agressiva ou coisa do gênero" e que tentaria mudar. Foi como se ele estivesse apenas a listar frequentes acusações que joguei a ele sem realmente as entender.

Quando David entendeu que não era eu mas a TPM que me deixava daquele jeito, ele passou a tomar meus ataques de forma menos pessoal. Ele pareceu confuso sobre porque nós estavamos em terapia. Eu me sentia entre frustrada porque ele não conseguia ver que tínhamos um problema e culpada porque talvez ele verdadeiramente não visse. E mesmo assim as brigas continuavam, seguindo o mesmo repetitivo enredo. Ou pelo menos elas continuaram até aquela noite quando, em lágrimas no chão, David sugeriu que talvez era melhor que nos separássemos. Eu me surpreendi ao ver-me tão devastada com a ideia do fim do casamento. Não era aquilo que eu queria? Não tinha eu pensado que o divórcio era inevitável?


Não, apesar do fato de que era eu que sempre iniciava as brigas, descobri que mal conseguia tolerar pensar em separação. Na maior parte do tempo nós estavamos OK, eu dizia a mim mesma - eu teria apenas que aprender a não deixar pequenas coisas nos incomodar tanto. Não ser tão controladora.


Dias depois, ao contar a uma amiga quão ruim as coisas entre nós estavam, eu fiz uma referência ao David e ao meu período menstrual quando uma luz se acendeu. Quando olhei para nosso relacionamento, notei que as brigas aconteciam praticamente todos os meses. No mesmo período. E foi então que finalmente entendi que o problema não era resultado de um acúmulo de pequenas irritações que finalmente se tornavam grandes demais para segurar, mas que era todo hormonal. Nossas brigas sempre - sim, sempre - aconteciam na semana anterior á minha menstruação.Fique maravilhada quando fiz a conexão mas, ao pensar sobre o assunto, nós dois deveríamos ter visto já que só brigávamos - não discussões, mas brigas mesmo - uma vez por mês.


Eu havia notado um padrão similar no relacionamento com nosso filho: uma ou duas vezes notei que estava com pouca paciência para com ele, a pensar que não conseguiria tolerar tudo - isso aconteceu uma vez por mês também. De repente eu havia somado dois e dois. Minha amiga Laura concordou, dizendo que ela e seu marido discutiam frequente e ferozmente por mais ou menos seis meses antes de notarem que aquilo acontecia a cada quatro semanas, regular como um relógio.
"Na manhã depois da briga, surpresa!, lá estava minha menstruação", ela disse.


Há muito tempo que sei da Síndrome da Tensão Pré-Menstrual ou TPM - a ideia de uma mulher brava com seu marido, desejando chocolate e comprando incontrolavelmente uma vez por mês se tornou piada fácil há tempos - mas o que eu não sabia era que todas as mulheres experimentam a síndrome de alguma forma nas duas semanas antes da menstruação.


Para uma em 20 mulheres a TPM é severa o suficiente para causar disfunção das suas atividades normais e da qualidade de vida, frequentemente causando tensão com seus familiares e amigos. Para os que estão de fora, como maridos ou parceiros, a TPM pode ser difícil de distinguir de ansiedade e depressão, enquanto a mulher se sente abandonada.

Mais de 150 sintomas foram atribuídos à TPM, desde alterações do humor, perda da confiança, sensação de estar emocional, irritável, agressiva ou com raiva - não é surpresa que relacionamentos fiquem desgastados. O que torna tudo mais difícil é que, para a maioria das mulheres, a TPM é um segredo que vivemos, mas nunca conversamos sobre ela.


As mudanças físicas - que incluem dores de cabeça e enxaqueca, inchaço abdominal, seios doloridos e até mesmo asma - são mais fáceis de se identificar pois podem ser debilitantes. Surpreendentemente, apesar de mais de 80 por cento das mulheres em idade fértil sofrerem de algum dos sintomas da TPM, pouco é conhecido sobre sua causa ou o tratamento mais eficaz.

A maioria sofre em silêncio todos os meses e muitas - como eu mesma - podem nunca ter notado que têm a síndrome. Não entender o que está acontecendo pode levar a aumentados níveis de ansiedade e deixar familiares confusos e irritados pelo comportamento incaracterístico da parceira.

Incrivelmente, suprimir a condição ainda é o único meio de lidar com a TPM. Prevenção e eliminação são praticamente impossíveis. "As causas exatas da TPM são desconhecidas" diz Michael Dooley, ginecologista da The Poundbury Clinic, em Londres. "Mas parece ser uma relação anormal entre os hormônios do ciclo menstrual e o corpo". Nove em dez mulheres apresentam sintomas de TPM e 5 a 10 por cento são seriamente afetadas, de acordo como o National Association for Pre-Menstrual Syndrome. "A TPM pode ocorrer em diferentes estágios da vida da mulher, é extremamente disfuncional e geralmente não é diagnosticada".

Eu nunca tinha notado os sintomas antes de ter tido meu filho e assumi que havia começado após o nascimento, mas Dr. Dooley acredita não ser este o caso. "Sim, a sensibilidade aos hormônios pode mudar, mas certamente não é a norma" ele afirma. "É muito mais provável que a mulher tenha estado em uso da pílula anticoncepcional, que mascara os sintomas e então elas apenas passam a ficar cientes desses quando param de tomar o contraceptivo na esperança de engravidar".

"Geralmente as mulheres podem passar muito tempo sem notar os efeitos hormonais. O primeiro passo é reconhecer que os hormônios são a causa e se notar que os sintomas não são possíveis de manejo, deve procurar ajuda". Isso inclui certas drogas como antidepressivos ou a pílula - que impede a ovulação, que se acredita ser o gatilho da TPM a cada mês. Reduzir cafeína, comer de forma saudável e aumentar a atividade física também parecer fazer a diferença. Estudos mostram que medicamentos naturais como a Erva de São João (Hipéricum), comumente utilizada para tratar a depressão, Trifoleum pratense, óleo de Oenothera e mesmo exposição à luz intensa podem ter resultados positivos no tratamento de disfunções hormonais.

De início, saber que a TPM estava por trás da raiva e da desesperança que sentia todo mês não impediu as brigas. Eu ainda ficava chateada com David pelo que parecia no momento um argumento por razões perfeitamente legítimas. Eu nunca estava ciente de que na causa da briga estava a TPM. Apenas depois da briga lembrava que não era o comportamento dele, mas minha reação a este a causa. Quando contei a David minhas suspeitas, ele foi capaz de reduzir seus ataques pessoais a mim, já que ele sabia que não era eu verdadeiramente (embora ele tenha sido sensível o suficiente para nunca dizer isso em voz alta). E finalmente, a uns meses atrás, logo após ele pagar o imposto sobre veículos sem notar antes se tínhamos dinheiro suficiente para isso, eu senti a fúria usual vir sobre mim, mas ele estava no trabalho. Então meu sentei no computador e escrevi um email. Escrevi tudo o que sempre submergia em nossas brigas, chorando enquanto digitava e sentindo, como sempre, que as coisas não poderiam continuar como estavam. O mais engraçado foi que, quando terminei de escrever o email, eu me senti bem. Não estava com raiva, não queria o divórcio e realmente não queria enviar a mensagem, salvando-a no lugar de enviá-la. Eu a li algumas vezes desde então e fico admirada de ver quão dramática e extremista ela parece, mas sei que, enquanto estive sentada a escrevê-la furiosa e chorando, que acreditei em cada palavra.

O mais estranho disso tudo é que não estava a imaginar ou criar problemas apenas para provocar uma briga com o David. Os problemas são reais, mas por três quartos do mês eles não me incomodam. Não, o David realmente não assume qualquer responsabilidade pelas contas da casa e nunca se lembra de ver quanto dinheiro temos no banco antes de gastar. Mas ele cozinha e faz a maior parte do serviço de casa, o que devo admitir, parece-me um trato justo.

O principal é que nos amamos e temos dois lindos filhos, que nos trazem imensas alegrias. Acho difícil imaginar que David e eu tenhamos considerado o divórcio, mas, ao mesmo tempo, não parece muito complicado entender porque sei quão desesperançada me sinto. Estou feliz de que os problemas tenham se resolvido antes que fosse tarde.


Para ler o artigo em inglês: http://www.dailymail.co.uk/femail/article-1230096/My-periods-nearly-killed-marriage-A-woman-reveals-PMS-volatile-strain-relationship.html#ixzz0XgAiLOPi

Para entender melhor o que é o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual, clique aqui

Psicologizando

Thursday, 19 November 2009

Este post foi retirado do site Psicologizando e Ricardo Pina, psicólogo português e dono do blog, é seu autor. Gostei muito do artigo e como tenho discutido a maternidade em uma perspectiva antropológica, vou colocá-lo aqui também.



Além deste texto, recomendo aos colegas profissionais de saúde mental a leitura do post Psicologia\Psiquiatria, no qual o psicólogo faz duras críticas (polêmicas, mas com bom fundamento) à prática psiquiátrica atual e sua relação com as demais profissões da saúde mental.

Aqui vai o texto

"A Função Materna: Perspectiva de Winnicott


A teoria psicanalítica de Donald Woods Winnicott permite que se atente para uma forma particular de compreender a constituição do ser como uma entidade unitária - «o si mesmo» -, assim constituindo uma importante mudança de paradigma em relação à psicanálise tradicional. Essa «constituição do ser» está, para Winnicott, menos ligada ao Édipo, mas fundamentalmente assente na relação de identificação primária da mãe com o seu bebé.

Assim, de acordo com Winnicott, o ser humano parte de um estado de não-integração inical, com tendências herdadas para o amadurecimento e com a necessidade de outro ser humano para esse amadurecimento ter lugar. Ele vai precisar de uma mãe-ambiente-continente que se identifique com ele e o ajude na sua integração, ou seja, a perceber-se no tempo e no espaço, reconhecendo-se no seu corpo e na realidade, permitindo uma vivência de omnipotência que é importante, neste início de vida, para combater a ameaça de falta de controle sobre o que se apresenta. A mãe, nesta fase, é um objecto subjectivo, parte do bebé, caracterizando um estado fusional ou de «dois em um». A integração, que tem início na elaboração imaginativa das funções do corpo, vai-se ampliando de acordo com os movimentos do bebé, abarcando também o seu relacionamento com o mundo externo.

Contudo, Winnicott não considerava que a possibilidade de a mãe se tornar o ambiente favorável para o bebé fosse dependente apenas de uma boa condição interna dela. Para o autor, ela precisa, também, de um ambiente que a assegure durante essa fase, o que Winnicott acreditava ser um papel paterno inicial. O pai precisa de sustentar o estado materno de preocupação, precisa de proporcionar à mãe um suporte, impedindo que ela se ocupe com coisas alheias à sua relação com o bebé.

É esse ambiente total - pai e mãe no exercício dos seus papéis - que vai permitir ao bebé o desenvolvimento do seu Eu. Ele assim vai experienciando os seus momentos de tranquilidade e impulsividade. O seu sentido de realidade vai sendo desenvolvido em função da sobrevivência repetida do objecto aos seus impulsos, o que lhe transmite a diferença entre facto e fantasia e, no seu devido tempo, entre realidade externa e interna. O bebé chega, assim, ao estádio do concernimento, no qual descobre a externalidade, percebe-se como um Eu separado de um não-Eu e começa a preocupar-se com as consequências da sua impulsividade. Somente a partir deste ponto poderá este bebé viver o complexo de Édipo, pois agora ele terá a organização interna que lhe permita experienciar a relação com um Outro."

O parto como rito de passagem

Wednesday, 18 November 2009

Devo analisar friamente o post a seguir e dizer que, devido ao fato de estar grávida, minha atenção tem sido chamada para textos que provavelmente não leria antes... Especialmente os que dizem respeito à mecanica do parto. Nunca me interessei muito pela matéria, cumprindo a carga horária necessária em ginecologia do curso de medicina sem pensar duas vezes sobre o assunto. Um colega poderia pensar "isso é negação básica", argumento com o qual deveria concordar. De qualquer forma, passeando pela blogosfera encontrei um blog (ou blogue como se escreve em Portugal) extremamente interessante que faz uma análise do parto que nunca encontrei antes. O post abaixo é retirado do Blog Barrigas e Bebés e recomendo a todos uma visita. O texto é polêmico e vale uma reflexão.



["Birth Messages"; o caso da episiotomia]

"Faz uma análise simbólica dos procedimentos de rotina do parto hospitalar, por ela denominado de modelo tecnocrático do parto. Seu objetivo é elucidar os motivos pelos quais as instituições, a despeito das contra-indicações assinaladas pelas evidências científicas, continuam promovendo o uso rotineiro de vários desses procedimentos, entre os quais a episiotomia. Eles desempenham importantes funções rituais e simbólicas, atendendo, com sucesso, a diversas demandas importantes dos profissionais de saúde responsáveis pela assistência ao parto, das mulheres em trabalho de parto e da sociedade e cultura mais abrangentes.

A episiotomia é analisada como uma mutilação ritual. A vagina, em diversas culturas, inclusive a nossa, é símbolo por excelência daquilo que é natural, sexualmente poderoso e criativo na mulher, sendo, por isso mesmo, vista como ameaçadora pelos homens. É relembrada a figura mitológica da vagina dentada, que ameaça consumir ou castrar o macho impotente. No ocidente, a crença na superioridade da cultura sobre a natureza se expressa através da metáfora, popularizada por Descartes, do corpo-máquina humano, cujo controle e aperfeiçoamento cabe à ciência. O corpo da mulher é retratado pela medicina como uma máquina inerentemente defeituosa. Os argumentos em prol da episiotomia de rotina reiteram esta simbologia ao afirmar que sua adoção protege a parturiente e seu concepto dos perigos apresentados pelo defeituoso corpo feminino. Para a autora, esse é um dos procedimentos através dos quais se 'manifesta a tentativa cultural de utilizar o nascimento para demonstrar a superioridade e controle do Masculino sobre o Feminino, da Tecnologia sobre a Natureza'. Através dessa operaçào, a vagina é desconstruída pelo médico, oficiante do rito e representante da sociedade, para ser então reconstruída culturalmente.

Ademais, a episiotomia é útil conceitualmente para a obstetrícia. Ao transformar o nascimento em um procedimento cirúrgico de rotina, legitima-se a obstetrícia enquanto ato médico, pois se incorpora à sua prática um elemento central da medicina ocidental e uma das formas mais elaboradas de manipulação do corpo-máquina humano - a cirurgia. O ápice desse processo se dá com a adoção da cesariana como procedimento de rotina, sendo o Brasil citado como ilustração."

Robbie E. Davis-Floyd, Birth as an American Rite of Passage. Berkeleyand Los Angeles, University of California Press, 1992. (Resenha assinada por Sonia N. Hotimsky, no Notas sobre Nascimento e Parto, AnoIII, nº6, novembro de 1998, publicação do Grupo de Estudos sobreNascimento e Parto / Instituto de Saúde-SES-SP).

Update: Uma colega da blogsfera, responsavel pelo blog "Vai, Carla! Ser Gauche na Vida!" e o post que adorei Mulheres: o parto é nosso, conheceu pessoalmente Robbie E Davis-Floyd e encontrei um link para sua página pessoal. Achei interessante o fato de Davis-Floyd ser antropóloga cultural e médica, temas que têm aparecido corriqueiramente neste blog.
Obrigada Carla!

Nos blogs de psiquiatria e saúde mental em Portugal

Wednesday, 11 November 2009

Estudo associa tabaco na gravidez a problemas de comportamento da criança

"Mulheres que fumam na gravidez têm maior risco de ter um filho hiperactivo e com problemas de atenção na escola, segundo estudo da Universidade de York, no Reino Unido..."

Mais sobre o estudo pode ser acessado aqui (em inglês)

Gravidez e insônia

Friday, 6 November 2009



Porque não consigo dormir?


Eu estou no segundo trimestre de gravidez e notei que de um mês para cá não consigo dormir. Eu durmo perfeitamente bem às 10 da noite, mas acordo ao redor da 1 da manhã e fico acordada por umas duas horas. De qualquer forma, quando durmo não é um sono profundo, que descansa, e tenho tido sonhos vívidos e incômodos, que me acordam. Sem contar o calor que sinto o tempo todo (na Inglaterra é outono e está 10 graus lá fora!!!).
Hoje, durante mais um dos meus episódios de insônia gravídica (como a chamo) pesquisei o que está acontecendo e fiquei surpresa de ver que de fato a insônia na gravidez é muito comum (78% das mulheres apresentam insônia e outros distúrbios do sono durante a gravidez) e não ocorre apenas no terceiro trimestre, quando ficamos grandes e desconfortáveis. Como psiquiatra nunca tratei qualquer paciente com esta queixa e imagino que muitas pacientes devem estar perdidas sem recomendações claras sobre o que fazer.
Desta forma, aqui vai um post insone sobre o assunto, resumindo as principais características e recomendações para o quadro.


Em primeiro lugar deve-se fazer uma avaliação da insônia. Ela ocorre no começo, meio ou fim da noite? Você acorda cansada pela manhã? Como se não tivesse dormido?

Causas da insônia

Ansiedade, medo, preocupações ou excitação por causa da gravidez podem fazer com que a mente "não desligue" ao irmos para a cama. Desconforto físico como dores nas costas ou nos seios ou um bebê muito ativo durante a noite também podem atrapalhar a chegada do sono. O fato de levantar a toda hora para urinar também não colabora com um sono repousante.



Recomendações

A primeira coisa a se fazer (e isso vale para todos os tipos de insônia) é parar de olhar para o relógio e ficar mais e mais ansiosa. Só se deve ir para a cama quando se está com sono e no caso de despertar, faça uma pausa, ande pela casa e só retorne quando estiver mesmo pronta para adormecer. "Forçar" o sono só deixa a pessoa mais irritada e portanto, mais alerta. Antes de dormir, para facilitar a vinda do sono, pode-se tentar técnicas de relaxamento como o relaxamento muscular progressivo ou imagens guiadas antes de apagar a luz.
Tenha certeza de que o quarto está numa temperatura confortável para dormir, bem ventilado, silencioso e escuro o suficiente. Cortinas escuras e pesadas podem ajudar a afastar luz e barulho. Se não dormires na primeira meia hora após se deitar, levante-se leia uma revista, distraia-se e só volte para cama quando estiver caindo de sono.
Evite levar qualquer coisa conectada ao trabalho para o quarto (inclusive livros para estudo) e resolva argumentos com seu marido\parceiro antes de dormir. Sexo é sempre um bom jeito de chamar o sono, por causar a liberação de endorfinas ("Hormônios de prazer").


Não se preocupe por não estar dormindo. Ficar ansiosa só exacerba o problema. Lembre-se que insônia na gravidez é comum e normal. Se, entretanto, achares que o quadro está influenciando negativamente o desempenho de atividades diárias, procure ajuda especializada.

Se possível, durma um pouco durante o dia. Se você tem crianças pequenas, tente cochilar enquanto as crianças descansam. No trabalho, pequenas pausas para ar puro também ajudam a relaxar.

Se você sofre de doenças como dores lombares ou ciáticas, síndrome do túnel do carpo ou congestão nasal, e esses quadros estão a lhe deixar acordada, fale com seu médico.

Evite estimulantes como café, chá, refrigerantes de cola (coca-cola, pepsi, etc), guaraná, álcool e chocolate durante a noite. Jante mais cedo, para ter certeza de que seu corpo terá tempo para digerir os alimentos (lembre-se que a digestão na grávida é mais lenta). Coma uma dieta variada.

Se o seu parceiro\marido a incomoda, tente usar máscaras e protetores auriculares. Considere dormir em outro quarto se a situação for grave. Um colchão desconfortável também não ajuda: colchões devem ser trocados a cada sete anos para permanecerem firmes. Se você não pode trocá-lo agora, vire-o regularmente.

Medicamentos naturais

Existe alguma controvérsia sobre os medicamentos naturais disponíveis e os estudos até hoje não chegaram a um consenso sobre o seu benefício. EVITE KAVA KAVA, que foi retirado do mercado na Europa e EUA por efeitos colaterais. Muitas pessoas usam valeriana, mas lembre-se de que a exposição ao sol quando em uso deste medicamento pode causar queimaduras em algumas pessoas.

Aromaterapia parece ser muito utilizada pelas grávidas, mas lembre-se que resultados científicos sobre sua eficácia são extremamente esparsos e duvidosos. De qualquer forma, lavanda, camomila ou ylang ylang são prescritos a 3 gotas de cada vez. Tome cuidado com a lavanda no primeiro trimestre.

Outros medicamentos

Para começar, medicamentos nunca são uma solução ideal para insônia, devido ao risco de dependência química. Na grávidez dificilmente serão recomendados pois podem fazer mal ao bebê.
Alguns medicamentos que podem ser comprados sem receita contém anti-histamínicos, que causam sonolência. Em geral não são muito efetivos e podem ter efeitos colaterais prejudiciais.
Benzodiazepinas\benzodiazepínicos somente estão disponíveis através de receita controlada. De qualquer forma, o uso de medicamentos na gravidez só deve ser realizado com autorização médica.


Não se esqueça: se a insônia for grave, fale com o seu médico. Embora muito se fale da depressão pós-parto, depressão pré-parto (durante a gravidez) não é incomum e pode ser uma das causas de insônia. No caso de depressão, um profissional de saúde mental pode encaminhá-la para o tratamento adequado e a insônia tende a resolver com a resolução do quadro depressivo.

Encerro como iniciei, com uma nota pessoal a dizer que escrever este post às duas da manhã me ajudou a passar uma hora de insônia e agora me sinto preparada para voltar para a cama!

Álcool e mulher

Wednesday, 28 October 2009

Nos últimos anos tem-se observado uma mudança dos padrões de consumo típico de álcool. Com a entrada de novas variáveis (como as bebidas desenhadas especificamente para mulheres), o início cada vez mais precoce do consumo de álcool e uma tolerabilidade social ao aumento de frequência dos episódios de embriaguês, não é surpresa que ocorra o aumento do número de mulheres a fazer uso nocivo ou  a serem dependentes químicas do álcool.

As mulheres apresentam uma facilidade inata no estabelecimento da dependência alcoólica, devido a fatores biológicos e psicológicos. Nestes últimos pode-se citar o uso de álcool como automedicação. A "forma de beber" feminina também mudou (o que antes era escondido agora é público e aceitável) leva a novas formas de aprendizagem do ciclo do ciclo de alcoolização, com alterações do comportamento social e da sexualidade.

Especificamente quando se fala de álcool e mulher não se pode deixar de mencionar os Efeitos Alcoólicos Fetais (EAF)
 EAF são todas as condições consideradas secundárias à exposição ao álcool no útero. Entre elas pode-se citar:

  • partos prematuros
  • aumento da mortalidade perinatal
  • baixo APGAR
  • atraso no desenvolvimento neuropsicomotor
  • déficit mental
  • redução da coordenação visuo-motora
  • hiperatividade e comportamento de distração
  • perturbações do sono
  • instabilidade emocional
Álcool e circulação fetal

exige 3 critérios diagnósticos:
1. Déficit de crescimento (baixo peso, microcefalia e deficiente evolução estaturo-ponderal)
2. Desordens do Sistema Nervoso Central
3. Facies característico e outras malformações fenotípicas:
  • redução das fendas palpebrais
  • epicanto e ptose
  • nariz curto com base larga
  • pequeno lábio superior
  • assimetria facial
  • testa curta e abaulada
  • malformações cardíacas e renais

O etanol e o acetaldeído atravessam livremente a membrana placentar. A sua difusão faz-se facilmente e em dependência , somente, do fluxo sanguíneo placentar, segundo um gradiente de concentração.
O álcool pode causar mais danos no estado embrionário, especialmente nos consumos por "surtos": a mulher intoxica-se no sábado, depois novamente na outra semana, etc.
Os efeitos tóxicos diretos do álcool e dos produtos derivados faz-se sentir ao longo de todo o período da gestação. Os efeitos indiretos relacionam-se aos aspectos do metabolismo da mãe alcoólica crônica (malnutrição, depleção de ácido fólico, diminuição da reserva de glicogênio, redução da circulação placentária de oligo-elementos como zinco, etc.)
A extensão e a severidade dos danos ao bebê dependem da quantidade consumida e da época da gravidez.

Síndrome Alcoólico Fetal

3 critérios:

1. Déficit de crescimento (baixo peso, microcefalia e deficiente evolução estaturo ponderal)
2. Desordens do SNC
3. Facies característico e outras malformações fenotípicas:
  • redução das fendas palpebrais
  • epicanto e ptose
  • nariz curto e base larga
  • pequeno lábio superior
  • assimetria facial
  • testa curta e abaulada
  • malformações cardíacas e renais



Álcool e amamentação

A concentração que o álcool atinge no leite é equivalente à concentração atingida no sangue da mãe. A presença do álcool inibe o reflexo de ejeção do leite e provoca alterações no odor e paladar.

Álcool e crianças

Ação direta - quando ocorre ingestão pelas crianças predominando consequências de índole biológica
Ação indireta - quando as crianças sobrem consequencias de viverem numa família na qual existe um elemento alcoólico, predominando sequelas de cariz psicológico e emocional