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Competência, capacidade e habilidade de tomada de decisões nos transtornos mentais

Monday, 9 August 2010

Princípios éticos básicos


 
Abordagem deontológica

 
Moralidade – atos corretos ou incorretos por razões intrínsecas aos mesmos, ao invés das consequências que produzem.
Immanuel Kant (1724-1804) – consequências não fazem parte do conceito de moralidade e os imperativos categóricos ditam o que se deve fazer em uma devida situação.
Haja apenas de acordo com aquela máxima
em qualquer lugar que puderes e a todo tempo
e isso se torna uma lei universal”
Immanuel Kant
Imperativos categóricos – são requisitos absolutos, incondicionais que exercem autoridade em todas as circunstâncias
Kant acreditava que apenas decisões racionais são autônomas (Kant cunhou o termo “autonomia”): Um indivíduo tem que ter capacidade intelectual para ter habilidade para tomada de decisões racionais.

 
Utilitarismo

 
Define moralidade em relação às consequências dos atos. Possui 3 premissas principais:
  • Consequências
  • Distribuição das consequências pela maioria
  • A natureza das consequências, geralmente medida em termos de felicidade
J. S. Mill (1806-1873) – uma decisão autônoma é aquela que expressa uma preferência.

 Mill acreditava que qualquer interferência na liberdade causaria mal. Os indivíduos podem agir como desejam, a não ser que sua ação cause mal a outros. Para Mill, a interferência só se justifica quando beneficia “aqueles que ainda estão em um estado que requer cuidados por parte de outrem e aqueles que devem ser protegidos contra suas próprias ações e injúria exterior”.

 
Tradição judaico-cristã

 
Todos os homens são criados à imagem de Deus, com dignidade humana e direitos recebidos através da criação divina.

 
Bioética moderna: autonomia e respeito à autonomia

 
Autonomia – “autodeterminação crítica na qual o agente melhora ao tomar decisões que são pouco prejudicadas por defeitos de lógica, informação ou controle ocorridos no ato da tomada de decisão”. Harris, 1985

 

 Bases legais

 
Capacidade – é o estado legal, isto é, um indivíduo tem ou não tem o direito legal de votar e, portanto, tem ou não tem capacidade.

 
Competência – a qualidade da habilidade de tomada de decisões de um indivíduo e é específica a uma decisão em particular que está a ser questionada

 

 Filosofias da avaliação da habilidade de tomada de decisões

 
Resultado – utiliza as consequências do processo de tomada de decisões sem se importar com a lógica por trás do mesmo. Geralmente é rejeitado pelo Direito.

 
Status – determina a capacidade de pertença a uma população específica (por exemplo, um indivíduo com doença mental). É utilizado na legislação de saúde mental

 
Abordagem funcional – analisa componentes do processo de tomada de decisões e é o utilizado pelo Direito.

 
Respeito à autonomia – o consentimento deve sempre ser obtido. Por exemplo, tocar um paciente sem permissão constitui assalto. O consentimento tem 3 componentes:

  •  Revelar informação
  •  O paciente deve ser competente, ter capacidade
  •  A decisão deve ser voluntária

Tratamento de pacientes incompetentes:

 
Legitimiza o toque não consensual já que o benefício é a maior consequência. - Não deve haver qualquer objeção ao tratamento -O tratamento não pode ser mais extenso do que o que a situação exige.

 “Declaração antecipatória” do judiciário de que o tratamento desta forma não é ilegal. Para esta decisão utiliza-se um processo conhecido como “best interest test”.

 
Estatutos

 
São as leis que dizem respeito à incompetência. Em geral, incapacidade é definida se um indivíduo é incapaz de:
• Agir
• Tomar de decisões
• Comunicar decisões
• Entender decisões
• Reter a memória de decisões
• Por razão de transtornos mentais ou inabilidade de comunicá-las devido a defeito físico.

 
Déficits associados a prejuízo da habilidade de tomada de decisões

Transtornos formais do pensamento e crenças delirantes
Estados maníacos
Prejuízo de insight
Sintomas negativos

 
Maximização da habilidade de tomada de decisões
Tempo
Mínimo possível de distrações na sala ou quarto do paciente
Comunicação clara e precisa
Panfletos informativos
Explicar prós e contras
Deixar claro que a decisão pertence ao paciente
Facilitar reflexão, relação e questionamento
Tratamento do transtorno mental subjacente

 
Transtornos de aprendizagem

 
Déficits nas habilidades verbais e de memória, dificuldades associadas a resolução de problemas, tendência a concordar, sugestionabilidade, problemas associados a concretismo e dificuldades em abstrair exemplos.

 
A habilidade de tomada de decisões racionais é afetada por déficits na memória, compreensão e lógica inferencial.

 
Para maximizar a habilidade, deve-se fornecer informações para reflexão e correlação, utilizar-se de ajudas visuais, dispor de tempo adequado, dar atenção à comunicação de problemas por parte do paciente e fornecer um setting adequado.

 
Demências

 
Déficits em conceptualização, memória semântica e verbal recall (busca de palavras)

 
Para maximizar a habiliadde, deve-se apresentar pequenas partes da informação de cada vez, simplificar o formato da informação e utilizar ajudas escritas (para a memória).

 
MMSE – Mini Mental State Exam: resultados do teste correlacionam com resultados de avaliação de capacidade. Resultados menores que 19 ou maiores que 23 são fáceis para discriminar capacidade e incapacidade. 95% dos pacientes com score menor que 18 são incapazes.

 
Foto: http://germanhistorydocs.ghi-dc.org/sub_image.cfm?image_id=2741

Pedófilo é gente?

Friday, 9 April 2010

Coluna da revista Época que vale para meditar sobre o assunto. O original pode ser lido aqui.

05/04/2010 - 08:52 - Atualizado em 05/04/2010 - 08:55



Pedófilo é gente?
É preciso reconhecer a face humana daquele que nos horroriza


Eliane Brum
ebrum@edglobo.com.br
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

 Li muitas reportagens e artigos sobre pedofilia desde que estourou o mais recente escândalo da Igreja Católica. O tema é difícil para mim. Decidi escrever sobre ele apenas porque me parece que um aspecto foi esquecido – ou quase – nas inúmeras ótimas abordagens. O sofrimento. Pedófilos não são monstros, como a maioria de nós preferiria. São gente. E muitos deles – não todos – sofrem pelos atos que cometeram. E preferiam não ser o que são.


Para quem estava em Marte nas últimas semanas. A polêmica aumentou de tom depois de o New York Times denunciar que o atual papa, Bento XVI, teria encoberto os crimes do padre Lawrence Murphy, nos Estados Unidos, quando ainda era cardeal. O padre, hoje morto, é acusado de abusar de 200 meninos surdos. O suposto envolvimento do papa na ocultação da violência é negado com veemência pelo Vaticano. As denúncias de pedofilia cometidas pelo clero católico continuam, nos Estados Unidos e em diferentes países da Europa. Em algumas delas, Bento XVI tem sido acusado de encobrir os casos ou demorar a tomar providências em períodos anteriores ao papado.


Interessa-me aqui falar menos da Igreja Católica e do papa – e mais de nosso olhar sobre a pedofilia e o abuso sexual. Nunca faz bem para a compreensão de problemas complexos dividir o mundo entre bons e maus, bandidos e mocinhos, monstros e homens. A vida fica supostamente mais simples, mas é uma simplicidade falsa, já que nada se resolve se não encaramos a humanidade daquele que nos provoca horror.


O abuso sexual cometido contra crianças nos horroriza. E acredito que nos horroriza por várias razões, algumas delas óbvias. Mas também porque a maior parte dos abusos é infligida dentro de casa, por familiares. Os abusadores mais frequentes são pais, padrastos, tios, primos, irmãos. Algumas vezes mulheres: mães, madrastas, tias, primas, irmãs.


As estatísticas mostram que as mulheres abusariam bem menos que os homens, mas há dúvidas sobre isso. Como afirma uma psicanalista com quem conversei: “Às mães e às mulheres, em geral, são permitidas algumas liberdades com os filhos, enteados, sobrinhos. Alguns comportamentos parecem mais naturais às mulheres que aos homens. Me parece que o abuso cometido por mulheres é ainda mais mascarado. No presídio feminino onde eu trabalho, há uma ala para abusadoras. E ela está cheia”.


O fato é que o abuso sexual está sempre muito mais perto do que gostaríamos. E, quando paramos para pensar com honestidade, em geral conhecemos alguém próximo que foi abusado ou abusou. E muitas vezes nós também silenciamos.


Em 1997, percorri o Rio Grande do Sul para fazer uma grande reportagem sobre abuso sexual infantil. Eu não queria entrevistar apenas as vítimas, queria escutar também os abusadores. Alguns na cadeia, outros seguindo a vida nas ruas. Nunca me recuperei desta reportagem. Por causa dos horrores que ouvi – e vi. Mas principalmente por causa da quantidade e da intensidade da dor. Eu esperava o sofrimento das vítimas. Nada me preparou para o sofrimento dos “monstros”. Não de todos, é preciso dizer. Há aqueles que não têm conflitos – e, portanto, não sofrem. Mesmo estes, continuam humanos.


Encontrei abusadores despedaçados pelo que tinham feito – e pelo que tinham vontade de continuar fazendo. Fora a cadeia, não havia nada para impedi-los de seguir abusando. E alguns deles queriam ser impedidos. A prisão impede de abusar, mas sem ajuda e tratamento, é muito difícil não reincidir quando saem dela. Se a estrutura de assistência às vítimas de abuso sexual é precária, para abusadores ela é quase nula.


É bem difícil olhar com compaixão para um homem ou mulher que usou de sua autoridade e poder para abusar sexualmente de uma criança. E gozou exatamente deste poder total sobre a vítima, inteiramente submetida ao seu desejo. Mas acho que precisamos tentar. Lembro de ter ficado em conflito com meus sentimentos. Porque nos casos em que foi possível, eu escutava a dor de ambos – da vítima e de quem a violou. Em alguns casos, ambos sofriam de forma atroz. Não se trata de relativizar a responsabilidade de quem abusa. Estou apenas apontando que pode existir sofrimento neste percurso – e não apenas bestialidade, ainda que a bestialidade seja sempre humana.



Dois abusadores me marcaram mais. Um deles era uma mulher – o único caso feminino que encontrei – que havia feito sexo com o filho de 14 anos. O menino estava destroçado. Ele me disse: “Eu queria parar a minha mãe, mas ficava com dó de dar um tapa nela. Nunca vou perdoar meu pai por me deixar sozinho com ela. Eu só quero morrer”. A própria mãe me contou que o filho fugia, que um dia o arrancou de debaixo da cama, onde havia se escondido dela. No caso do garoto, o sofrimento era ainda mais avassalador porque não havia como negar que ele sentiu desejo – ou não teria tido ereção.


O desejo da vítima não é algo tão raro em casos de abuso. Mas é muito difícil para as vítimas lidar com ele sem se sentirem culpadas ou responsáveis. O abusador manipula este sentimento: “Você chora, mas você está gostando”. Quando eu perguntava a esta mãe por que tinha infligido o incesto ao filho, ela repetia: “Eu fiz para salvá-lo”. Nem a mãe nem o filho tinham qualquer assistência.


O outro abusador que nunca pude esquecer foi um adolescente de 15 anos. Ele havia molestado sua meia-irmã de três anos. “Eu não queria machucar”, ele repetia. E talvez não quisesse mesmo. Não sei. Enquanto entrevistava o adolescente, familiares o chamavam de monstro. Seus pais só concordavam em um fato: preferiam que ele estivesse morto. Poucas vezes vi alguém tão só no mundo. Se era mesmo um monstro – era um bem desamparado.


É difícil ter compaixão, eu sei. Mas há algo na história destes dois que pode nos ajudar a ampliar nosso olhar. A mulher que violou o filho havia sido estuprada pelo próprio pai, aos 7 anos. E, depois da violência, foi retirada de casa e passou a vida trabalhando como doméstica na casa de estranhos. O adolescente que abusou da meia-irmã fora violado aos 2 anos. No caso dele, o mesmo pai que o chamava de monstro havia abusado dele quando era pouco mais que um bebê. E nunca foi punido por isso. Este pai era um pedófilo que teve de deixar a vizinhança porque dava balas a garotinhas para masturbá-lo. Quando o pai saiu de casa, a mãe culpou o filho e o enviou para a casa da avó.


Os dois abusadores que acabamos de odiar, portanto, teriam nossa compaixão se voltássemos alguns anos no tempo. Se voltássemos à época em que eram crianças chorando depois de terem sido arrebentadas pelos respectivos pais. A monstra seria uma garotinha estuprada e, depois, jogada na casa de estranhos para trilhar uma vida de trabalho doméstico infantil. O monstro seria um bebê violado também pelo pai e depois punido pela violência sofrida ao ser separado da mãe.


Quando nos dispusemos a enxergar além da primeira camada, os sentimentos fáceis desaparecem. E começam os conflitos. Acredito que são os conflitos que nos levam além.


Os pesquisadores do tema discordam sobre a relevância da repetição no quadro do abuso sexual. Alguns dizem que é um traço frequente, outros que nem tanto. Nos casos que investiguei, como repórter, foi marcante. Não significa que todas as crianças abusadas, ao crescer, serão abusadoras se não tiverem ajuda. Cada pessoa vai elaborar a violência que sofreu – diferente para cada uma em seu significado e suas circunstâncias – de maneira única.


É possível afirmar que, na história de uma parcela dos abusadores, há histórico de abuso sexual na infância. Um dos pesquisadores que me ajudava na reportagem cuidava de um caso que fora confirmado em pelo menos quatro gerações: o bisavô, o avô, o pai e agora o filho, todos tinham sido violados e violaram sua respectiva prole. Neste caso, sempre meninos. A esperança do psicólogo era conseguir quebrar esta linhagem de repetição com responsabilização e tratamento.


Outro traço comum e igualmente terrível é a trajetória das mães das meninas violadas. Parte delas também sofreu abuso na infância. Sem nunca ter recebido assistência, ao eleger um companheiro, escolhe inconscientemente um abusador. E, claro, não consegue proteger suas filhas. Estas mães são responsáveis pelo que acontece em suas casas. Não há dúvida sobre isso. Mas são más? Também elas são monstruosas e merecem nosso escárnio?

Lembro de duas mulheres – mãe e filha. Quando as entrevistei, a mãe tinha 37 anos. Havia sido violada pelo pai aos 9 anos. Era uma mulher simples, muito tímida. Ela contou: “Quando eu tinha 12 anos, senti uma coisa mexendo na minha barriga. Achei que era lombriga. Mas era um bebê do meu pai”. Mais tarde, ela se casou. Teve esta filha. E quando a menina completou 9 anos, o pai abusou dela. Quando as encontrei, a garota também tinha uma filha do próprio pai. Viviam todos na mesma casa. Já tinham pedido ajuda ao conselho tutelar e à polícia, mas até aquele momento nenhuma das instituições parecia saber o que fazer com o caso.


Nada é fácil neste tema. O que parece claro é que só há chance para todos se houver uma quebra do silêncio que costuma cercar estes crimes, especialmente quando acontece entre as quatro paredes do lar – ou entre os muros da Igreja Católica e de outras instituições. Em casos de violência contra crianças, os adultos precisam responder pelos seus atos – ou por ter encoberto a violência de terceiros. Mas é preciso mais do que interromper e punir: é necessário amparar e ajudar vítimas e algozes a elaborar os atos que sofreram ou os que cometeram, com tratamento e de todas as maneiras possíveis. Ou tudo poderá se repetir, num ciclo interminável de sofrimento.


Para quem estiver disposto a olhar para a face do abusador e nela reconhecer um homem – e não um monstro – recomendo um filme excepcional. Com uma interpretação magistral de Kevin Bacon, O lenhador (The Woodsman, 2004) é um filme delicado e corajoso, fácil de achar em qualquer locadora. Seu mérito é não reduzir a vida a uma batalha entre monstros e homens. Ao acompanharmos a trajetória do personagem principal, compreendemos que o pior monstro é o homem que o habita. A ele e a todos nós, de diversas maneiras.


O papa e sua igreja – sempre mais humanos e terrenos do que os fiéis e eles mesmos gostariam – vivem um momento delicado. Penso que, para além das obrigações legais e éticas de qualquer cidadão, o que faltou aos representantes do clero que sabiam o que acontecia e nada fizeram foi um dos pilares do cristianismo: compaixão. Pelas vítimas. E também pelo pedófilo. Acredito que o padre Lawrence Murphy e todos os seus colegas que cometeram o mesmo crime mereciam a compaixão de serem impedidos, também pela sua igreja, de continuar violando crianças.


(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)

Posted by Vanessa at 10:04 1 comments  

O mito de Medeia: quando os pais matam seus filhos

Wednesday, 31 March 2010

Medeia ou Medea é uma personagem da mitologia grega, descrita extensivamente na peça Medea, de Eurípedes e no mito de Jasão e os Argonautas.
Medeia era uma mortal da Cólquida, filha do rei e neta do deus do sol Helio. Em diversos mitos Medeia é descrita como uma feiticeira, muitas vezes ligada à deusa Hécate (deusa da bruxaria e das encruzilhadas).

A história desta mulher inicia-se com a chegada de Jasão a Cólquida, para obter o Velo de Ouro (a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo) necessário para sua volta ao trono da Tessália. Medeia apaixona-se por Jasão e promete ajudar-lhe, com a condição de que se ele obter o Velo de Ouro, os dois se casem.
Para que Jasão obtenha o poderoso Velo, ele teve de realizar certas tarefas. A primeira delas consistia em lavrar um campo com dois touros gigantecos, de cascos de bronze e que expeliam fogo pelas narinas. Medeia deu-lhe um unguento para proteger a si e suas armas do fogo.
A segunda tarefa consistia em semear um campo lavrado com dentes de um dragão. Dos dentes nasceu um exército de violentos guerreiros mas Jasão havia sido avisado por Medeia, que lhe aconselhou a jogar uma pedra no meio deles. Sem saber de onde veio a agressão, os soldados atacaram uns aos outros. Finalmente Jasão deveria matar um dragão insone que guardava o Velo. Medeia colocou a besta para dormir, utilizando poderosas ervas narcóticas. Jasão então tomou o Velo de Ouro e foi-se embora com Medeia, conforme prometido.

Para garantir sua fuga, Medeia matou seu irmão Apsirto e desmembrou-o pelo caminho, sabendo que seu pai ficaria devastado com a perda e pararia para coletar os restos do filho, garantindo-lhe um funeral adequado. Desta forma, Medeia e Jasão conseguem embarcar na nau Argos e fugir da Cólquida.
Após diversas aventuras e muita crueldade (por parte dos dois), o casal chega a Corinto, onde Jasão se apaixona pela filha do rei, Gláucia, e abandona Medeia.

Na peça de Eurípedes, Jasão confronta Medéia e tenta explicar-se, dizendo que não poderia deixar passar a oportunidade de se casar com uma princesa, enquanto que Medéia é apenas uma mulher bárbara e conta-lhe que pretende juntar suas duas famílias mantendo-a como sua amante. Ela lembra-lhe que deixou sua família para trás para seguí-lo e salvou-lhe a vida diversas vezes. Ela fica desolada e resolve vingar-se enviando à Gláucia um vestido e uma pequena coroa envenenados, o que resulta na morte da princesa e do rei, que correu para acudí-la.

Cega de dor e de ódio, Medéia decide matar seus filhos também, com o intuito de causar o máximo de dor a Jasão. Na peça, ela sai do palco para buscar uma faca e os gritos dos meninos são ouvidos nos bastidores. Jasão corre para vingar-se, mas vê Medeia à distância, em uma carruagem dourada enviada por seu avô, Hélio, deus do Sol, a dizer:
"Eu nem mesmo deixo-te os corpos dos nossos fihos; eu os levo comigo para enterrar. E para vós, que me fizeste todo o mal, eu profetizo uma maldição final."

Medéia passa ainda por muitas aventuras e o filicídio, de certa forma, fica sem ser vingado nos mitos gregos que lhe dizem respeito. Mesmo o fratricídio cometido é de certa forma perdoado quando ela retorna à Cólquida e ajuda seu pai a retornar ao trono, que tinha-lhe sido usurpado pelo tio.

Medeia prepara-se para matar os filhos em óleo de Eugène Ferdinand Victor Delacroix (1862).

















Este mito me veio à memória após acompanhar nos noticiários ingleses o julgamento de Petros Williams, um pai que matou seus filhos em um acesso de raiva e o caso Nardoni.

Petros Williams descobriu que sua ex-mulher estava a namorar online e, num acesso de ciúmes, estrangulou os dois filhos com os cabos do computador e tentou matar-se com uma overdose de medicamentos. Ele foi hoje condenado a 28 anos de prisão.

Infelizmente estes exemplos não são singulares ou raros. Casos de filicídio, seja pelo pai ou pela mãe povoam as páginas policiais de qualquer país, sendo talvez mais predominantes em algumas culturas do que outras (como na China e em países nos quais o nascimento de uma menina é visto com maus olhos).

Antes de iniciar a análise do mito e dos filicídios reais, cabe uma análise dos termos filicídio, neonaticídio e infanticídio, muitas vezes utilizados de forma intercambiável na literatura do homicídio infantil. Bourget et al. (2007) caracteriza filicício como o assassinato de uma criança por um dos pais, enquanto neonaticídio caracteriza o assassinato de um recém-nascido no dia do nascimento. Embora infanticídio seja corriqueiramente utilizado em referência a homicídio infantil, o termo tem implicações médico-legais, e se aplica especificamente ao assassinato de crianças menores de 12 meses de idade por uma mãe que não se recuperou completamente dos efeitos da gravidez e lactação, sofrendo em algum grau de transtornos mentais.

Diversos autores analisaram o filicídio, tentando dissecá-lo e caracterizá-lo (Bourget et al. 2007, Farouque 2003, Resnick 1969, Wilczynski 1995):

Filicídio altruísta
Um dos pais tenta livrar a criança de sofrimento real ou imaginado, geralmente acompanhado de suicídio.

Filicídio psicótico
Um dos pais mata a criança sob influência de doença mental grave

Filicídio do filho indesejado
A vítima nunca foi ou não é mais desejada pelos pais. Geralmente cometido em circunstâncias de filhos ilegítimos ou paternidade incerta.

Filicídio acidental
Morte sem dolo secundária a abuso infantil

Filicídio de retaliação (Wilczynski, 1995)

No qual o ódio a uma pessoa é deslocada à criança. É o caso de Medeia e de muitos outros encontrados nas páginas policiais (como o descrito acima, na Inglaterra). A pessoa alvo dos sentimentos de ódio e do filicídio é em geral o parceiro do perpetrador. Como a fonte de angústia nos filicídios de retaliação é o parceiro sexual do perpetrador, estes assassinatos são denominados "Complexo de Medeia". Mas quão típico são os filicídios da vida real, quando comparados ao caso protótipo de Medeia?

O mito e o Complexo de Medeia certamente são populares e encontrados de forma recorrente na ficção, em estereótipos como o ditado americano "hell hath no fury like a woman scorned" (não existe fúria como a de uma mulher traída). Exemplos na ficção são encontrados no filme Atração Fatal (Fatal Attraction), no qual a amante rejeitada direciona sua atenção assassina ao ex-amante, sua mulher, filha e até mesmo ao coelhinho de estimação.

Atração Fatal

Entretanto, segundo Wilczynski (1995), homens e não mulheres são muito mais propensos a cometer assassinatos de retaliação. Homens e mulheres tendem a matar seus filhos por razões bastante diferentes: homens são geralmente associados a retaliação, disciplina ou rejeição por parte da vítima. As mulheres, por outro lado, matam pois o filho não era desejado (tipicamente neonaticídio, cuja mãe escondeu a gravidez);  porque o assassinato foi percebido como melhor escolha para criança (filicídio altruísta); ou porque a mãe estava em estado psicótico no momento do crime.

Segundo Bourget (2007), o filicídio de retaliação por parte da mãe é raro e é mais cometido por mulhres com transtornos de personalidade e história de tentativas de suicídio. Também parece haver relação entre o sexo da vítima, sendo que filhas são mais provavelmente assassinadas em filicídios altruístas e filhos em filicídios de retaliação.

A história do relacionamento dos pais tende a revelar um ambiente hostil, cheio de conflitos, com atos violentos de um ou ambos os parceiros, sendo uma das principais motivações para os conflitos e o assassinato o ciúme e suspeitas de infidelidade.
A retaliação por parte dos homens parece ser uma extensão natural de seu poder e controle sobre a família e o relacionamento sexual. As atitudes das mulheres são percebidas por estes homens como um desafio à sua autoridade e masculinidade ao deixá-los e ao iniciar relacionamentos com outros homens.
De forma oposta, as mulheres, segundo Wilczynski, apresentam comportamento retaliador devido ao ressentimento pela falta de poder no relacionamento.

Especificamente no que tange ao "Complexo de Medeia", Farooque relata que o mesmo foi descrito no auge da psicanálise (1944) como o "ódio inconsciente de uma mãe por sua filha que amadurece, vista como uma rival em potencial." Mesmo na época áurea da psicanálise o construto passou por diversas crítcas pois, para começar, Medeia não teve filhas, mas filhos com Jasão e estes autores se apoiavam em construtos irrefutáveis e tautológicos iniciados em Freud (ex. a existência de impulsos filicidas em todas as mães). Farooque argumenta que ao final do século 20 é aparente que estes construtos ajudaram muito pouco no entendimento da etiologia do filicídio e apenas distraíram investigadores científicos de fatores mais mundanos e práticos como uso de drogas ou capacidade intelectual do perpetrador.

Ataques a outras pessoas

Outro aspecto incomum do mito de Medeia, que parece não ter correlação com as mães que cometem filicídios no mundo real é a violência direcionada a outras pessoas (como à seu irmão e à princesa Gláucia, no mito). De acordo com a literatura é muito mais provável que homens apresentem este comportamento, com cerca de um sexto dos perpetradores tendo apresentado comportamento violento direcionado a outras pessoas na época do filicídio ou descrito impulsos para violência. Além disso, os homens apresentavam maior probabilidade de causar injúrias mais sérias.

Violência doméstica

Um aspecto do mito que realmente é bastante típico dos casos reais é a história de abuso físico e emocional no relacionamento. Na peça de Eurípedes, Jasão humilha Medeia e a rebaixa de esposa a amante, chamando-a de bárbara e inferiorizando-a em comparação à Glaúcia (abuso emocional). A porcentagem de mulheres filicidas abusadas nos relacionamentos é contraditória na literatura, variando de um terço das amostras investigadas a 80%. Em contraste, poucos homens filicidas relatam terem sofrido violência doméstica, embora muitos tenham sido apontados como maridos violentos anteriormente ao assassinato.

Diversos outros fatores devem ser considerados na análise de filicídios, como a existência de transtornos mentais graves do Eixo I, cultura (índios da Amazônia, por exemplo, costumam matar crianças com debilidades ou problemas físicos), religião e outros que não foram alvos de estudo na descrição deste post.

Abraão prepara-se para matar Isaac, seu filho, para provar sua fidelidade a Deus (Genesis 22:1-24) e é impedido por um anjo. Óleo de Rembrant, 1634.

Por fim, o mito de Medeia é uma história fascinante de completa dedicação a um amor e de escórnio, humiliação e assassinato. Embora o mito seja bastante alegórico e possa ser considerado um caso protótipo de filicídio, é relativamente raro que mulheres sejam as perpetradoras de filicídio de retaliação ou que as mães filicidas tenham antecedentes de violência a terceiros. Embora o mito de Medeia seja poderoso na descrição de um filicídio motivado por ciúme e rejeição, ele é apenas isto, um mito, não encontrando ressonância nos casos reais analisados na literatura.


 Medeia planeja sua vingança em cena do filme "Medea" de Lars Von Trier (1988), baseado na peça de Eurípedes

Referências:

ResearchBlogging.org
Bourget D, Grace J, & Whitehurst L (2007). A review of maternal and paternal filicide. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 35 (1), 74-82 PMID: 17389348

Euripedes, Medea. Google Books, disponível na íntegra no link

Farooque R, Ernst FA (2003). Filicide: a review of eight years of clinical experience. Journal of the National Medical Association, 95 (1), 90-4 PMID: 12656455

Resnick PJ. Child murder by parents. American Journal of Psychiatry. 1969; 126:325-334. In: Farooque & Ernst (2003).


Wilczynski, A. (1995). Murderous Mothers and the Medea Myth: A Commentary on 'Medea: Perspectives on a Multicide' Australian Journal of Forensic Sciences, 27 (1), 6-12 DOI: 10.1080/00450619509411318

Fotos:
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/38/Eug%C3%A8ne_Ferdinand_Victor_Delacroix_031.jpg
http://www.rollogrady.com/wp-content/uploads/2009/05/fatal-attraction-800-75.jpg

Panis et circenses: O caso Nardoni

Tuesday, 30 March 2010

Eu havia prometido a mim mesma que não escreveria nada sobre o caso Nardoni, já que mesmo que esteja acompanhando a cobertura da imprensa, estou fora do Brasil e do redemoinho todo causado pela mídia.

E foi por isso mesmo que resolvi escrever este post. Justamente pelo fato de estar fora do país, e desta forma, livre da influência da mídia brasileira (para bem ou para mal).

Para os leitores portugueses, o caso Nardoni diz respeito ao assassinato de uma criança de 7 anos (se não me engano), alegadamente pelo pai e madrasta: Pai, madrasta, criança e bebês (filhos do casal) saíram para jantar. Na volta, em circunstâncias muito nebulosas, Isabela caiu ou foi jogada do 7º andar (se não me engano). Aparentemete a rede de proteção fora cortada e a menina estrangulada antes de ser atirada pela janela. O pai e madrasta acreditam que um estranho matou a menina enquanto eles buscavam os filhos menores na garagem do prédio. A promotoria defende que o casal agiu juntos.
O caso todo aconteceu há 2 anos e causou comoção. Voltou à mídia brasileira nos últimos dias pois o julgamento ocorreu na semana passada, aberto à imprensa e com um juíz que fez uso do twitter(!).

É aqui que falo em panis et circenses.
"Pão e circo" é uma metáfora conhecida para esmolas que os políticos utilizam para ganhar apoio popular, ao invés de desenvolver políticas fortes para o país. Entretato, é o segundo significado da expressão que me interessa aqui, a metáfora que também serve para criticar a população que abandona seu dever cívico por migalhas.
O uso moderno da expressão tornou-se um adjetivo para categorizar uma população que não mais valoriza as virtudes cívicas, e denota a trivialiade e frivolidade que definiram o Império Romano pouco antes de sua queda.... e o declínio da sociedade moderna.

Sim, porque a histeria em massa ocorrida no Brasil por conta deste caso só pode mesmo ser categorizada se entendermos este conceito. Independentemente de serem culpados ou não (não cabe a mim julgá-los ou condená-los), eles foram julgados e condenados 2 anos atrás.

A imprensa brasileira deveria saber melhor após o escândalo da Escola de Base (caso no qual donos de uma escola infantil foram acusados injustamente de abuso sexual infantil, tiveram seus bens depredados, foram presos e tiveram seus nomes arrastados na lama e no final a denúncia não tinha qualquer base). O casal Nardoni foi vilificado, seus parentes próximos ameaçados e mesmo pessoas que apenas compartilham o sobrenome/apelido Nardoni receberam telefonemas ameaçadores simplesmente por constarem na lista telefônica.

A população (ou o populacho?), associado à cobertura parcial da imprensa bradava por justiça... Será que nesta cultura de pão e circo a palavra justiça manteve seu significado intacto? O blog Jornalisticamente Falando traz o seguinte comentário:

É notório e urge dizer que ninguém pode ser condenado sem prévio processo legal devidamente realizado, garantindo-se os princípios constitucionais que norteiam o processo, como o da ampla defesa e do contraditório. Sem esse processo, voltaríamos aos velhos tribunais ad hoc (de exceção), em que julgava-se pela conveniência da sentença e não no sentido de alcançar a verdade e uma pena justa.
Quem gritou durante todos estes dias do julgamento por “Justiça” e condenou previamente o casal Nardoni, pode um dia sentir sobre si o peso da mão forte e impassível do Estado sobre suas costas, os mesmos que xingam o advogado (profissional no pleno exercício de suas atribuições constitucionais) podem desesperadamente precisar de um algum dia. O advogado não é cúmplice dos réus, é um profissional habilitado para defendê-los de arbitrariedades do Estado e garantir que lhes seja proferida a menos injusta das sentenças.
(...)
Também é condenável o espetáculo macabro criado entorno do assunto pela mídia. É preciso estabelecer regras para evitar o circo criado. Antes do julgamento, batalhões de fotógrafos e cinegrafistas cercavam acusados, advogados e envolvidos, fazendo até que a avó de Isabella acenasse para a câmera, como se fosse uma espécie de estrela de novela. É mesmo necessária esta especularização? (...) Jornalista não tem que afirmar que a pessoa A ou B é culpada, nem incitar o público. Há de se informar imparcialmente, sem afobações e sem espetacularização. A imprensa mais uma vez cometeu o erro cometido em outrora, como no caso que citei anteriormente.
"A justiça tem numa das mãos a balança em que pesa o direito, e na outra a espada de que se serve para o defender. A espada sem a balança é a força brutal, a balança sem a espada é a impotência do direito". – Rudolf von Jehring

Ao final do julgamento o casal foi condenado a 31 anos (para o pai) e 26 anos (a madrasta) de prisão. Porque este caso em especial causou tanta comoção? Tantas pessoas morrem todos os dias no Brasil de forma violenta, tantas crianças abusadas e assassinadas, porque os Nardoni? Talvez porque aqueles que morrem todos os dias nas favelas brasileiras, vítimas da pobreza e da violência do tráfico não ressoem na nossa empatia... afinal, eles não são como nós. Eles são pobres, vivem às margens da sociedade, são negros (e aqui o racismo e as diferenças de classe afloram)...
Já o casal Nardoni é branco, de classe média, vivia em apartamento de 3 quartos, dirigia os carros que nós dirigimos... E talvez esta "proximidade" desconfortável com alguém capaz de matar o próprio filho cause reações em nós mais sanguíneas e viscerais, numa tentativa de repelir aquela mal estar de pensar que "este poderia ter sido eu".

E aí, conforme o psiquiatra Daniel Martins de Barros, é necessário purgar este sentimento, fazer como na Idade Medieval, no qual as bruxas eram condenadas rapidamente para "limpar" a sociedade, numa fogueira, porque o fogo purificava e queimava junto com a vilã os maus fluidos que existiam no ar dos vilarejos (o mal estar simbolizado num mal ar?)

O julgamento e as reações ao caso Nardoni dizem mais sobre nós do que estamos confortáveis para admitir. E quanto mais ignorante e frívola a sociedade, maior a manifestação nas ruas por "justiça" e pela volta dos tribunais de execução... Panis et circenses, quod est demonstrandum.

Recomendo a leitura do post do psiquiatra forense Daniel Barros: Nardoni, os bruxos da vez

Fotos:
http://karenswhimsy.com/roman-gladiators.shtm
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/18/Inquisition.jpg/800px-Inquisition.jpg

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Avaliação de risco de agressores sexuais

Wednesday, 24 March 2010

Fatores de risco

 • Maior número de agressões sexuais, maior chance de reincidir (Marshal et al, 1991)
• História criminal pregressa (Quinsey et al, 1995)
• Maior risco se (em ordem decrescente)
            • Ofensas contra crianças do sexo masculino
            • Ofensas contra meninas fora da família
            • Incesto (Furby et al, 1989)
• História de mais de um tipo de agressão sexual (Hauson e Brussiere, 1996)
• Evidência ao PPG de resposta a estímulos pedofílicos (Hauson e Brussiere, 1996)
• Evidência ao PPG de resposta a violência não-sexual (Rice et al, 1990)
• Elevação na Hare Psychopathy Scale* (Rice et al, 1990)
• Se durante a agressão inicial, o paciente apresentava baixa auto-estima, dificuldade em empatizar com a vítima ou altos níveis de raiva (Hauson e Brussiere, 1996)
• Ter sido vítima de abuso sexual, especialmente se severo e prolongado – risco de abusar de seus próprios filhos (Cormier e Cooper, 1982) ou de se tornar agressor sexual (McCormal et al, 1992)
• Presença de fantasias sexuais violentas (Due e Eldman, 1997)
• Isolamento social prolongado – presente em alguns assassinos

Outros fatores de risco

• Atitudes contra mulheres
• Atitudes em relação a sexo com crianças
• Presença de distorções cognitivas (o indivíduo percebe ou racionaliza que a vítima consentiu – Kennedy e Gwbin, 1992)
• Escolha de uma profissão que facilita o acesso a vítimas potenciais
• Uso de sadomasoquismo ou de pornografia infantil
• Presença de transtornos mentais comórbidos (Fazel et al, 2007)
• Abuso de álcool
• Patologia cortical, especialmente de lobo temporal (Lang, 1993)
• Transtorno de personalidade
• Diagnóstico de retardo mental
• Esquizofrenia – ligação entre psicose e agressão sexual
• Estado hipomaníaco
• Não adesão ao tratamento

Tratamento

Terapia psicodinâmica – faltam evidências

Terapia Cognitivo Comportamental (TCC)
Níveis modestos de redução no recidivismo (Losel e Schucker, 2005)
Desenhada para ajudar o indivíduo a assumir responsabilidade e ter controle para evitar situações de risco

Tratamento biológico

Castração cirúrgica
Menores taxas de recidivismo (Ortmann, 1980)
Utilizada nos EUA e Alemanha

Psicocirurgia
Utilizada na Alemana até 1970

Tratamento hormonal
Utilizado desde os anos 1960 – principal droga (Europa): Acetato de ciproterona oral (principalmente) e de depósito. Nos EUA o mais utilizado é o Depo Provera (Acetato de medroxyprogesterona)
Alguns pacientes mesmo assim não demonstram redução na excitabilidade sexual

Efeitos colaterais:
Acetato de ciproterona – ginecomastia, alterações hepáticas, humor depressivo, osteoporose
Depo provera – aumento do peso, fogachos, hipertensão arterial, aumento da glicemia, redução do tamanho testicular
Long-acting gonadotrophin releasin hormones analogues – pouco testado. Liberado apenas para tartar câncer de prostatae endométrio. Efeitos colaterais: osteoporose. (Goserelin, Triptorelin e Leuprolide)
ISRS – risco baixo a moderado de recidivas

Fatores legais no tratamento de agressores sexuais

Devem ser registrados/listados (sex offenders register)

Fatores éticos:

Antipatia pública
Pesar tratamento e efeitos colaterais
Problemas de confidencialidade
Conflito se medicamentos antilibido comprometem os direitos humanos ao impedir a liberdade de pensamento e direito a reprodução do paciente

*Hare Psychopathology Scale (PCL-R)
A PCR-L é uma ferramenta psicodiagnóstica comumente utilizada para avaliar psicopatia. É uma escala de 20 ítens registrada por um psicólogo ou outro profissional treinado. Um valor de 0 significa que o item não se aplica, 1 se aplica levemente, 2 se aplica completamente. A escala avalia estilo de vida, comportamento criminoso, discurso persuasivo, charme superficial, grandiosidade, necessidade de estímulos, mentira patológica, golpes e manipulação, falta de remorso, falta de empatia, fracos controles comportamentais, impulsividade, irresponsabiliade, falha em aceitar responsabilidade e outros. Os resultados são utilizados para averiguar risco de re-ofensa criminal e probabilidade de reabilitação.

Fotos:

Referências
ResearchBlogging.org
Hall, G. (1995). Sexual offender recidivism revisited: A meta-analysis of recent treatment studies. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 63 (5), 802-809 DOI: 10.1037/0022-006X.63.5.802

Guay, D. (2009). Drug treatment of paraphilic and nonparaphilic sexual disorders Clinical Therapeutics, 31 (1), 1-31 DOI: 10.1016/j.clinthera.2009.01.009

Schmucker M, & Lösel F (2008). Does sexual offender treatment work? A systematic review of outcome evaluations. Psicothema, 20 (1), 10-9 PMID: 18206060

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Avaliação do comportamento sexual anormal e de criminosos sexuais

Tuesday, 23 March 2010

Mais comum em homens que mulheres
Maiores taxas em homens na população geral: fantasias de iniciar adolescentes, fantasias de estupro

Parafilias

Transtornos mentais
Parafilias são fantasias, impulsos ou comportamentos sexualmente excitantes, recorrentes, intensas, que envolvem:

1. Objetos não humanos
2. Sofrimento ou humiliação do paciente ou do parceiro sexual
3. Crianças ou outras pessoas que não consentem com o ato

Deve haver marcado sofrimento ou prejuízo no funcionamento interpessoal, social, ocupacional ou outro

A visão de que as parafilias são transtornos mentais não é universal e os críticos afirmam que o termo "parafilia" continua sendo perjorativo na maioria das circunstâncias. Há também dificuldades em definir quais comportamentos são parafílicos e quais são variações normais do interesse sexual. Por exemplo, o DSM teve dificuldade em definir sadismo sexual em um parceiro consensual como transtorno parafílico e desta forma a categoria foi incluída o DSM-IV-TR com o adendo "a pessoa age baseada nestas urgências com outra que não consente; ou o comportamento causa importante dificuldades e dificuldades interpessoais".


Albert Eulenburg, um neurologista alemão com interesse na área da sexologia foi quem notou uma comunalidade através das diferentes parafilis e utilizou esta terminologia pela primeira vez:
"Todas as formas de perversões sexuais (...) tem uma coisa em comum: estão profundamente enraizadas na matriz da vida normal e nautral; elas estão de certa forma conectada muito de perto com sentimentos e expressões de nosso erotismo fisiológico. Elas são (...) intensificações, distorções hiperbólicas, frutos monstruosos de certas expressões parciais e secondárias deste erotismo considerado "normal" ou dentro dos limites dos sentimentos sexuais saudáveis."

Tipos:

Fetichismo
Excitação sexual por um objeto não-humano, geralmente peças de roupas. A textura pode ser relevante. Parcialismo é um tipo de fetichismo que envolve especificamente partes não sexuais do corpo.

Travestismo fetichista
Excitação sexual pelo uso de roupas do sexo oposto

Exibicionismo
Necessidade recorrente de exposição dos genitais a estranhos. Também pode ser a necessidade recorrente de realizar atos sexuais em espaços públicos, às vistas de observadores inocentes.

Voyeurismo
Excitação sexual ao observar uma pessoa que não suspeita do ocorrido a se despir ou engajada em atividade sexual

Pedofilia
Exictação sexual por crianças

Sadomasoquismo
Excitação sexual ao inflingir ou receber dor, ao exercitar poder ou por submissão a autoridade

Outros transtornos
Frotteurismo – esfregar-se ou tocar outro indivíduo, que não consente com o ato
Necrofilia (preferência sexual por cadáveres)
Escatologia (telefonemas obcenos a pessoas que não consentem)
Parcialismo (partes do corpo)
Zoofilia (preferência sexual por animais)
Coprofilia (excitação sexual por fezes)
Urofilia (urina)
Klismafilia (enemas)
Emetofilia (vômito)
Asfixiofilia (excitação sexual através de asfixia)

Aspectos clínicos

Maior nível de comorbidade com outros transtornos mentais. Pode estar associado com risco aumentado de auto-mutilação ou risco de agressão a outros. Pode ser responsivo a tratamento.

Parafilia opcional
rota alternativa para excitação sexual. Ex. um homem que às vezes se excita ao vestir roupas de mulher

Parafilia preferida
Pessoa que prefere a parafilia a atividades sexuais convencionais, mas também realiza estas últimas. Ex. um homem que prefere usar roupas de mulher durante a atividade sexual, sempre que possível.

Parafilia exclusiva
A pessoa não consegue ter relações sexuais na ausência da parafilia ou do objeto parafílico.

Aspectos legais
(Estes aspectos dizem respeito à lei inglesa)

 Comportamentos sexual desviante não é base para deter sob Mental Health Act, mas se um transtorno mental se manifesta como parafilia, pode-se conseguir deter neste aspecto. Ex: crise maníaca de um transtorno bipolar que se manifesta como exibicionismo.
O implante cirúrgico de hormônios para reduzir a libido é sujeito a medidas especiais na Inglaterra, mas medicamentos anti-libido não.
De acordo com o Mental Health Act, indivíduos que sofrem de parafilias podem ser detidos independentemente de outros transtornos mentais (em prisões normais, não hospitais)

Métodos de avaliação de criminosos sexuais – aspectos clínicos

  •  História psiquiátrica completa
  • Exame do estado mental
  • Exame físico
    • Excluir perturnações cerebrais como: epilepsia, tumor, esclerose múltipla, trauma craniano, demencia, desordens cromossômicas, desordens que afetam a função sexual (como o diabetes)
  • Observação (comunidade e hospital):
    • Evidência de excitação sexual e comportamento desviante
    • Atitudes em relação às mulheres
    • Interesse em crianças
    • Acesso a pornografia
    • Agressão e necessidade de controle ou domínio
    • Na comunidade:
      • Depoimentos de testemunhas
      • Depoimentos de amigos e familiares 
Avaliação psicofisiológica

Penile Plethysmography (PPG) ou Falometria



PPG mede o fluxo sanguíneo ao pênis. O método mais comum envolve a medida da circunferência ou do volume do pênis. No caso de agressores sexuais, é tipicamente utilizado para determinar o nível de excitação sexual quando o indivíduo é exposto a conteúdo sexualmente sugestivo (filmes, fotos ou áudio).  Em geral os resultados do PPG são utilizados como parte da avaliação da reabilitação de indivíduos detidos, mas não para determinar se um indivíduo é culpado ou inocente.
Disponível em prisões e hospitais de segurança máxima
Mede o volume ou circunferência do pênis em resposta a imagens sexualmente esitmulantes em setting laboratorial

Vantagens:
• Confronta indivíduos com altos níveis de negação (Kennedy e Grubin, 1992)
• Evidência de resposta
• Evidência da habilidade do paciente de suprimir a resposta
• O clínico pode confrontar o paciente
• Os resultados do PPG podem ser usados como evidência para alto risco de recidivismo na pedofilia
• Útil para monitorar o progresso do paciente

Limitações:
• Não há um equipamento estandardizado
• Falta de metodologia estandardizada
• Não se sabe se o setting laboratorial reflete o setting da vida real
• Potencialmente intrusivo
• Pode-se falsificar respostas
• Faltam dados compreensivos na população em geral
Pode ser mais aplicável a certos tipos de agressores sexuais (parafílicos)
• Muito pouca pesquisa em PG vaginal

Polígrafo
Facilita a descoberta de fantasias e comportamentos sexuais desviantes
Serve para monitorar: libertação de prisioneiros, alta parcial ou aqueles que a quem foram dadas penas suspensas (cumprem medidas na comunidade).
Fotos:

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Santo Daime, drogas, religião, loucura e crime

Monday, 15 March 2010

Para os leitores de Portugal, que não devem estar sabendo da polêmica e do crime que ocorreu no Brasil, vou esclarecê-los ligeiramente:

Glauco, um famoso cartunista brasileiro, foi assassinado juntamente de seu filho mais velho de 25 anos neste fim de semana em sua casa em São Paulo. O cartunista também era "bispo" de uma seita religiosa brasileira, o Santo Daime, que começou na amazônia algumas décadas atrás. O conceito geral desta seita (que pode ser conferido melhor e em detalhe na wikipedia) gira em torno de uma bebida alucinógena conhecida como Santo Daime.
Há pouco tempo atrás, a bebida foi descrimininalizada para uso religioso. O cartunista aparentemente foi morto por um dos membros de sua seita que dizia ser "Jesus" enquanto estava com aspecto intoxicado.

O texto abaixo é um artigo de opinião de Reinaldo Azevedo, colunista da Revista Veja, que tenta dissecar melhor a confusão de drogas, religião e loucura que parece ter se misturado neste episódio.


GLAUCO E RAONI: CRESCEM AS CONTRADIÇÕES



segunda-feira, 15 de março de 2010
5:53


Impressionante a agressividade de alguns comentários por conta dos dois posts que escrevi sobre o assassinato do cartunista Glauco e de Raoni, seu filho. Impressiona porque estou me limitando a apontar algumas contradições numa história trágica, mas cujo enredo poderia ser muito simples. Alguns também estão furiosos porque contestei, e o farei de novo — não tentem me intimidar com correntes de opinião porque isso nunca funciona — que o daime seja uma “doutrina cristã”.


Há dois líquidos que podem fazer parte de narrativas cristãs: água e vinho. Fora disso, é invenção sem lastro histórico. A liberdade de expressão garante que as pessoas chamem o que bem entenderem de “cristianismo”. Um mínimo de rigor dirá que afirmar que o daime é uma “doutrina cristã” é uma bobagem.


CONTRADIÇÕES
Começo pela questão mais importante no momento, que é descobrir, afinal de contas, o que aconteceu, com a conseqüente punição do assassino. As contradições vão se avolumando.

1 - O advogado - A primeira e mais óbvia atende pelo nome de Ricardo Handro, advogado de Glauco. Ele tem de vir a público para explicar por que concedeu uma entrevista afirmando que se tratava de uma ação de bandidos comuns. A imprensa quer fazer de conta que isso não aconteceu e dar um chá de sumiço no rapaz? É uma vergonha que aja assim. Ontem, no Fantástico, “Madrinha Bia”, mulher de Glauco, deu a sua versão dos acontecimentos. Quando Handro concedeu a sua entrevista, certamente já havia falado com a viúva. Foi a polícia que descobriu que Cadu, o assassino, era um “conhecido da família”.


2 - O acompanhante - Eu havia estranhado que alguém em surto, dizendo-se Jesus, conseguisse arrastar um parceiro em sua maluquice. Ontem, Felipe de Oliveira Iasi, que acompanhou Cadu à casa de Glauco, apresentou-se à Polícia. Segundo Bia, ele não parecia “muito normal porque estava com o olho muito arregalado, sabe?”. Sei. A viúva diz que ele assistiu a tudo, impassível, sentado no sofá. E que saiu de lá em companhia do assassino.


3 - Onde ficou Felipe? - O advogado de Felipe afirma que não foi assim. Seu cliente teria ficado no carro e deixado o local antes de saber do duplo homicídio. Vamos ver: o rapaz é coagido pelo amigo, ameaçado por uma pistola, a conduzi-lo até a casa do cartunista. Tão logo o surtado desce do carro, Felipe, em vez de ir embora e chamar a polícia, preferiu ficar por ali, dando um tempo…


4 - A versão de Juliana - O curioso é que, segundo o delegado Archimedes Cassão Veras Júnior, Juliana, enteada de Glauco e filha de “Madrinha Bia”, endossa, nesse particular, a versão de Felipe, não a da mãe. A moça foi ouvida na sexta-feira.


5 - Ser ou não Jesus - desde que ficou evidente que a versão inicial do advogado Handro era falsa, todos só concordam numa coisa — e essa coisa não deixa de ser, diante da Justiça, FAVORÁVEL A CADU: ele seria meio maluco. Até o depoimento de “Madrinha Bia” caminha por aí. Passou-se a noticiar a versão de que o rapaz queria que Glauco asseverasse a sua mãe que ele era “Jesus”. Diz Bia ao Fantástico:


“Ele queria que o Glauco afirmasse que ele era o poderoso. Aí eu mesma afirmei que ele era Jesus. Eu falei: ‘não, pra mim você é Jesus’. O Glauco em nenhum momento afirmou”.


6 - Encontro de versões - Atenção para um detalhe que parece sutil, mas que pode se tornar central. Notem que, então, essa história de que o rapaz era Jesus foi uma tentativa da “Madrinha Bia” de aplacar o surto de Cadu — não teria partido dele próprio. Segundo o advogado de Felipe, no entanto, quando seu cliente foi rendido, o outro já se dizia “Jesus”. Não lhes parece que há o risco de estarmos diante de uma espécie, assim, de encontro de versões?


7 - Conveniência - Tenho algumas hipóteses e dúvidas, como todo mundo. De uma coisa, no entanto, EU JÁ NÃO DUVIDO MAIS. Caracterizar Cadu como maluco tornou-se conveniente para todo mundo: 1) para a igreja Céu de Maria; 2) para o acompanhante Felipe; 3) para o próprio assassino.


PATRULHA


E agora falarei um pouco da patrulha. Cada um, reitero, chame de “cristão” o que bem entender. Eu me dou o direito de discordar. Não custa lembrar que o nome da igreja de Glauco, ”Céu de Maria”, não é exatamente uma homenagem à mãe do Cristo, à Imaculada. Segundo apurei — e parece ser notório —, é uma referência à “Santa Maria”, nome como é conhecida a maconha para, vá lá, uso ritualístico. Sua igreja pertencia a uma dissidência que passou a incorporar essa erva nas cerimônias: como, em que condições e para quem, bem, isso, confesso, não sei nem me interessa.


Na Internet, há um intenso debate sobre distorções a que o daime original teria sido submetido. Confesso que acho esse debate aborrecido porque fica parecendo uma guerrinha de religiões. O que acho preocupante, aí sim — e se torna um assunto de saúde pública —, é que substâncias psicoativas sejam usadas em cerimônias religiosas, eventualmente atraente a jovens, sem, parece-me, uma abordagem criteriosa.


Comecei a ter crises de pânico em 1986, antes de a doença virar arroz de festa nas igrejas pentecostais eletrônicas — que atribuem a coisa a manifestações do capeta. Curei, ou controlei (estou sem ela há uns 10 anos), a minha doença com antidepressivos. Os vigaristas prometem resolver tudo com o dízimo… À época, a coisa era de diagnóstico difícil; os médicos tinham receio de abraçar essa abordagem. Tive sorte.


A primeira recomendação do médico que passou a cuidar de mim: “Se você fuma maconha, pare; está provado que ela precipita crises de pânico”. Eu não fumava. Mas me surpreendi que algo tido como “inofensivo” (nunca acreditei nisso) pudesse estar associado a uma doença tão terrível. Até hoje, há quem confunda Síndrome do Pânico com medo de avião ou de barata… É um troço devastador.


Não é segredo para ninguém que o daime está atraindo viciados em drogas, que encontrariam nos cultos — e os jornais andaram publicando testemunhos — uma chance de se livrar do vício. Durante um bom tempo, a religião ficou restrita a um círculo de iniciados. Passou pela fase da glamorização, com a adesão de artistas e de descolados (seria a nossa “cientologia do cipó?”), e está começando a se popularizar. Segundo o testemunho de uma fotógrafa, publicado na Folha, administra-se a bebida também a bebês em cerimônias de batismo.


Não vou debater a metafísica do daime e seu impressionante sincretismo. O que acho preocupante nessa história não é o alcance teórico da teologia, mas a ainda ignorância do alcance químico desta particularíssima eucaristia.


E só para encerrar: não estou satanizando pessoas ou religiões. Estou exercendo o meu direito de expor estranhamentos. Acho que eles colaboram para que a morte de Glauco e a de Raoni não terminem sem culpados.

Como transformar crianças em bandidos

Tuesday, 9 March 2010

Daniel Martins de Barros, autor do blog Psiquiatria e Sociedade é coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense do IPq. Ele entende de psicopatia, sendo seu trabalho diário e escreveu o livro "O que é Psiquiatria Forense", (ed. Brasiliense). O caro colega acabou de me indicar que já havia escrito algo sobre a "formação" de um psicopata em seu blog, o qual recomendo a leitura.

O texto original pode ser conferido neste link. A transcrição vai abaixo:

Como transformar crianças em bandidos



Postado por Daniel Martins de Barros


Chocante o vídeo do sequestrador Rafael de Borba, que o mostra conversando com seu filho e sua sobrinha, como se os ensinasse a roubar. "Cadê meu dinheiro, boneca!", diz ele para que a sobrinha repita, logo antes de mostrar-lhe como dar coronhadas na boneca com o revólver de plástico que ela empunha.

O choque, acredito, vem do contraste entre o conteúdo aversivo e a aparente frivolidade de Borba, tranquilamente deitado numa rede como se estivesse sendo filmado num churrasco em família.

Tanto a palavra ética (do grego, ethos) como a palavra moral (do latim, mores) têm seus significados originalmente ligados a "costumes": a forma como as coisas são, os hábitos de uma comunidade. Com o tempo seu sentido evoluiu de descrever os usos e costumes para referir-se ao que é certo, qual a boa conduta; afinal, definir o certo, o correto - o bom, enfim - apoia-se em grande parte naquilo que é feito e aceito pela maioria.
 E isso é o mais aterrorizante nas imagens: a atitude descontraída do pai mostra que menos do que ensinando as crianças a roubar, ele estava estava em família, brincando como qualquer pai e tio fazem; e também ali o conteúdo das brincadeiras infantis, como soe acontecer, é uma simulação do mundo adulto vivenciado pelas crianças. O horror é perceber que o crime, a violência, o desrespeito pela integridade física do próximo são o mundo daquelas (e de quantas mais?) crianças.
Esse menino e essa menina estão condenados a serem bandidos? Não. Se se tornarem criminosos, poderão alegar que não tinham alternativas? Também não. Mas é com tristeza e uma ponta de desespero que somos confrontados com o fato de que, no final das contas, aquele comportamento, para eles, é ético, pois em seu contexto é assim que "as coisas são".

Receita para criar psicopatas III

Como escrevi anteriormente em "Receita para criar psicopatas", este post é sobre o desenvolvimento de um crime brutal e todas as oportunidades perdidas para intervenção. Antes de entrar no mérito do crime, vou rapidamente dar uma passada pela teoria psicanalítica da psicopatia.

Muitos já torceram o nariz ao ler só o primeiro parágrafo. Explico: a teoria psicanalítica já teve seu lugar na Psiquiatria, mas como não tem validação científica (i.e., não existe um experimento que prove/disprove suas teorias pois elas são de certa forma únicas e pessoais e hoje vivemos a psiquiatria da generalização, da estatística das massas) ela tem sido progressivamente deixada de lado. Longe de levantar a bandeira de que toda a teoria psicanalítica é válida em todas as situações, acredito que é um instrumento afiado do arsenal psiquiátrico já que fornece hipóteses e teorias sobre o desenvolvimento humano.

Acredito que quase todo mundo pelo menos ouviu falar do Complexo de Édipo. De forma muito, mas muito simplista, vou explicar: O Complexo de Édipo ocorre mais ou menos aos 5 anos de idade (seja para meninos ou meninas, mas vou falar sobre os meninos pois é mais fácil de entender). Quando o bebê nasce, mãe e bebê se tornam um binômio, praticamente inseparáveis e o pai fica meio de lado (já notaram que todas as visitas são para mãe e bebê, todos os presentes?). Esta situação perdura até mais ou menos os 5 anos de idade da criança quando o pai cansa deste amor platônico do menino pela mãe e finalmente diz: "Chega! Tua cama é aquela, você não dorme aqui e a mulher é minha e não sua!" (Claro que em sentido figurado). O papel do pai é extremamente importante no Édipo pois ele é o portador da Lei, ou seja: ele traz a censura, o que é certo e errado e regras para a criança seguir.

Se tudo correr bem, a criança entende que o pai é maior que ela e teme pela sua integridade, obedecendo-o e indo para sua cama, resolvendo seu amor pela mãe e crescendo de forma saudável. Esse é o resultado neurótico, o resultado esperado do conflito edipiano (que acontece para a grande maioria de nós). Segundo as teorias psicanalíticas, pacientes psicóticos nem mesmo chegam a esta etapa e vivem em um estado de fusão com a mãe (o binômio nunca foi quebrado) e daí sua dificuldade em estabelecer sua identidade e limites.

Mas o que me interessa aqui hoje nesta teoria é a formação do psicopata:
Na teoria psicanalítica, o psicopata também passa pelo complexo de Édipo. Ele também quer a mãe só para si e nutre amor por ela (como nos outros casos). O pai chega então para trazer a lei: "vá para a tua cama, etc, etc.". A criança entende que o pai é a lei, reconhece a existência da lei e o obedece. Até aqui tudo bem. Entretanto, o psicopata tem uma  "mãe sedutora", que assim que o pai vira as costas vai até o quarto da criança e a busca de volta a sua cama a dizer "o pai saiu, não está em casa... o que ele não vê não lhe magoa" (claro que tudo aqui em sentido figurado!). Ou seja: na formação desta criança ela aprende que existe a lei, aprende que existem represálias se a lei for descumprida, mas aprende também que existem recompensas pelo descumprimento da lei, que ela pode fazer o que quiser quando o pai (Lei/sociedade) não estiver olhando.

E isso é muito importante: um psicopata não é um psicótico que obedece cegamente às alucinações e mata alguém porque acredita cegamente no que as alucinações lhes dizem. Um psicopata é uma pessoa aparentemente normal, que sabe o que é certo e errado mas sabe que o descumprimento das leis leva a gratificações. Uma pessoa de base neurótica (a maioria de nós), se faz algo de errado, não dorme à noite. Pode ser que durma no começo, mas em 20 anos a culpa chega e ou ela encontra religião, ou muda para Índia para ser Hindu ou desenvolve alguns transtornos mentais, etc... Um psicopata não tem culpa. Após cometer os crimes mais atrozes, ele dorme perfeitamente feliz porque a culpa, que é aprendida no Complexo de Édipo (e daí a importância do pai) foi lhe negada. E sem culpa, as leis de nada valhem.

Não pense que um psicopata é apenas um serial killer. Existem diversos graus de psicopatia e muito provavelmente você conhece ou trabalha com um. Os graus mais leves vemos em empresas, por exemplo, nas quais um funcionário faz o que for possível para subir na vida, pise em quem pisar, cause as demissões quer for para atingir seus objetivos. Os graus mais severos conhecemos pelos filmes de Hollywood.

O que quero que o leitor entenda, é que isso tudo são TEORIAS e não verdades absolutas. Já há muito que a psiquiatria abandonou a velha noção de que tudo são culpas dos pais. Esta explicação é uma alegoria para que o leitor identifique os passos de negação e punição da história que vou descrever a seguir (e também possa entender melhor o post "Receita para criar psicopatas I")


O assassinato de James Bulger

Os leitores mais velhos provavelmente se lembrarão deste crime, pois lembro de tê-lo visto no Jornal Nacional em 1993. O assassinato de James Bulger voltou à midia inglesa recentemente e encontro paralelos com outro crime brasileiro que descreverei na conclusão.

James Bulger
James Bulger era um menino inglês de 2 anos que estava com sua mãe em um shopping center e desapareceu em 12 de novembro de 1993. Denise, sua mãe, notou que James desaparecera de dentro de uma loja: ele havia saído por conta própria e foi visto por dois garotos, que se aproximaram dele, conversaram com ele e o levaram pela mão para fora do shopping. Quando as autoridades revisaram os filmes das câmeras de segurança, observaram duas crianças de 10 anos, Jon Venables e Robert Thompson, que roubavam vários itens como um boneco troll, baterias e uma lata de tinta azul, que foram encontrados posteriormente com o corpo de James Bulger. Além disso, os dois observavam várias crianças e posteriormente admitiram que naquele dia estavam procurando uma criança para raptar e jogar na frente de um carro.

Os garotos andaram quatro kilometros com James, ao longo de um canal, parando apenas para espancá-lo no rosto e cabeça. Durante sua caminhada, os garotos foram vistos por 38 pessoas, que notaram claramente que James estava a sofrer, mas os meninos mentiram que ele era seu irmão e o estavam levando para casa. Eventualmente eles chegaram a uma linha de trem onde atacaram o menino: eles cobriram seu rosto de tinta azul, chutaram-no, jogaram tijolos, pedras e uma barra de ferro de 10kg em sua cabeça. Colocaram as baterias em sua boca e ânus e o deixaram. O patologista do caso disse no tribunal que James sofreu tantas fraturas e feridas, que era impossível identificar qual delas causou sua morte.
Antes de partir, os meninos deitaram o corpo de Bulger sobre a linha do trem e colocaram sua cabeça para baixo com pesos, na esperança de que um trem faria seu corpo desaparecer ou que a morte parecesse acidental. O corpo de James foi descoberto em 14 de Fevereiro.

Rapidamente a polícia identificou os garotos com ajuda das imagens do circuito interno do shopping. Venables e Thompson foram presos e como o crime causou comoção no país, a polícia divulgou as fotos dos dois. A divulgação causou choque na imprensa mundial, devido à tenra idade dos criminosos. Eles foram condenados pelo assassinato em 24 de novembro de 1993, tornando-se os assassinos mais jovens da história inglesa.

Os dois foram levados a um centro para criminosos juvenis e lá permaneceram até fazerem 18 anos. Embora no tribunal eles tenham sido condenados a uma pena perpétua (lifetime sentence), eles apelaram ao Tribunal Europeu e foram soltos, com pena suspensa, quando completaram a maioridade em 2002. Eles cumpriram 8 anos no centro juvenil e nunca passaram um dia em uma prisão para adultos. Para os que vivem no Brasil, pena suspensa na Europa ocorre quando a pessoa cumpre em regime aberto, mas fica proibida de certas atitudes e tem sempre de dar notícias a oficiais de justiça encarregados de seu caso.
Quando os dois foram soltos houve comoção novamente no Reino Unido, devido à gravidade e requintes de crueldade do crime. Para garantir a segurança do par, o governo gastou cerca de 1 milhão de libras para criar nova identidade, cartão de finanças (ou CPF), novos passaportes, garantia de emprego por toda vida para evitar que eles recaíssem na vida de crimes, eles foram impedidos de se encontrarem ou de voltarem à cidade onde cometeram o crime. Os jornais trazem diversos depoimentos dos oficiais que trabalharam com a dupla e dizem que nunca, nenhum dos dois, mostrou qualquer ressentimento ou culpa pelo ocorrido.
O caso voltou à mídia pois Jon Venables (que era visto como o menos cruel da dupla, dependente do outro menino) foi preso na semana passada acusado de possuir pornografia infantil grau 4 (numa escala de 1 a 5 onde 5 é o mais grave). A população está revoltada e exige conhecer sua nova identidade e clama que o governo foi leniente ao libertá-los tão cedo, que um crime tão grave deveria ter sido obrigatoriamente cumprido em prisão fechada.


A infância de Jon Venables

Em 1991, quando Jon tinha 7 anos, seus professores começaram a notar seu comportamento de busca de atenção: ele balançava sua carteira escolar, enquanto segurava na mesa, gemendo e fazendo barulhos estranhos. A professora o mudou para a frente da sala, onde poderia mantê-lo sobre vigilância, mas ele passou a jogar no chão objetos da sua mesa. Até então, a violência em Jon era auto-infligida: ele batia sua cabeça contra móveis, paredes e jogava-se no chão. Cortava-se com tesouras e rasgava suas roupas por nada. Às vezes ele destruia trabalhos de arte de seus coleguinhas e jogava objetos neles. A professora escreveu em suas anotações que seu comportamento tornava-se cada vez mais violento: certa vez ele aproximou-se por trás de outra criança e tentou sufocá-la com uma régua. Foram necessários dois adultos para separá-lo do outro menino e logo após ele foi tranferido para outra escola.

Em casa, o pai estava quase sempre desempregado. Jon era filho do meio e sentia-se ignorado, espremido entre duas crianças com problemas de desenvolvimento, que precisavam de cuidados especiais. Seus pais tinham um relacionamento tumultuado, sempre terminando e voltando. A casa estava sempre em pandemônio. Ambos os pais tinham história de depressão crônica e a mãe de Jon era dada a ataques histéricos e abusava física e verbalmente dele. Quando muito estressada, a mãe o mandava para a casa do pai, incapaz de lidar com o filho. Desde os 7 anos, os sinais de comportamento antissocial já estavam presentes: ele odiava as crianças da vizinhança, que tiravam sarro dele e de seus irmãos problemáticos. Além disso Jon apresentava estrabismo, o que lhe tornava um alvo fácil para as gozações das outras crianças.

Devido aos seus problemas na escola, Jon foi reprovado e foi então que conheceu outro menino que também havia sido reprovado: Robert Thompson. Assim que eles se conheceram, de criança que sofria com gozações, Jon passou a ser o bully. Eles passaram também a faltar às aulas e andar pela cidade. Os professores notaram que eles traziam à tona o que havia de pior na personalidade do outro. Jon era bagunceiro e violento e Robert era quieto, mas mentiroso e manipulador.

desenho de Venables sobre o filme Halloween

Quando passava o tempo na casa do pai, Jon assistia muitos filmes de terror que seu pai alugava. Jon gostava de filmes de Karate e fez desenhos sobre o filme Halloween. Entretanto, um filme específico parece ter influenciado mais que os outros: Brinquedo Assassino 3 (no Brasil ) ou Chucky 3: O Boneco Diabólico (em Portugal) (Child's Play 3)

Neste filme, a alma de um serial killer habita um boneco chamado Chucky. O boneco (mais ou menos do tamanho de James Bulger) mata diversas pessoas mas no final é morto em uma montanha russa/trem fantasma. Enquanto os heróis tentam matar o boneco, Chucky é desmembrado e tem tinta azul jogada em seu rosto. No dia do rapto e assassinato em questão, foi Jon que levou James pela mão e ele parecia ser o dominante, mentindo para os adultos que tentaram intervir. Ao que parece , eles viam James como um boneco (e o fato de terem colocado baterias em seu ânus parece dar crédito a esta teoria). É comum em análise de crimes observar uma desumanização da vítima. Encará-la como um boneco é uma forma de objetificá-la e torná-la apenas um veículo para o prazer do perpretador, ao invés de reconhecê-la como um ser humano com nome, desejos, sonhos e família.

A forma como a justiça lidou com o crime e o comportamento de Jon Venables durante sua estadia no Centro Juvenil só agora vieram completamente à tona. E vejo paralelos com outro crime chocante, este ocorrido no Brasil.

Em 2007, João Hélio, de 6 anos, estava com a mãe e a irmã em um carro quando bandidos os cercaram para roubar o veículo. A mãe e a irmã saíram do carro, mas João Hélio ficou preso pelo cinto de segurança do lado de fora. Ezequiel Toledo de Lima, então com 16 anos, viu que o menino estava preso mas riu-se. Os bandidos arrancaram com o carro e dirigiram por 5 quilômetros, com João Hélio sendo arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro. Diversas pessoas interviram e disseram que havia uma criança pendurada do lado de fora do carro, mas Ezequiel ria-se e respondia que era apenas um boneco de Judas (novamente o boneco).
Todos foram presos e condenados. Ezequiel cumpriu 3 anos de medida sócio-educativa e no momento a justiça brasileira está a decidir se ele continua em regime semi-aberto ou se deve receber nova identidade para protegê-lo de represálias através do Programa de Proteção às Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM). A sociedade brasileira está espantada com a leniência da justiça. Ao que parece, Ezequiel ainda participou de 2 rebeliões enquanto esteve detido, feriu um funcionário do centro e matou um policial.

Se os meninos do caso Bulger tinham apenas 10 anos e um deles mesmo assim reincidiu (gravemente), que espera a justiça brasileira no caso de Ezequiel? Como lidar com criminosos que apresentam psicopatia grave?


Referência:
True Crime Library http://www.trutv.com/library/crime/notorious_murders/young/bulger/8.html


Fotos:
Complexo de Édipo: http://morandonaamerica.com/wp-content/uploads/2009/09/Oedipuspaint.jpg
Hospital Psiquiátrico: esse cartoon é meu mesmo. Eu o vi em algum lugar (uma palestra talvez) e não consegui o achar no google, então desenhei por mim mesma. Peço desculpas aos artistas se vos ofendi.
James Bulger: http://en.wikipedia.org/wiki/File:James_bulger.jpg
Jon Venables e Robert Thompson: http://www.theage.com.au/ffximage/2004/11/28/29n_ven,0.jpg
http://www.dailymail.co.uk/news/article-1256190/Revealed-The-horror-drawing-Jon-Venables-weeks-killed-James-Bulger.html
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Childsplay3.jpg

Avaliação de Riscos e Manejo da Violência em Psiquiatria Geral

Thursday, 4 March 2010

Doença mental e violência


Swanson et al (1990)
Violência ocorre em 8% dos pacientes com diagnóstico de esquizofrenia, 13% dos pacientes com diagnóstico de esquizofrenia e uso de substâncias contra apenas 2% da população geral.

Monagham e Applebaum, 2000:
• Pelo menos um ato de violência era cometido nas 20 semanas após alta médica por 18,7% dos pacientes
• Uso de substâncias estava altamente associado com violência, seguido por transtornos de personalidade e outros transtornos psicóticos.
• Esquizofrenia estava associada à menor prevalência de atos de violência neste grupo (9%)

Estudos cohort desde o nascimento (Brennais et al, 2000): Aqueles que mais tarde desenvolvem doenças mentais apresentam risco aumentado de violência

Estudos em prisões:
Maiores taxas de doença mental na população prisional (9% - Taylor e Gunn, 1984). 7,2% daqueles que cometeram homicídios apresentavam esquizofrenia, quando comparados a apenas 1% na população geral

A proporção de indivíduos com doença mental que realiza atos de violência varia com a taxa de violência dentro de uma população: Será menor quanto maior a taxa de violência da mesma população.

*Pacientes esquizofrênicos são mais provavelmente vítimas que perpretadores*

Dinâmica e estatística dos fatores de risco

Risco pode ser classificado em:

Estatístico (aquele que não pode ser alterado – menos útil para manejo e tratamento)
• Idade
• Sexo masculino
• História sócio-econômica
• História de transtornos de conduta
• História pregressa de violência

Dinâmico (pode ser alterado com tempo)
• Abuso de drogas
• Sintomas psicóticos ativos
• Insight
• Raiva
• Circunstâncias sociais
• Traços de personalidade

Desvinculamento de laços afetivos precoces e exposição a experiências adversas na infância pode levar à
• Psicopatologia (mais tarde no desenvolvimento)
• Inabilidade de se relacionar apropriadamente (mais provável de responder com raiva/agressão)
• Desenvolvimento subsequente de transtornos mentais ou criminalidde

Sintomas psicóticos

Conexão entre comportamento antissocial e
• Delírios persecutórios (Swanson et al, 2006)
• Suspeição (Swanson et al, 2006)
• Alucinações (particularmente as de comando)
• Delírios nos quais está a ser ameaçado
• Delírios paranóides de controle pessoal sendo retirado
• Delírios de ciúmes e ataques em parceiros

*Sintomas negativos parecem diminuir o risco de violência (Swanson et al, 2006)

Foto: http://2.bp.blogspot.com/_KPljJfZDDsc/R1rklQAo2GI/AAAAAAAAAG0/9KmmTM03aVY/s320/intrusive%2Bthoughts.JPG

O que se passa na cabeça de um maníaco?

Wednesday, 3 March 2010

Este texto foi indicado no twitter pelo psiquiatra Daniel de Barros, do Blog Psiquiatria e Sociedade.

Texto original pode ser lido aqui. Abaixo a transcrição:

O que se passa na cabeça de um maníaco?


Psiquiatra e especialista em perfil psicológico dão pistas para entender como funciona a mente de assassino de mulheres em série


Clarissa Passos, iG São Paulo
02/03/2010 18:07


Marcos Antunes Trigueiro, 32 anos, casado e pai de cinco filhos, foi identificado na semana passada como o suposto "Maníaco de Contagem", cidade na região de Belo Horizonte, em Minas Gerais. A ele foram atribuídos cinco estupros, seguidos de assassinato por estrangulamento. Teria sido possível reconhecer o perigo? O que passa pela cabeça de um criminoso em série que persegue mulheres?

Ilana Casoy, pós-graduanda em Criminologia pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e autora de livros sobre o tema, como "Serial Killer - Louco ou Cruel?" e "O Quinto Mandamento: Caso de Polícia" (ambos da Editora Ediouro), explica que as razões para um comportamento extremo, como o dos criminosos em série como Marcos, variam muito. "É impossível reduzir a uma só causa”, diz.

Para Frederico Abelha, delegado responsável pela investigação do caso de Marcos Trigueiro, o criminoso em série é alguém que sofreu, ao longo da vida, algum desvio. “Pode ser uma predisposição psiquiátrica, que é agravada por um evento traumático ou alguma frustração”, acredita ele.

O próprio termo usado pela imprensa ao noticiar casos deste tipo não é totalmente correto. "Maníaco não é um termo médico. É uma definição leiga para descrever alguém que comete crimes em série. Ele pode ser psicopata, ou apresentar algum tipo de parafilia, que é um transtorno da preferência sexual, como o sadismo", explica Daniel de Barros, psiquiatra e médico coordenador do NUFOR, Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica do Hospital das Clínicas de São Paulo. O termo foi o que restou de uma teoria do médico francês Jean-Étienne Esquirol, que no século 19 classificava como "monomanias" certas formas de loucura que levavam ao crime.

A terrível tríade

O criminoso em série apresenta algumas características comuns, como o que a escritora e especialista em perfis chama de "terrível tríade": piromania, enurese noturna até idade avançada e crueldade com animais ou crianças. Mas Ilana alerta: "Isso não é um diagnóstico, é uma estatística. Não quer dizer que toda criança com os três sintomas vai se tornar um assassino”.


É comum que criminosos em série tenham infâncias marcadas por trauma e abuso, porém, isso não é um sinal definitivo de que o adulto terá problemas. Há pessoas com histórias de infância violentas que, ao crescer, conseguem superar o trauma e até se tornam, por exemplo, coordenadoras de ONGs que lutam contra o tipo de violência que sofreram. "Não há um fator de definição", assinala.


Tampouco há exclusões. "Estudos do FBI (Federal Bureau of Investigation) demonstram que não é possível determinar um perfil básico do criminoso em série. Ele surge em qualquer classe social, de qualquer nível intelectual", diz o psiquiatra Daniel de Barros. E, na maioria das vezes, os problemas não começam no crime, especialmente para quem tem uma disfuncionalidade psicológica. "Fantasias, rituais e elementos violentos já estão presentes no indivíduo antes do início no crime", esclarece.

Diante de um evento estressor, o frágil equilíbro mantido até então se esvai. E o comportamento criminoso começa a se manifestar.

Fantasias criminosas

O criminoso em série é incapaz de controlar as fantasias. Do ponto de vista médico, ele pode ser diagnosticado como portador de diferentes doenças. Se é um psicopata, é incapaz de sentir empatia; portanto, não tem compaixão pelas vítimas. Se é um sádico, sente prazer no sofrimento alheio. O delegado Frederico Abelha conta que Marcos Trigueiro, mesmo confessando os crimes, não mostrava qualquer traço de arrependimento. “A brutalidade com que os atos foram cometidos foi o mais chocante”, diz, acrescentando que o fato de Marcos ser casado não o surpreendeu. “É muito comum que os criminosos em série tenham uma vida social aparentemente normal”.

Uma vez que a fantasia foge de seu controle, ele comete o crime e não é incomum guardar um "troféu" da vítima - um objeto que o ajude a rememorar o momento. Quando esta memória se torna esparsa, a tendência é que o criminoso sinta a urgência de agir novamente.

Há controvérsias sobre a possibilidade de que a coleção de troféus ou a "assinatura" do criminoso (o padrão de comportamento repetido em todos os crimes) sejam um indício de culpa, um desejo de ser pego. "Muitas vezes, são só elementos do mundo mental da pessoa", diz Daniel.


Destes elementos mentais vem também a escolha da vítima, feita a partir das fantasias do criminoso. Isso geralmente se traduz em um perfil de características comuns percebidas pelo público - no caso do acusado Marcos Trigueiro, todas as mulheres eram magras, morenas e altas. Mas nem sempre é assim tão claro. "Muitas vezes, o que estabelece o perfil da vítima é algo sutil, como um sapato, ou um trejeito", diz Ilana.

As raras vítimas que escaparam de um criminoso em série o fizeram através de uma manobra que exige oportunidade e presença de espírito - uma combinação rara de acontecer em uma situação do tipo. "Elas conseguiram porque, de alguma forma, se 'personificaram' para o criminoso. Assim, deixaram de ser aquele 'símbolo', saíram da fantasia dele", explica Ilana.


A popular impressão de que criminosos em série são uma especialidade norte-americana, e de que casos assim acontecem com pouca frequência no Brasil, é descartada pelos especialistas. "Os Estados Unidos têm os melhores sistemas e a melhor estrutura de investigação, por isso conseguem conectar os crimes entre si", explica Ilana. Daniel não descarta que exista um aspecto cultural na questão, mas concorda que a polícia de lá tem melhores condições de investigar.

Prevenção


O delegado Frederico Abelha explica que, para estes casos, os cuidados preventivos são os mesmos que uma mulher deve tomar contra estupros comuns. Ele recomenda andar com os vidros do carro sempre fechados, especialmente à noite. Também é importante deixar sempre alguém informado do seu paradeiro; assim, no caso de desaparecimento, a polícia pode agir rápido – e até evitar a consumação do crime.

O velho conselho de não conversar com estranhos é reforçado pelo delegado. “O crime não tem rosto”, ele alerta. Portanto, independentemente da aparência de quem se aproxima, tenha cuidado. E, se sofreu uma abordagem, reporte à polícia. Pode ser um criminoso serial tentando entrar em ação.

Casos de crimes em série


Século 19 – Jack, o Estripador


O mais clássico caso de um criminoso em série que atacava mulheres, foi o primeiro a ser amplamente coberto pelos jornais. Até hoje, tanto a identidade do assassino como o número de vítimas feitas por ele são uma incógnita – 11 corpos de mulheres foram encontrados mutilados na região de Londres onde ele agia, e onde elas trabalhavam como prostitutas.


Anos 60 - Chico Picadinho


Francisco Costa Rocha foi condenado pelo assassinato e esquartejamento de duas mulheres. Ele disse ter agido sob influência do romance "Crime e Castigo", de Dostoiévski. Ele continua preso.


Anos 60 - Albert DeSalvo


Acusado de ser o Estrangulador de Boston, responsável pela morte de 13 mulheres. Casado, ele foi criado em um lar violento, com um pai abusivo. Apesar de passar à história como um maníaco, ele nunca foi formalmente acusado, nem julgado pela série de crimes.


Anos 70 - Ted Bundy


O norte-americano Theodore Robert Cowell, atuou entre 1973 e 1978. São atribuídos a ele 35 assassinatos de mulheres, atraídas por sua educação e boa aparência – Ted costumava usar um gesso falso e pedia que as potenciais vítimas o ajudassem a carregar uma pilha de livros.


1998 - Maníaco do Parque


Francisco de Assis Pereira, motoboy, foi condenado pelo assassinato de 8 mulheres. Os corpos das vítimas apresentavam sinais de violência sexual e foram encontrado no Parque do Estado, divisa de munícipio entre São Paulo e Diadema.


2008 - Maníaco da Cruz


O adolescente matou três pessoas - duas mulheres e um homem - na cidade de Rio Brilhante, no Mato Grosso do Sul. Os corpos foram encontrados nus, com as pernas fechadas e braços abertos em posição de cruz. Condenado em 2009, ele disse que matava para "purificar".

Posted by Vanessa at 08:52 0 comments